O rock parando: uma saudade que nem dá para admitir

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Por Rodrigo Contrera
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Preciso admitir. Para mim mesmo. E para os outros. Tá todo mundo parando, não é? Rush, Slayer, outros morrem e outros são atingidos pelo bafo da morte. E eu, o que acho? Olha, preciso admitir: nada. Não ligo. Desculpem-me os fãs, os puristas, até meus amigos, que sabem do quanto gosto do metal. Do clássico. E do som antigo e atual.

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Minha postura advém do simples fato de que me reconheço tal qual como sou. Um rebento dos anos 80, que mal saiu da classe média baixa, cujos valores não conseguiram ser contaminados fortemente pela universidade de elite, e que não consegue ver nos ídolos citados mais nada a não ser uma influência de som que não me afeta para além da pele. Por outro lado, creio ser bastante coerente ao não me afetar tanto assim com as paradas de determinadas bandas, após décadas de sucessos.

Peguemos o Glenn Tipton, com Parkinson, e que não fará mais shows (pelo menos). Lembro-me bastante bem dele em clássicos do Judas. Sempre gostei de sua postura. Sempre admirei o seu som. Mas o que é o Judas, para mim, a não ser uma banda com som que marcou determinados momentos de minha vida? É algo mais que isso? Não, não é. O Glenn, então, é um sujeito que deixou seu estilo marcante, e que por vezes ouço apenas alguns minutos. Não é mais que isso.

Sejamos coerentes. Nós, fãs, somos apenas (ainda) o ganha-pão tardio de sujeitos cujos valores não possuem nada de extraordinário. Sei bem como os músicos do Iron Maiden curtem ao fazer suas turnês. Como se esgoelam tentando repetir o que faziam há muitos anos. Mas também sei que eles não possuem nada além da história para contar. E portanto que não possuem mais ideais à frente. Não querem inovar, não buscam novidades, não estão dispostos a enfrentar o vazio. Não são artistas extraordinários. São apenas sujeitos comuns que tiveram muita sorte, à custa de bastante trabalho.

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Eu não os entronizo, àqueles sujeitos, porque minha praia com o tempo virou outra. Pois descobri na literatura sujeitos ainda mais revolucionários. Porque descobri no ensaísmo a verdadeira coragem de enfrentar o cu do mundo. Porque li Pound, Cage, e entendi em que medida certos artistas preferem o ostracismo a continuar navegando solertes na benfazeja complacência da crítica. Os nossos artistas do metal são, em contraposição, quase umas donzelas, sempre evitando arriscar. No mais das vezes, as polêmicas em que esses sujeitos se metem derivam de décadas atrás - como quando o Metallica, o Megadeth, etc. Agora eles nem querem trabalho. No máximo, se metem a experimentar com um dinossauro Lou Reed.

Por outro lado, reconheço naquelas levas de bandas algo que ainda me incomoda um pouco. Uma percepção de que não faço claramente parte da sociedade estabelecida. Isso fica claro em como reajo, na igreja que frequento, ao mandonismo das autoridades tradicionais. Continuo nesse sentido um metaleiro incomodado com atitudes, e valores, e histórias. Mas isso não se torna em geral algo muito perigoso. No máximo, as pessoas me acham uma figura. Um tiozinho de 50 anos com pretensões a se comportar como adolescente. Um sujeito que por vezes coloca AC/DC no som antiquado como que para tentar se convencer de que está vivo, e de que não é o tiozinho que todos sabem que ele é.

Sendo assim, não penso nada ao ver o Rush parando. Mais lucro consigo ouvindo clássicos da banda no Youtube que eu ainda não conhecia. Mais vantagem consigo trocando ideias com sujeitos mais jovens do que eu que conhecem bem melhor a história da dita cuja. Chega a ser engraçado perceber como meu comportamento por vezes é mais rebelde que gente mais jovem, que conhece a discografia do Slayer de cabo a rabo, mas que quando se mete a falar de política parece mais ingênua que um Maquiavel no começo de carreira. Ouço o Judas e somente lamento que os mais recentes evitem fazer aquele barulho característico, e que se contentem com firulas com equipamentos mais avançados. Gosto mesmo do mais tosco, mas nunca tive tempo para comprar aquela discografia.

Hoje observo as bandas indo embora como se fossem aviões que eu não tive coragem de pegar para neles embarcar. Percebo as bandas mais recentes como turmas em que jamais serei aceito, e noto que os ídolos destas últimas parecem sujeitos jovens que nunca tiveram um dente arrancado à força. Sujeitos no fundo ingênuos, com aspirações que me lembram um De Volta para o Futuro, quando me levam tão longe. Sendo assim, não sinto saudade. Meus contemporâneos hoje são outros, embora goste de ver a juventude se esgoelando com polêmicas que não me fazem sequer cócegas.

Não conseguiria conversar sobre os assuntos deste site com nenhum contemporâneo em idade ou geração. Só consigo mesmo escrever algo aqui mesmo. E não tenho interesse em ir mais além. Minha esposa não entendia meu gosto musical. E as garotas que aparecem nem imaginam que eu possa gostar desse tipo de tosqueira. Minha mãe acha engraçado, e os vizinhos bastante estranho. As crianças que me rodeiam de vez em quando gostam de me ouvir gritando um Motörhead. Mas a maioria dos que me avizinham simplesmente desconsideram. É coisa que não vale a pena sequer descobrir.

As gerações vão e vêm, e vemos os sujeitos parando, e outros lamentando, com maior ou menor efusividade. Mas sabemos que nossos gostos são deslocados. E que, tirante os mais chegados, não conseguimos sequer olhares de aprovação das pessoas que nos seguem pela vida. Como que nos restringimos às nossas paixões apenas enquanto não dá 22h e quando os vizinhos estão fora. Por que termos de conhecer mais e mais novidades? O rock virou artigo de luxo que ouvimos quando muito com fones de ouvido pelo Youtube. Ou que comentamos em artigos por aqui.




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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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