Meu Conturbado Amigo Kurt Cobain
Por Dennis de Oliveira Santos
Postado em 26 de fevereiro de 2017
Década de 1990, plena rebeldia juvenil da adolescência e um sentimento de inconformismo constante (ainda não bem definido quanto ao seu alvo) pairava na ebulição de posturas inconstantes nessa fase da vida. Ah, de uma hora para outra, alterar num piscar de olhos a sensação de amor para o ódio em relação aos pais e amigos. Isso era um romantismo de garoto rebelde que trazia vigor aos momentos vividos. Depois de alguns dias, após a festividade do aniversário, fechar a porta do quarto e se isolar na cama satanizando a figura autoritária do "pai opressor" era uma "pseudocrise" que hoje diverte refletir a respeito em plenos trinta anos e com as responsabilidades de adulto a serem pagas.
Comparando essa época com a geração orwelliana gado-pós-moderna tecnocrática de hoje é até difícil perceber a espontaneidade das "aborrecencias" nesses moleques que entopem shoppings centers andando como zumbis ao terem suas existências sugadas e monitoradas pelos caros smartphones. Mas voltemos ao período em que fui a primeira vez ao cinema para assistir o emocionante Rei Leão.
Eu morava numa cidade do interior goiano e andava de saco cheio com muita coisa – frescuras das meninas que pretendia ficar, dores de cabeça com as obrigações escolares e a hipocrisia religiosa de grupos evangélicos (ambiente que era obrigado a frequentar diante da criação cristã imposta pela família). Lembro de momentos durante essa ebulição de hormônios e dúvidas existenciais de um constante aborrecimento e nojo em relação a falsidade das pessoas ao redor - ficava maquinando ações que ocasionassem um choque público ao cuspir nos "irmãozinhos" da escola bíblica dominical, por exemplo.
Foi então nesse ambiente de sensações dúbias e inconsequentes que conheci alguns rapazes mais velhos, os quais tornaram-se grandes amigos. Eles andavam com calças rasgadas, camisas de mangas longas e de flanela em pleno calor do cerrado, detestavam os axés que tocavam nas rádios, xingavam pra "carai" e ouviam bandas de rock até o raiar do dia. Aquele tipo de comportamento causou-me estranhamento e admiração ao mesmo tempo. Para além das fofocas típicas de gente do interior, de pessoas finas e importantes que concebiam os "malucos da cidade" como os hereges representantes de Belzebu na região, percebia naquela postura rude um ar de liberdade. Era para mim uma forma de vida na qual pudesse expor plenamente o que sentia e contrapor-me definitivamente às pessoas religiosas que oravam com todo fervor aos domingos, mas durante a semana praticavam uma série de imundícies que deixaria os povos babilônicos envergonhados.
É nesse ambiente de roqueiro contestador (é meus jovens, numa galáxia distante o rock desempenhou um papel de contracultura a se impor perante as instituições vigentes), de adolescente rebelde que progressivamente definia os alvos a serem atingidos pela "bílis negra". É então que entre vários cds de bandas gringas apresentados pelos amigos que aparece o tal de Nevermind da banda Nirvana.
Ouvi aquele álbum com toda atenção possível e desenvolvi a ideia de que Kurt Cobain (o gritante vocal naquelas faixas) era uma pessoa-símbolo a ser admirada e que sua obra de arte servia como instrumento catártico para lhe dar melhor com os dilemas e dissabores da vida juvenil. Eram guitarras distorcidas que incomodavam os desavisados, gritos bastante esgoelados que parecia que o cantor ia colocar os "bofes para fora", letras estranhas que falavam sobre drenagem cerebral e a sucção de fluídos corporais.
Era nesse ambiente "cheirando a espírito adolescente" que eu, um encabulado rapaz encontrava o meu lugar entre os "desajustados". Ao ver os clipes da banda com colegiais tristonhos, cenas de um doente terminal e um Jesus com gorro natalino desolado em uma cruz, sentia uma forte identificação com tudo isso. Parecia que Cobain (ao seu modo depressivo) negava passivamente os valores engessados de uma sociedade que priorizava o conquistar material ao invés de uma vida baseada em amizades e experiências enriquecedoras. Parecia que o gênio do grunge quando cantava "deus é gay" estava expondo muito bem o meu sentimento de desaprovação em relação aos religiosos ao meu redor. Pessoas que condenavam a homossexualidade como se fosse uma doença, mas traíam as esposas nos puteirinhos mais toscos da cidade. Tudo bem ungir o frenético pênis com falso moralismo monogâmico, "viadagem" nem pensar!
Ao conhecer a biografia do músico aumentou minha peregrinação sonora naquelas músicas que vinham da distante Seatle. Com a notícia de que Kurt brigou com Axl Rose (um talentoso vocal vendido as grandes corporações midiáticas), por mais que isso hoje pareça estapafúrdio para mim, enxergava-me naquela situação ao também violentar de vez em quando colegas de escola que queriam esfregar na minha cara suas vantajosas situações econômicas. Eu era um integrante do mundo underground e não aceitava mais o estilo de vida dos outros que considerava "cordeiramente" morno e degradante. O objetivo era andar de forma desleixava, não maquiar o sentimento de descontentamento com os valores dos pais e expor o desejo de liberdade de uma geração que vivia alienada socialmente. Diante de um quadro social em que se perdeu do horizonte as utopias corroídas no Muro de Berlim, época em que a própria música roqueira abandonou o clima contestatório dos hippies para tornar-se um objeto bastante vendável na MTV, o que restava era o sarcasmo e a rebeldia sem muita objetivação enquanto nova força criadora.
Passados vários anos após o fim da banda e a morte de meu amigo em dramas juvenis, momento em que se comemoram cinquenta anos de Kurt Cobain, ficam as memórias de pessoas que como eu sentiam aquele grito de rebeldia e desespero que tocou fundo milhões de indivíduos pelo mundo. Hoje em dia nem acho Kurt e sua banda tão geniais como naquela época (há uma hipervalorização mítica entorno do ícone do movimento grunge). Confesso que dezenas de bandas são bem mais criativas do que o Nirvana, até mesmo o grupo do vendido Axl Rose (o Guns N’ Roses) é mais interessante aos ouvidos musicalmente falando.
Entretanto agradeço o meu desajustado e conturbado amigo Kurt Cobain por ter artisticamente criado o hino da minha geração. Por ter criado uma estranha música que pretendia ecoar nossa indignação diante de uma sociedade que buscava concretizar negócios a todo custo, tornando a honestidade um mero conto de fadas infantil. Nada mudou desde então, o mundo está mais mercantilizado do que nunca com a hegemonia do pensamento neoliberal, as pessoas talvez sejam tão rasas e estupidas como as daquele período, mas os gritos grunges foram importantes ferramentas que auxiliaram-me a sobreviver ao complicado rito de passagem que é a adolescência. E agora estou aqui, encerrando essa singela crônica no meio da madrugada e ouvindo com toda nostalgia possível a discografia em formato mp3 do Nirvana.
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