Encontra aí a sua turma: a pegada thrash
Por Rodrigo Contrera
Postado em 16 de fevereiro de 2018
Eu já sentia haver alguma coisa mais estranha em meu gosto pelo heavy metal melódico nos meados dos anos 80. Havia algo teatralizado demais naqueles caras. Não pareciam falar muito a sério. E eu era bastante sério em minhas convicções. Sério e de certa forma radical. Não sentia verdade naquilo que se dizia sobre 666, o Número da Besta. Sentia alguma impostura nas músicas do Saxon. Aquilo me agradava, mas me parecia meio que uma fuga da realidade. E esta, eu via claramente.
Tudo ficou mais patente, ao menos para mim, quando fui apresentado ao Metallica. Mas não ao de Master of Puppets. Mais ao de ... and Justice for All (que ainda tenho em LP). Aquelas guitarras mais feias, menos simpáticas, diziam mais em mensagem para mim. Tudo era mais tosco, e as mensagens também não tinham muitas nuances. Tudo era pão pão, queijo queijo. Sem firulas.
Aos poucos fui me convencendo que, se não em sonoridade, em universo temático e forma de ver o mundo o thrash falava mais para mim do que o Iron Maiden e outros do mesmo estilo. Depois as bandas foram ficando mais agressivas, mais desiludidas, mais antireligião, e anti outros valores conservadores. Mas, seja como fosse, o thrash dizia para mim que o mundo era isso mesmo, menos romântico e menos bonito do que parecia.
O thrash surgiu, como todos sabem, como uma radicalização de um heavy metal clássico, com uma pegada ainda mais contrária a qualquer autoridade, e com comportamentos ainda mais agressivos no palco e na plateia. A quebra-quebra começava com ele, e nem as bandas que no futuro iriam se manter icônicas se importavam em sustentar qualquer pose. Ao contrário, todas as bandas thrash eram opostas a qualquer pose, reagindo com raiva a qualquer glamurização do rock que faziam.
Lembro-me de ter ido a um show do Metallica no Ginásio do Ibirapuera, e de ter visto PMs darem cacetadas em caras pegos quase ao acaso. Lembro-me de ter visto bagunça e bastante barulho, sem qualquer glamurização do show ou das performances. Lembro-me que isso me levava a quando eu ia a vídeos de shows do Iron, na Brigadeiro, com gente armada ou preparada para porradas em meio aos fãs. Nessa época, o punk estava em voga. Mas havia um certo nonsense em toda aquela agressividade. Era garotada com energia, em sua maioria.
Com os anos, fui me informando mais e mais sobre o thrash, e mesmo com meus estudos e meu avanço em ramos como o de Filosofia e Ciência Política, ainda identifico nessa matriz contestadora boa parte do meu comportamento, até como adulto. Isso em geral me afasta das turmas mais comedidas, dos casais mais comportados, e das posições mais moderadas. Tendo a ver tudo ou quase tudo muito preto e branco, e a não ter muita paciência com contemporizadores. Odeio autoridade, quase sempre, e somente não odeio mais porque às vezes eu mesmo me torno uma. Como quando me tornei síndico, conselheiro de condomínio e mesmo conselheiro cultural.
Claro que o gênero evoluiu muito, e quando chegou o Slayer eu estava já meio afastado, em termos práticos, daquele tipo de garotada. Eu já era um sujeito mais velho, mais maduro, e tinha cargos em empresas. Então não pegava bem sair por aí elencando referências tão duras e mal vistas pelas pessoas em geral. Hoje é comum ver marmanjos curtindo Metallica. Mas na origem o thrash não era nada muito simpático aos olhos da sociedade em geral. Era puro lixo. Um lixo que tinha orgulho de ser como era.
O que é sintomático na postura antiautoridade do thrash, a meu ver, é que ela não busca propor nada. O punk de alguma forma tem alvos definidos, mensagem, enquanto o thrash não, é quase uma postura antiautoridade por motivos estéticos. A gente "vê" a autoridade e tem vontade de cuspir nela. O cara que gosta de thrash geralmente tem um ódio que beira o patológico diante das religiões e do mandonismo em geral, e muitas vezes não consegue verbalizar claramente o que sente. Isso acontece ainda hoje comigo, quando sou obrigado a aturar posturas ignorantes de gente em postos de mando.
Estetica ou musicalmente, o thrash contudo não me dizia tanto assim. Com a chegada do Slayer e do Pantera, principalmente, fui notando que havia algo ali que não me agradava. Eu sentia que faltava alguma complexidade ou mesmo musicalidade naquilo que me era apresentado, e portanto que eu precisava ir mais longe para achar o que queria. Mas a mensagem que ainda tenho em mim é em grande medida a mensagem do thrash. Percebo isso nos documentários. Percebo isso nos comentários. Nas entrevistas do Kerry King, por exemplo.
Minha trajetória nessa busca de uma turma iria contudo continuar. Passando por sequestros (em Cuba), por riscos de morte (como repórter, em Guarulhos), por ameaças veladas (por políticos, na mesma cidade), por demissões por me envolver em brigas em redações, etc. Eu também deixei o meu rastro de confusão. Nos próximos textos, comentarei o folk e o punk, assim como o rock experimental, até meio glam.
Overkill - I Rise
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