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Children Of Bodom: Show legal, mas ficaram faltando muitas músicas

Resenha - Children Of Bodom (Olympia, São Paulo, 10/08/2004)

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Por Carlos Eduardo Corrales
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O Children Of Bodom, ou seus fãs brasileiros, realmente não dão sorte nos dias escolhidos para seus shows. Se sua primeira visita a São Paulo aconteceu em um domingo, sua segunda apresentação na cidade ocorreu numa mais improvável ainda terça-feira.

Marcado para começar às 9 da noite, a intro começou a ser tocada apenas às 9:45. A banda entra no palco muito aplaudida e, infelizmente, a primeira impressão já não foi tão boa. Alexi Laiho entra com a boca cheia de água (ou algum outro líquido) e cospe na direção da platéia. Se apenas as pessoas das primeiras filas foram abençoados pela baba de Laiho, o mesmo não se pode dizer dos pobres fotógrafos, que faziam seu dever no chiqueirinho e ficaram encharcados. Eu, minha câmera e os colegas que lá estavam ficamos todos molhados.

Indiscutivelmente, uma atitude lamentável do guitarrista, que deve achar que existem pessoas que vão falar: "Meu, o Alexi Laiho cuspiu em mim, nunca mais vou lavar essa roupa". E, pela reação dos fotógrafos pude constatar que não fui só eu que me incomodei com esse desnecessário showzinho do líder da banda.

Pouco depois da cusparada, a banda começou o show com a excelente Hate Me (mesma música com que iniciou seu show anterior em São Paulo), que infelizmente não teve aquele teclado à la Psicose de sua introdução. Mesmo assim, a música é muito boa e foi uma ótima escolha para iniciar o show. Curiosamente, o baixista Henkka T. Blacksmith e o baterista Jaska Raatikainen já entraram no palco sem camisa, embora estivesse um frio fortíssimo. Bem, provavelmente para alguém que veio da Finlândia, a temperatura desta noite fosse o suficiente para ir à praia, ou para um banho de piscina, vai saber.

Entre todas as músicas, o tecladista Janne Warman fazia pequenos solinhos, enquanto a banda se preparava para a próxima música. A qualidade do som estava boa, com o único senão de o volume do teclado estar muito baixo. A produção do palco se resumia a um belo e imenso pano de fundo. Sem pirotecnias ou efeitos especiais, a banda fez um show concentrado unicamente na música. Outra curiosidade é que os solos de guitarra soam menos limpos ao vivo. Chega a dar a impressão de que Laiho freqüentemente esbarra o dedo entre uma casa e outra da guitarra. Claro que precisamos dar um desconto para o cara, pois seus solos são bem complicados e muitas vezes são simultâneos aos vocais.

Duas músicas da "série Bodom" foram tocadas ainda no início do show: Silent Night, Bodom Night e Bodom After Midnight, animando muito a galera. Sixpounder veio a seguir e não foi tão bem recebida como deveria, já que é uma música muito legal, seguida de Angels Don’t Kill, também do mais recente CD Hatecrew Deathroll.

A banda sai do palco, deixando o excelente Janne Warman (alguém já reparou como esse cara parece um dos Hanson?) para seu solo individual. Eu normalmente odeio solos individuais, pois acho que sacrificam músicas que os fãs gostariam de ouvir e servem apenas para massagear o ego dos músicos (coisa que as groupies devem fazer bem melhor), mas devo admitir que esse foi bem legal, por um simples motivo: Alexi Laiho invade o palco e começa a duelar com Janne, lembrando aquela cena clássica do filme Encruzilhada (que conta com Steve Vai). Muito legal.

A banda volta ao palco e tocam a faixa de abertura do mais novo álbum, Needled 24/7, que empolgou todo mundo, ainda mais porque foi seguida de dois grandes clássicos, Deadnight Warrior e a ótima Towards Dead End (a introdução dessa música é fantástica).

Depois de três músicas legais, vem a parte mais chata do show: o famigerado solo de bateria. Bom, a qualidade do solo não foi suficientemente alta para mudar meus conceitos em relação a estes solos e não vou ficar repetindo minhas opiniões sobre o assunto em quase todas as minhas resenhas de show, já que quase toda apresentação de Metal tem seu solo de bateria.

A banda volta e, durante Kissing The Shadows, Alexi coloca um boné jogado pela platéia (e se o boné tivesse piolho?). Ao final dessa música, o vocalista anuncia a próxima, convidando a platéia para gritar palavra por palavra seu nome. A música era Hatecrew Deathroll.

Uma das músicas mais conhecidas do Children, Everytime I Die vem a seguir para encerrar a primeira parte do show. Essa música tem uns riffs muito empolgantes, perfeitos para bater cabeça e foi, é claro, muito bem recebida. Também marcou um dos poucos momentos onde Warman usou as duas mãos para tocar o teclado, já que em praticamente todo o show, ele usou apenas uma mão. E em muitos momentos, ele simplesmente pára de tocar. O cara é um tremendo tecladista, mas usando apenas uma mão para tocar, usa apenas metade de sua capacidade. Creio que os arranjos da banda ganhariam muito, caso Janne trabalhasse ainda mais o seu instrumento. E capacidade para isso ele tem.

A banda sai do palco por alguns segundos (pois é, o bis que, há algumas décadas, era espontâneo está ficando cada vez mais burocrático) e volta com Alexi dizendo que, para Janne tocar, o público vai ter que gritar bem alto "Play, motherfucker". Conta até três e a platéia grita a frase pedida. Janne então faz a introdução do clássico do Dio, Holy Diver e pára de tocar. Novamente Alexi conta até três e a frase é novamente entoada pela galera. Tocam mais uma música e Alexi se despede com a singela frase "We fuckin’ love you" e deixam o palco definitivamente, ao som de Wild Side, do Mötley Crue, depois de uma hora e vinte minutos de show.

Ouvindo o comentário do pessoal na saída, vi que muitos acharam o setlist extremamente fraco. Eu não achei fraco, achei curto. No geral, o show foi legal, mas realmente ficaram faltando muitas músicas, como Lake Bodom (que absurdo não tocar essa) e Children Of Decadence (que, pelo que sei, nunca foi tocada ao vivo, mas é muito legal). Ao meu ver, também faltou uma maior interação da banda com o público. Sobraram "Fuckin’" e faltou simpatia.

Uma coisa que nunca entendi é porque bandas finlandesas (com exceção do Stratovarius) teimam em fazer shows tão curtos. É assim com o Nightwish, com o Sonata Arctica e com o Children Of Bodom, apenas para citar alguns exemplos. Me parece um desperdício a banda sair do outro lado do mundo para fazer um showzinho que não chega a 90 minutos (e show que é show tem que ter no mínimo duas horas) para o público brasileiro. Claro que o tempo de show é irrelevante para o cachê da banda e, conseqüentemente, para o preço dos ingressos. E por isso, quem sai perdendo? O público, é claro, que acaba assistindo a apenas uma hora de suas músicas preferidas (pois os outros vinte minutos são consumidos pelos solos individuais). Uma pena, pois o público brasileiro merece muito mais que isso.

Carlos Eduardo Corrales é editor do site
DELFOS – Diversão e Cultura
http://delfos.zip.net