O rock parando: uma saudade que nem dá para admitir
Por Rodrigo Contrera
Postado em 20 de fevereiro de 2018
Preciso admitir. Para mim mesmo. E para os outros. Tá todo mundo parando, não é? Rush, Slayer, outros morrem e outros são atingidos pelo bafo da morte. E eu, o que acho? Olha, preciso admitir: nada. Não ligo. Desculpem-me os fãs, os puristas, até meus amigos, que sabem do quanto gosto do metal. Do clássico. E do som antigo e atual.
Minha postura advém do simples fato de que me reconheço tal qual como sou. Um rebento dos anos 80, que mal saiu da classe média baixa, cujos valores não conseguiram ser contaminados fortemente pela universidade de elite, e que não consegue ver nos ídolos citados mais nada a não ser uma influência de som que não me afeta para além da pele. Por outro lado, creio ser bastante coerente ao não me afetar tanto assim com as paradas de determinadas bandas, após décadas de sucessos.
Peguemos o Glenn Tipton, com Parkinson, e que não fará mais shows (pelo menos). Lembro-me bastante bem dele em clássicos do Judas. Sempre gostei de sua postura. Sempre admirei o seu som. Mas o que é o Judas, para mim, a não ser uma banda com som que marcou determinados momentos de minha vida? É algo mais que isso? Não, não é. O Glenn, então, é um sujeito que deixou seu estilo marcante, e que por vezes ouço apenas alguns minutos. Não é mais que isso.
Sejamos coerentes. Nós, fãs, somos apenas (ainda) o ganha-pão tardio de sujeitos cujos valores não possuem nada de extraordinário. Sei bem como os músicos do Iron Maiden curtem ao fazer suas turnês. Como se esgoelam tentando repetir o que faziam há muitos anos. Mas também sei que eles não possuem nada além da história para contar. E portanto que não possuem mais ideais à frente. Não querem inovar, não buscam novidades, não estão dispostos a enfrentar o vazio. Não são artistas extraordinários. São apenas sujeitos comuns que tiveram muita sorte, à custa de bastante trabalho.
Eu não os entronizo, àqueles sujeitos, porque minha praia com o tempo virou outra. Pois descobri na literatura sujeitos ainda mais revolucionários. Porque descobri no ensaísmo a verdadeira coragem de enfrentar o cu do mundo. Porque li Pound, Cage, e entendi em que medida certos artistas preferem o ostracismo a continuar navegando solertes na benfazeja complacência da crítica. Os nossos artistas do metal são, em contraposição, quase umas donzelas, sempre evitando arriscar. No mais das vezes, as polêmicas em que esses sujeitos se metem derivam de décadas atrás - como quando o Metallica, o Megadeth, etc. Agora eles nem querem trabalho. No máximo, se metem a experimentar com um dinossauro Lou Reed.
Por outro lado, reconheço naquelas levas de bandas algo que ainda me incomoda um pouco. Uma percepção de que não faço claramente parte da sociedade estabelecida. Isso fica claro em como reajo, na igreja que frequento, ao mandonismo das autoridades tradicionais. Continuo nesse sentido um metaleiro incomodado com atitudes, e valores, e histórias. Mas isso não se torna em geral algo muito perigoso. No máximo, as pessoas me acham uma figura. Um tiozinho de 50 anos com pretensões a se comportar como adolescente. Um sujeito que por vezes coloca AC/DC no som antiquado como que para tentar se convencer de que está vivo, e de que não é o tiozinho que todos sabem que ele é.
Sendo assim, não penso nada ao ver o Rush parando. Mais lucro consigo ouvindo clássicos da banda no Youtube que eu ainda não conhecia. Mais vantagem consigo trocando ideias com sujeitos mais jovens do que eu que conhecem bem melhor a história da dita cuja. Chega a ser engraçado perceber como meu comportamento por vezes é mais rebelde que gente mais jovem, que conhece a discografia do Slayer de cabo a rabo, mas que quando se mete a falar de política parece mais ingênua que um Maquiavel no começo de carreira. Ouço o Judas e somente lamento que os mais recentes evitem fazer aquele barulho característico, e que se contentem com firulas com equipamentos mais avançados. Gosto mesmo do mais tosco, mas nunca tive tempo para comprar aquela discografia.
Hoje observo as bandas indo embora como se fossem aviões que eu não tive coragem de pegar para neles embarcar. Percebo as bandas mais recentes como turmas em que jamais serei aceito, e noto que os ídolos destas últimas parecem sujeitos jovens que nunca tiveram um dente arrancado à força. Sujeitos no fundo ingênuos, com aspirações que me lembram um De Volta para o Futuro, quando me levam tão longe. Sendo assim, não sinto saudade. Meus contemporâneos hoje são outros, embora goste de ver a juventude se esgoelando com polêmicas que não me fazem sequer cócegas.
Não conseguiria conversar sobre os assuntos deste site com nenhum contemporâneo em idade ou geração. Só consigo mesmo escrever algo aqui mesmo. E não tenho interesse em ir mais além. Minha esposa não entendia meu gosto musical. E as garotas que aparecem nem imaginam que eu possa gostar desse tipo de tosqueira. Minha mãe acha engraçado, e os vizinhos bastante estranho. As crianças que me rodeiam de vez em quando gostam de me ouvir gritando um Motörhead. Mas a maioria dos que me avizinham simplesmente desconsideram. É coisa que não vale a pena sequer descobrir.
As gerações vão e vêm, e vemos os sujeitos parando, e outros lamentando, com maior ou menor efusividade. Mas sabemos que nossos gostos são deslocados. E que, tirante os mais chegados, não conseguimos sequer olhares de aprovação das pessoas que nos seguem pela vida. Como que nos restringimos às nossas paixões apenas enquanto não dá 22h e quando os vizinhos estão fora. Por que termos de conhecer mais e mais novidades? O rock virou artigo de luxo que ouvimos quando muito com fones de ouvido pelo Youtube. Ou que comentamos em artigos por aqui.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O disco que David Gilmour afirma servir como introdução ao Pink Floyd
Rafael Bittencourt e o problema dos guitarristas brasileiros: "Nos EUA não tem isso"
Confirmada a turnê reunindo System of a Down e Faith No More em 2027
5 clássicos do metal que você nunca deve usar para apresentar o estilo para alguém
Social Distortion confirma dois shows no Brasil em novembro
O álbum do Angra inspirado na maior fake news de todos os tempos
Membro fundador do Savatage, baixista Keith Collins sofre de demência
O músico que Lars Ulrich considerava parte insubstituível do Metallica
Ex-Smiths, guitarrista Johnny Marr confirma show no Brasil em novembro
5 músicas de metal que todo mundo conhece, mas quase ninguém sabe do que falam
Andi Deris entrou no Helloween sem avisar o Pink Cream 69, lembra Dennis Ward
Show do Queen na Hungria em 1986 ganha restauração em 4K
O disco do Judas Priest que Dave Mustaine considera uma das maiores obras do heavy metal
O melhor solo da história do thrash metal, segundo guitarrista do Machine Head
As músicas mais progressivas de 5 bandas que não são de rock progressivo
O conselho de Shawn para Eloy Casagrande durante audição que o deixou mais tranquilo
O baterista de rock que Neil Peart achava o máximo e descobriu que nunca seria igual
"O cara tinha problemas", disse Jon Bon Jovi sobre Richie Sambora


As emoções que uma música desperta merecem mais atenção que qualquer crítico ou "influencer"
As bandas de heavy metal nem sempre farão a mesma coisa (e isso não é ruim)
Megadeth, Pepeu Gomes e a mania do internauta achar que sabe de tudo
O problema não é usar celular em shows, mas sim fiscalizar os outros
Lobão: a defesa do roqueiro solitário
Preconceito: dificuldades de ser roqueiro em cidade do interior



