Music Business e o Artista Independente no Brasil
Por Roger Fraiha
Postado em 28 de junho de 2016
Desde os primórdios da música popular dita comercializável, alcançar o reconhecimento e sustentabilidade de um projeto musical sempre foi um grande desafio. As constantes transformações da Indústria da música continuam sendo de difícil assimilação, seja pela questão tecnológica, seja pela alternância de estilos predominantes, ou mesmo pela situação político econômica do País ou Planeta globalizado como um todo.
Em tempos do que alguns chamam por aí de indústria da música 4.0¹ (Internet Age), uma nova onda de otimismo toma conta dos profissionais do ramo. Sejam eles compositores, artistas, produtores musicais ou fonográficos, e todos os demais envolvidos direta ou indiretamente na música. De modo lento, porém continuamente crescente, o consumidor de música começa a pagar novamente pelas canções de que desfruta. O Streaming de áudio pago (Premium) já é uma realidade, e Isso reinjeta animo e retoma a possibilidade de que conjuntamente com as demais receitas (sendo o show business a maior delas), os artistas e demais envolvidos possam ser mais bem remunerados, tornando possível realizar o sonho que para muitos ainda é inviável:
Viver de música autoral (E não apenas sobreviver).
Não escrevo este artigo com foco nos consagrados artistas do chamado ‘Mainstream’². Esses, independente do motivo pelo qual chegaram a esse nível, relevantes musicalmente ou não, estão com a vida ganha. Miro os chamados independentes, deixando claro que viver de música autoral é cada vez mais plausível, ainda que exija grande perseverança, talento e principalmente competência.
Uma ideia errônea comum para quem está começando é a de que atualmente o artista independente pode realmente alcançar o sucesso apenas com um home estúdio, compartilhamentos na Internet e suas maravilhosas redes sociais.
Porém, para se ter uma ideia, dados confirmam que aproximadamente 4.000.000 de musicas disponíveis no Spotify nunca foram tocadas(Dados de 2013).³
7.5 milhões, ou 94% do total (Dados de 2011) de artistas disponíveis no iTunes nunca venderam mais de 100 unidades ao ano. ³
32% dos artistas disponíveis no iTunes venderam apenas e exatamente uma cópia (Dados de 2011). ³
E apenas 1% dos artistas do chamado Mainstream abocanham 77% da receita total disponível (Dados de 2014). ³
Seguindo essa proporção, existem diversos dados de igual tendência relativos à indústria da música como um todo.
Sim, prezado artista independente, esses dados são assustadores. E se devem ao fato de que as grandes gravadoras ainda dominam o mercado, seja pela capacidade de investimentos, seja pela rede de contatos, ou ainda pela expertise acumulada ao longo dos anos. Eu disse expertise? Sim, e essa é uma palavra chave em um cenário onde não há contratos e espaço para todos, ainda mais dado ao aumento exponencial da oferta musical nos últimos anos.
Não vou me ater à expertise musical e técnica relacionada à composição e a qualidade da Master (Gravação comercial finalizada). Reforçando que a Master é concluída após processos de gravação, mixagem e masterização profissionais. E Isso, independente da popularização dos home estúdios, tem critérios técnicos que permanecem os mesmos, ainda que a tecnologia atual permita diferentes experimentações sonoras.
Logo, supondo que a composição é boa, foi bem gravada, mixada e masterizada. Onde está o grande diferencial dos tempos modernos?
Music Business...
Esse é o termo chave para qualquer artista independente no cenário atual, uma vez que não existe mais a figura da gravadora administrando a carreira do Artista.
Então, Vamos falar um pouco de negócios.
Mais do que nunca, uma banda ou artista solo que tem reais pretensões de ter na música o seu sustento, tem que ter consciência de que seu projeto já nasce uma empresa. E como uma empresa, possui vários departamentos conexos e interdependentes entre si. E é justamente essa interdependência que não permite, de forma alguma, negligência para com qualquer um de seus setores. O preço por essa negligência é e sempre será, indubitavelmente, o amargo e doloroso fracasso. Fracasso esse que na maioria das vezes, tem sua responsabilidade transferida ao público, aos donos de casas noturnas e até mesmo aos deuses e ao destino cruel que lhe impuseram.
Ok que não exista fórmula mágica para o sucesso. Aliás, essa é uma frase conhecida no ramo. Também é comum escutar por aí que a proporção do sucesso é de 10% talento e de 90% trabalho.
Sendo assim vou tomar a liberdade de criar o meu próprio clichê, e dizer que a proporção para se alcançar o sucesso, é de 25% Talento, 25% Técnica e 50% Administração. Tudo isso regado a muito trabalho, tenacidade, e um tantinho de sorte que não há como medir em números. Podemos entender então, seguindo essa lógica, que a Administração equivale a 50% do trabalho. E vamos assumir também que a Administração é o Business em si, com todas as suas Divisões e Subdivisões.
Ainda que a administração deva permear a vida do artista desde a sua concepção como tal, é na fase de pós-produção que o Business faz toda a diferença.
Supondo mais uma vez que você já possui um bom produto (que nada mais é que uma boa composição bem produzida), agora chegou o momento de pós produzi-la...
Simplificadamente são esses os principais departamentos e principais atribuições de sua empresa musical "independente":
Pois bem, saiba que existem muitas formas de estruturar sua empresa musical. E esse organograma que apresentei é apenas um de muitos possíveis. E dentro de cada organograma existem muitas formas de rearranjar essas atribuições e estabelecer interações entre departamentos, sendo alguns exemplos conhecidos:
- O Empresário pode ser Advogado e absorver tudo que for relacionado ao ‘Direito’ do artista;
- O Desenvolvedor WEB também pode ser Designer (normalmente o é), e cuidar da programação lógica e visual do site;
- O Assessor de imprensa pode ser especialista em Mídias Digitais e cuidar de tudo que for relacionado à comunicação digital ou física;
- O Marketing pode assumir a área de Merchandising e se responsabilizar pessoalmente pelas vendas e design de produto...
Fato, que o jeito de sua empresa trabalhar vai depender muito de seus objetivos e metas (O que é o sucesso para você?). Dependerá também dos recursos disponíveis e o quanto conseguirá envolver pessoas realmente engajadas para o sucesso do projeto.
Existem modelos de gestão em que uma banda divide as atribuições entre membros, aproveitando o perfil e aptidão naturais de cada um para a divisão das tarefas administrativas;
Outros modelos em que a o Artista e o empresário dividem parte das funções administrativas e contratam especialistas para tarefas específicas;
Ou modelos em que a figura do Empresário não existe, sendo o artista, o único gestor que subcontrata todos os demais profissionais para auxiliá-lo...
Existem modelos diversos, porém nenhum deles pode ao final das contas, negligenciar um único departamento. Lembre-se, você ainda tem que fazer música, ensaiar e se apresentar (E ainda dormir um pouco). O amadorismo custará caro e sua motivação certamente se abalará com o tempo, depois de seguidas tentativas frustradas.
Não, não existe fórmula mágica para o sucesso, mas existe uma fórmula exata para o fracasso. O músico brasileiro de um modo geral é inocente quando o assunto é Business. E Isso precisa mudar.
Saiba que o que escrevi é apenas uma pontinha do Iceberg. O meu objetivo com esse texto é apenas despertar a atenção do músico independente que almeja o sucesso. Acenar para a realidade de que não basta apenas ser bom e compartilhar sua música no Facebook. Tem que ser profissional, engajado e deveras antenado com as novas tendências da indústria e do Business em si.
Ser ‘Independente’, não significa ser sozinho...
¹ Termo aplicado por Bobby Owsinski;
² Os termos utilizados em inglês são os jargões padrão de mercado;
³ Forgotify – Site desenvolvido para divulgar músicas nunca tocadas no spotify;
http://techcrunch.com/2014/01/30/forgotify-only-plays-spotify-songs-that-no-one-has-ever-played-before/
³ Midia Consulting –
http://www.digitalmusicnews.com/2014/03/05/toponepercent/
³ Livro ‘Blockbusters’ da Professora Anita Elberse – Marketing Expert resident at Harvard Business School;
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