Éramos felizes e não sabíamos...
Por Diego Dragoon
Postado em 02 de setembro de 2018
Acabava de chegar em casa depois da aula, e como de costume, naquela época em que a TV e não o computador era o centro do quarto de um adolescente, liguei minha TV na já finada MTV para ver qualquer coisa de rock que por acaso estivesse passando.
O vídeo prendeu minha atenção no primeiro segundo: o estilo da filmagem quase amador em seus ângulos, a música oriental de fundo sem grande importância junto com o close em objetos saídos de alguma loja do bairro Liberdade de São Paulo e, por fim, sem aviso algum, os acordes rápidos formando um riff seguidos pela voz gritando apenas "Let’s GO!"
Sim, estava eu lá, em algum dia perdido no meio do ano de 2000, ouvindo pela primeira vez a canção Regina Let’s Go dos paulistas do CPM 22. Naquela época, lembro de ter curtido muito aquele som, esperei ansiosamente até conseguir comprar o cd em uma loja de minha querida cidade natal e nos próximos meses aquele cd foi a trilha sonora de meus anseios da idade. Relacionamentos amorosos, decepções e aquele desejo de superar seus próprios limites; estava tudo ali de uma forma simples e sobre acordes rápidos e riffs como o som estrangeiro, mas sem a barreira da língua (sempre tive dificuldades com o inglês).
Nos anos seguintes novas bandas com aquela característica sonora surgiram: Matanza, Pitty, Hateen e tantas outras como Charlie Brown Jr, Jota Quest, Raimundos, pensando exclusivamente nos artistas brasileiros. Havia tantos artistas de rock/pop que podíamos nos dar ao luxo de afirmar "este é muito comercial" e pronto, excluir eles de nosso "hall do verdadeiro rock’n roll" no auge de nossa sabedoria dos 15 anos. Pois bem, o tempo passou e o rock envelheceu. Hoje, não vende mais como vendia, em parte porque o público "torce o nariz" e acredita ser dono do rock, e além disso, define o que é rock como se os artistas fossem seus subordinados e não artistas de alguma forma que fazem música e vivem dos lucros dessa música.
Hoje os antigos artistas do rock estão velhos e muitos já morreram, e o público do rock não foi capaz de renovar seus anseios, esperando mais do mesmo e rejeitando uma grande parcela dos novos artistas que foram surgindo e os novos trabalhos de artistas já consagrados; a produção de rock ficou estagnada e pouco rentável. O mercado musical buscou por outros estilos que pudessem ter um público mais disposto a consumir novos produtos (sim, a música também é um produto de consumo).
A verdade seja dita, nunca vi um pagodeiro reclamar que seu grupo de pagode preferido ficou comercial de mais e agora está na novela ou quem sabe um sertanejo reclamar de sua dupla preferida fazendo participação especial com outra dupla sertaneja menos engajada com alguma causa. Seja o pagodeiro, seja o sertanejo, ambos seguem indo nos shows e consumindo a música dos novos artistas de seu estilo preferido mesmo que para nós roqueiros pareça tudo a mesma coisa.
Naqueles anos éramos felizes e não sabíamos, cada um desses artistas que citei acima era um chamariz para festivais com outras bandas de rock, por vezes mais "raízes", "menos pop’s" e que o público mais Xiita do rock (como eu também fiquei alguns anos depois, reconheço) poderia satisfazer seus anseios pelo "verdadeiro rock". Gostaria de ter aproveitado mais aquele tempo...
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