"Papa Francisco perdoa Luan Santana e os metaleiros"
Por Jesse Navarro
Postado em 07 de outubro de 2017
Quando Tom Zé fez uma propaganda da Coca-Cola em 2013, fazendo discurso ufanista do país que iria receber a Copa do Mundo no ano seguinte, foi esculachado por muita gente, tido como vendido e traidor do movimento. A história motivou o título do disco que o artista gravou na época, "Tribunal do Feicebuqui", tendo como faixa principal a irônica "Papa Francisco perdoa Tom Zé".
Luan Santana, que cantou para o Papa quando o Sumo Pontífice esteve no Brasil, passou por algo parecido na semana passada. O noticiário roqueiro divulgou que Luan Santana, após assistir aos shows do Rock in Rio, decidiu trocar o sertanejo pelo Heavy Metal. No dia seguinte, bombou nas redes sociais um vídeo em que o popstar dedilha acordes pesados com Edu Ardanuy, um dos maiores guitarristas do gênero no Brasil.
Headbangers inconformados já estavam espetando agulhas no boneco vodu do cantor quando, dias depois, saiu o desmentido: tudo não passava de uma pegadinha do malandro. O golpe de marketing era para promover a marca de chocolates Snickers, do bordão "você não é o mesmo quando está com fome". Na propaganda, Luan Santana está com fome e fica com tanta raiva que decide virar a casaca e se render ao bom e velho Rock and Roll. CLARO que era mentira. Imagine que empresários deixariam o moleque acabar com um negócio milionário para agradar um mercado bem mais inexpressivo em termos de mainstream.
Mas não duvido que Luan Santana goste de rock. Muitos sertanejos gostam, mas não se atrevem porque não dá dinheiro. Particularmente, acho que o artista deve ser livre para transitar no estilo musical que quiser. Mas Luan Santana, ao contrário da maioria dos metaleiros de hoje em dia, tem mais motivos para temer Bolsonaro do que para votar nele. O filho de Jair Bolsonaro, o também deputado Eduardo Bolsonaro (Patriotas), lançou um vídeo no YouTube ameaçando abrir uma CPI para apurar abusos que o cantor e outros artistas teriam cometido com relação à Lei Rouanet. O vídeo repete o mesmo discurso intolerante do pai que promete atacar artistas de esquerda quando for eleito (haja visto episódio da censura do MBL à exposição de arte em São Paulo). Fiquemos atentos.
"Faça o que tu queres, há de ser tudo da lei", já cantava Raul Seixas. Se o Luan quisesse se converter, salvar sua alma e virar metaleiro mesmo, teria meu apoio. Ajudaria a dar visibilidade ao esquecido rock nacional. O próprio Júnior, da dupla Sandy e Júnior, também tentou enveredar pelo estilo e enfrentou o mesmo preconceito de quem vive para cagar regras. Hudson foi outro que, quando se separou do Edson em 2009, declarou que sua praia sempre foi rock e que só estava naquilo por dinheiro.
Hudson e Júnior realmente foram artistas vendidos que se arrependeram e tentaram dar outro rumo às suas carreiras. Luan só tirou um barato, deu seu golpe de marketing e continuará sendo o que nasceu para ser: um artista fabricado, sem histórico de "vida paralela" no "sexo, drogas & Rock and Roll". Luan representa o peão que curte um sertanejo universitário, careta, frequentador de rodeio e nenhum problema com relação a isso. Acabou sendo bom para o rock essa polêmica. Quem sabe algum sertanejo não vira roqueiro de verdade.
Jesse Navarro é jornalista, ex-Abril, RedeTV e TV Bandeirantes. Atualmente apresenta um canal com seu nome no YouTube.
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