Resenha - Thorns Gothic Rave (Pico do Jaraguá, São Paulo, 12/04/2003)
Por Leandro Testa
Postado em 12 de abril de 2003
"Eu fui na ‘rave’ do ano passado e sei a dimensão que são estas festas". É com a frase de um amigo que começo esta resenha, e, de fato, ele estava certo. Com os 3500 ingressos esgotados antes mesmo do grande dia, aqueles que chegavam até lá desprevenidos, voltavam totalmente frustrados por não haver venda na porta. E assim como nas outras edições (com exceção da terceira), tal evento foi realizado num local um tanto afastado da capital, o que fazia a perda da viagem um pouco mais dolorosa.
Mal eu sabia que por muito pouco não teria enfrentado a mesma situação, já que a resposta do e-mail de credenciamento estava prometida para a véspera (6a-feira) e, apreensivo, tentei a todo custo saber no sábado o que havia acontecido de errado. Só conseguia me imaginar molhando a mão de um cambista xarope...
Um dos meus últimos atos foi deixar o telefone chamar até a ligação cair, quando, inesperadamente, a secretária eletrônica da assessoria de imprensa entrou em ação. Que ser humano, num final de semana, estaria trabalhando ou passando por lá, mais especificamente dez horas antes do início de tudo, podendo assim atender uma mensagem frenética de apelo?
Daí em diante, posso dizer que estive envolto de sorte (e às vezes, azar): eu acabara de despertar de um cochilo vespertino, quando o celular (que não entendeu meu comando e continuava no ‘vibra call’) começou a tremer. Qualquer barulho teria sido a ruína, do tipo quando, minutos depois, a vizinha ligou numa dessas rádios populares. Felizmente, era o cara a quem eu procurava, sempre muito solicito (e eu atordoado), que tratou de acertar os detalhes já que não havia recebido meu pedido de dias atrás.
Foi ele quem me recebeu na entrada, e recinto adentro era só escolher o que fazer: assistir a um duelo de esgrima (que tinha um guerreiro ao melhor estilo Gimli – Senhor dos Anéis), balançar a pança na pista, olhar tipos esquisitos tingindo seus cabelos com cores bisonhas, fuçar as barraquinhas de RPG, livros, CDs e quinquilharias, além de performances de pirofagia e malabarismo, que estavam previstas, mas, infelizmente, não cheguei a ver.
Quem não se contentava, acabava por ficar ao lado da bancada que fornecia o disputadíssimo vinho na faixa (a noite inteira), e ainda havia aqueles mais exaltados, que mesmo num frio típico de Blashyrkh (terra imaginária do Immortal), resolveram dar um mergulho básico nas piscinas que ali haviam. Só faltou as meninas de lingerie usarem o escorregador que estava à mão.
Foi lutando contra o escuro para conseguir fotografar a batalha de espadas, que, aproximadamente às 0:00hs, o The Forest começou, lá ao alto, a executar sons de seus dois álbuns, com um rock gótico muito competente, mais voltado à própria sujeira da guitarra do que aos teclados (sintetizadores). Assim, o quarteto, já participante em 2002 da própria Thorns e do Halloween Festival, conseguia agradar a "conservadores" ou àqueles que preferiam uma distorção mais acentuada, ou seja, nós ‘headbangers’.
Não fiquei atento a todo o ‘set’, nem estava lá desde o começo, mas este provavelmente foi composto por "Save our Souls", "Joker in Silence", "Real Lies", "There’s no Way", "Lost Feelings", que não só gostei muito (da parte que peguei), mas também como à própria interpretação que os caras deram a clássicos como "Enjoy the Silence" (Depeche Mode), "Gimme Shelter" dos Stones, "Bella Lugosi is Dead" do Bauhaus, "Butterfly on a Wheel" (The Mission), "Ziggy Stardust" (David Bowie), "Cities in Dust" (Siouxie and the Banshees) e "Lucretia my Reflection" (Sisters of Mercy), provando que eles sempre terão espaço garantido nos próximos encontros, pelo menos devido à reação do público enquanto o vocalista principal, Sérgio Foltran, ia alternando a cantoria com o baixista Lizardman, tornando, assim, o contexto geral bem mais interessante. Muitas covers, mas, mesmo assim, valeu...
Acabado este, foi a nossa vez de beber o néctar dos deuses, e se sujeitos vampirescos, mortos-vivos, cavaleiros Nâzgul, criaturas das mais obscuras no maior desfile de capotes do planeta, não eram suficientes, acabava de ocorrer mais uma aparição: a drag-repórter Léo Áquilla e a ‘blitz’ da RedeTV foram ali melhor pesquisar sobre a cultura negra e a sexualidade dos presentes. Virou motivo de aglomeração e quem sabe eu não apareço também na telinha... :-)
Enquanto a atração seguinte não vinha, muita gente ainda dançava no salão (abafado, mas não havia melhor refúgio contra aquele tempo ingrato), porém, outros ‘curtiam um bode’ em volta da fogueira, para esticarem as pernas ao serpentear das chamas. Eu bem que teria ficado por lá caso meu infortúnio na estrada não tivesse acabado bem: após passar um ponto de referência ‘fantasma’, desértico, abandonado, apagado e todos os adjetivos que não o classificam como "ponto de referência", tive que ir mais adiante, tendo de pagar pedágio. Depois do retorno, para voltar pra pista certa, minha única opção era seguir em frente, e foi assim durante muitos quilômetros...
...até que encontrei a polícia rodoviária para melhor me informar. Segui pela direção dada e num dos meus constantes surtos repentinos de desespero momentâneo, percebi que a minha carteira não estava no carro. Resolvi voltar pelo acostamento e só pude ouvir ao longe uma sirene me advertindo. Putz...! Outro "ponto de referência" se foi... e assim, meus documentos pra entrar na ‘rave’.
Que rumo tomar? Só sei que foi o certo... vi depois a viatura à distância, e consegui alcançá-la. Pra minha alegria era o mesmo guarda, não percebendo que eu era o infrator que ele acabara de ver na contra-mão. Assim, por um fio não deixo de escrever esta matéria... Maldito sobretudo! Me livrou duma pneumonia, mas quase me ferra arrastando meus pertences e o mapa pra fora da caranga...
Foi assim, feliz da vida, e mesmo tendo perdido a abertura com os também paulistanos do Strangeways, que fui me aprofundar no trabalho do Venin Noir, vindos do Rio de Janeiro para mostrar seu debute, Rainy Days of October, praticando um gothic metal bem cuidado, dotado de elementos ‘prog’, algo refletido pelo próprio ecletismo de seus integrantes (dois deles, por exemplo, participam dum projeto de death melódico, ao passo que Larissa Frade, por outro lado, é cantora lírica).
Mesmo com as preocupantes condições técnicas que acometeram quem quer que estivesse naquele palco (uma espécie de "coreto" bem baixo), as quais chegaram a causar um grande estouro (parecendo que a vida útil dos PA’s acabariam por ali mesmo), pudemos presenciar depois da intro, a arrastada "Naughty Elegy", a porrada "Damsel of Grief", Ice Queen (Within Temptation, pra levantar ainda mais a galera), "Buried Alive" com um lindo solo do ‘axe-man’ Pedro Santos (que é o cúmulo da simpatia e de vez em quando dava uma palhinha ao microfone), "Reap the Grand", a releitura do To/Die/For para "In the Heat of the Night", seguida da apresentação do sexteto, além da potente "Vile Pledge". E para fechar no topo de nossos conceitos, "Because the Night" do 10.000 Maniacs.
Acabávamos de presenciar uma ótima atuação, empolgante, de um pessoal que tende a conquistar seu espaço, mas não antes que seja acertado um detalhe importantíssimo: Larissa canta com uma facilidade imensa, realmente plausível, contudo não demonstrou muita versatilidade, seja ignorando linhas mais limpas, ou até mesmo se desdobrando nas invariáveis notas altas. Ela já nasceu com o dom, basta saber melhor explorá-lo, e havia lá quem compartilhasse da mesma opinião...
Apesar do vento congelante (que gradativamente piorava), com uma temperatura em torno de 7 ou 8º, não arredamos o pé dali, pois a também carioca Avec Tristesse estava logo marcada para entrar às 3:30 hs. Neste intervalo, entretanto, ainda rolava na tenda à frente a dança do ventre (ou coisa semelhante, que a aglomeração ao redor impedia de se ver), um feito heróico e martirizante para aquelas moças semi-vestidas.
Até ali, só me restava felicitar a segurança, os grupos (dois dos três que estiverem ao meu alcance, sendo que o Zero tocava justo naquele momento no pavimento coberto), e também dizer que só imaginei uma maior decoração, pois não havia nenhum adorno por onde quer que andássemos. Isso realmente me frustrou, por ter antes imaginado um visual no mínimo aceitável, qualquer tranqueira aqui e outra ali...
Com tudo em ponto de bala, nada melhor que espantar o sono com um show que "prometia". Quem, assim como eu, teve oportunidade de conhecer Ravishing Beauty, o primogênito do Avec Tristesse, sabia que boa coisa estava por vir. Enquanto isso, o baixista Raphael G., carregando já uma madrugada não-dormida, lamentava pelos dedos "atrofiados" por conta do clima gélido.
As luzes se apagaram, ecoando naquele morro descampado o embrião do novo trabalho (cujas gravações começam este mês), o prólogo "I Am But One", no qual os músicos usavam máscaras de baile. O ‘frontman’ Pedro I.Salles explicou ao Whiplash! que isso representa o modo como as pessoas se esquivam de seus problemas cotidianos, e à medida que cada um deles tirava seu disfarce, simulavam o desvencilhar dessas ataduras, ressaltando o lado teatral que se tornou uma preocupação do conjunto.
Emendada a ela e dando continuidade à cronologia, detonaram "All Love is Gone", segunda faixa de How Innocence Dies, que por si só já adianta a qualidade da obra em questão. Seguiram-se "She, the Lust", a sorumbática "Paean", a épica "Colossus" (do Borknagar), além das mais aguardadas, "The Crown of Uncreation" e "In Vain I Cry", com sua retomada maligna (e meus segundos prediletos), depois de lances tensos ‘a la’ Iced Earth.
Com tantas demonstrações já dadas, não era difícil afirmar que tudo soa muito bem ao vivo, já que as problemáticas passagens por estúdios (e suas produções) acabaram por desfigurar um pouco estas grandiosas composições, que naturalmente ganham em peso, podendo-se dizer o mesmo do Venin Noir. Vale também ressaltar os ‘backings’, numa impostação gutural do baterista Nathan Thrall, que é de botar medo, e perfeita para enriquecer aquela pancadaria toda, muitas vezes chegada ao ‘Black Sinfônico’.
A trinca final incluiu um trecho de "The Dreadful Hours" (My Dying Bride), mais uma inédita, intitulada "Lost in your Complexity", e "Spellbound by the Devil" do Dimmu Borgir. Apesar de ter sido apenas a primeira vez que o trio contava com os convidados Alexandre Graham (guitarra) e o tecladista Flávio Vizeu, o time esteve coeso, e tratou de acordar os espectadores, o que, no estado que eu estava, comigo não funcionou 100%... (quem disse que eu agüentaria das 21 às 9:00? Mas nem em pensamento!!!) Só Deus sabe como conseguimos chegar vivos em casa, não tendo causado nenhum acidente no percurso de volta, mesmo depois de atravessar inconscientemente um farol vermelho... Os indícios abaixo revelam que desde lá já estávamos nos preparando para o sepultamento...
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Agradecimentos:
Humberto Finatti (Assessoria de Imprensa);
Avec Tristesse (pela atenção/informações);
Colaborou: Gilberto Minholi
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