Pearl Jam: Aquela garra e explosão ficou para trás?
Resenha - Pearl Jam (Mountain View, California, 01/06/2003)
Por Bruno Romani
Postado em 01 de junho de 2003
Com o passar dos anos, aquela garra, explosão, e infindável capacidade de produzir grandes canções parecem ter sidos deixados pelo Pearl Jam no meio do caminho. As últimas tentativas de estúdio da banda parecem incrivelmente variarem apenas entre o mediano e o péssimo. No entanto, se teve algo que a banda conseguiu fazer com extrema qualidade, foi a transição quase perfeita de uma banda tida anteriormente como alternativa para um estágio apelidado pelos conterrâneos do Tio Sam de "Arena Band." Quem esteve em Mountain View, pequena cidade entre San Francisco e San Jose, no último dia 1 de junho pôde conferir essa metamorfose do grupo de Seattle de perto.
Se no passado o Pearl Jam combateu o monopólio da Ticket Master, agora no papel de uma "Arena Band", a banda não só fez uso da empresa para vender os 20 mil ingressos de acesso ao Shoreline Amphitheater, como também cobrou alto por isso. Cerca de 45 dólares o ingresso. Dando continuidade na epopéia, o espectador ainda era forçado a pagar 20 dólares de estacionamento, e caso quisesse "tomar uma," seria obrigado a desembolsar 10 dólares pelo copo de cerveja. Detalhes à parte, o fato é que o anfiteatro estava lotado, e agonizava em espera pela banda na noite transmutada de dia no verão californiano. Nem mesmo os irlandeses do IdleWild, uma cópia européia do Pearl Jam, conseguiram em seu número de abertura animar as pessoas no local. Fãs de Arena Bands, não devemos nos esquecer, são devotos aos seus ídolos, e o resto é apenas mera complementação imperfeita desse mundo.
Destoando das tradicionais bandas de arena, como Kiss ou Aerosmith, o Pearl Jam subiu ao palco sem efeitos espalhafatosos e coisas dignas dessa turma farofeira. Luzes apagadas, e lá estavam Eddie Vedder e sua turma começando. de certa forma até estaticamente, com a soturna "The Long Road." Enquanto isso, era possível notar ao fundo o interessante sistema luminoso da banda, que consistia de uma torre horizontal de luzes que movia-se verticalmente conforme a necessidade da banda de criar o clima ideal para cada canção.
O que se viu em seguida foi um set-list muito agressivo e metículo, tendo em vista que todos os momentos da carreira foram passados a limpo. "Do the Evolution," "Animal," "Even Flow" e "Corduroy" estavam lado a lado com o último single "I am Mine," a analítica "Green Disease" e a futurista "You Are," sendo essa possívelmente uma das melhores músicas já produzidas pela banda nos últimos tempos. Como uma boa banda de arena, o Pearl Jam comandou o tempo todo entusiasmados coros da platéia e coreografias com palmas típicas daqueles shows de festivais europeus. Tudo muito estranho para o gelado público americano, que em certos momentos parecia deixar Eddie Vedder sozinho em suas animadas tentativas.
Como não poderia deixar de ser, Mike Mccready despejou toneladas de solos de guitarra, lembrando aos mais desavisados que aquela era, iniciada pelo movimento grunge, de total abolição dos solos de guitarra faz parte do passado. O público delirou com os interminantes solos em muitos momentos, no entanto, outras vezes, a enormidade dos solos parecia arrefecer o clímax da apresentação, deixando a diversão apenas para o solista.
Descanso para banda e público só veio mesmo após mais de uma hora de apresentação quando Jeff Ament assumiu um baixo acústico para a execução do hit "Daughter" e das canções "Thumbing my Way" e "Present Tense." Tanta calmaria, acompanhada devidamente por isqueiros e olhares apaixonados, foi rapidamente quebrada por "Insignificance" e "Go," aquelas que seriam as últimas músicas do primeiro ato do concerto.
Na volta para o primeiro bis, a banda, como uma boa banda de arena, teceu elogios ao público e prometeu voltar logo. O que poderia ser apenas uma rasgação de seda manjada, acabou transformando-se em vaias quando Eddie Vedder elogiou as Dixie Chicks, devido ao seu ativismo. A resposta de Vedder para as vaias ao grupo country estava na ponta da língua tão logo os primeiros ruídos foram ouvídos. "Anybody who boos the Dixie Chicks, you’re a fuckin’ pussy, and I’ll kick your ass," disse o politizado vocalista. O primeiro bis começou de uma forma intimista e apaixonada com "Love Boat Captain," seguida pelas baladas acústicas "Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town" e "Better Man." Registre-se aqui os belo momentos proporcionados por essa última canção, na qual a voz única, formada a partir dos milhares que lá estavam, cobriu a voz de Eddie Vedder quase que em sua totalidade.
O segundo ato do show ainda teve o blues "Crazy Mary," que mostrou mais um pouco da faceta de arena da banda, pois nessa o tecladista contratado (existe coisa mais Arena Band do que um tecladista contratado?) trocou enormes solos de seu instrumento com Mike Mccready. Para finalizar, o hino grunge "Alive" e a porrada "Porch," também da mesma época, fecharam o segundo ato do show. Matt Cameron, um dos melhores negócios já feitos pelo Pearl Jam, continua sendo um mestre na bateria, com a diferença de ter uma grande bagagem nas costas. É impressionante como o ex-batera do Soundgarden bate em seu prato de condução.
O segundo bis foi o que trouxe mais explicitamente o lado mais politizado da banda, que esteve rondando o palco durante toda a apresentação. Tocaram o cover do The Clash "Know Your Rights," a crítica deliberada ao presidente americano "Bush Leaguer" e terminaram as duas horas e meia de apresentação com "Fuckin Up," clássico do Neil Young. Ao final de tudo isso, para completar o pacote "Pearl Jam Arena Band," o espectador ainda poderia ir para casa, e pela bagatela de 20 dólares arrematar no site da banda o cd do próprio show em que estiveram presentes.
Analisando de perto tal concerto, é possível afirmar, no entanto, que a garra e a explosão da banda dos velhos tempos ainda estam lá, mesmo que em uma forma transmutada ou mais madura. O Pearl Jam cresceu para as grandes arenas, mas sua energia não foi deixada para tráz. Houve apenas um redirecionamento, e uma focalização dessas energias em algo realmente proveitoso. Como diria Eddie Vedder, "It’s evolution, baby!"
Set-List
1.The Long Road
2. Do The Evolution
3. Animal
4. Save You
5. Green Disease
6. Grievance
7. I Am Mine
8. You Are
9. Even Flow
10. Not For You
11. Corduroy
12. Habit
13. Daughter
14. Thumbing My Way
15. Present Tense
16. Half Full
17. Insignificance
18. Go
Bis 1
19. Love Boat Captain
20. Small Town
21. Better Man
22. Crazy Mary
23. Alive
24. Porch
Bis 2
25. Know Your Rights
26. Bush Leaguer
27. Fucking Up
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