O rock nacional não morreu: Ele caiu para a segunda divisão
Por Diogo Azzevedo
Postado em 14 de fevereiro de 2016
Quando escrevi aqui no Whiplash.net que o rock brasileiro estava morto e hoje seus protagonistas preferem vender cerveja a fazer música (Não leu? Confira no link abaixo), alguns conhecidos e músicos vieram reclamar comigo (como se eu tivesse alguma culpa), alegando que tal situação se restringia ao mainstream, que a realidade no underground era diferente, que havia um monte de bandas boas e honestas, etc.
Mas, amigos, do que vocês estão falando? Que mainstream? Que udigrudi? Sinto em informar, mas nada disso existe no Brasil. Aqui, a coisa se resume a primeira e segunda divisões, série A e série B, grupo especial e grupo de acesso e outras denominações normalmente associadas aos dois principais produtos culturais do nosso país (futebol e carnaval). Para melhor ilustrar o que quero dizer, vamos ficar com primeira divisão e segunda divisão.
Primeiramente, qual é a linha que separa a elite da gentalha? Nem sempre popularidade é sinônimo de qualidade. Mais uma vez, vou recorrer à analogia com o futebol. Basta lembrar que o Corinthians, time com a segunda maior torcida do país, já foi rebaixado e disputou a série B do Campeonato Brasileiro em 2008. O Los Hermanos, por exemplo, não lança material inédito desde 2004 – para o bem da Humanidade, dirão alguns; porém, quase todo ano Marcelo Camelo e cia. se reúnem para alguma turnê caça-níquel, arrebatando multidões dispostas a pagar uma fábula para assistir a um repertório requentado e executado com tal espontaneidade que faz os discursos pró-metal do Manowar parecerem verdadeiros.
Mas nem tudo está perdido. Em entrevista ao jornal "Valor Econômico", Paula Toller, ex-vocalista do Kid Abelha, justificou o fim da banda, ocorrido em 2014. "A gente não tinha mais estímulo para gravar disco de inéditas. Se é para cantar apenas os sucessos antigos, melhor parar", desabafou. Infelizmente, a ficha ainda não caiu para alguns contemporâneos dos Abóboras Selvagens. Alguém já disse que a criatividade está no corredor da morte. Prova disso é a avalanche de álbuns ao vivo e de covers que assolam o mercado.
Mal lançou o álbum "Nheengatu", o Titãs já emendou "Nheengatu Ao Vivo". O engraçado é que, ano passado, estive em uma apresentação dos paulistas, realizada em um evento de nerds, e os caras não tocaram absolutamente nada do último registro de estúdio. Tá certo que em shows corporativos o cardápio costuma ser aquele arroz e feijão com os mesmos hits de sempre – "é o que o povo quer ouvir" –, mas não executar uma música "nova" sequer mostra tremenda má vontade da própria banda com sua produção recente, então, como esperar que o público compre?
E o que falar do Ultraje a Rigor? Roger Moreira virou o Caçulinha do Danilo Gentili, passa mais tempo escrevendo asneiras no Twitter do que tocando e, após 13 anos sem lançar um disco completo de inéditas (antes, só um EP, em 2009), a banda solta, em 2015, um novo álbum... de covers (o segundo da carreira!). Isso após gravar um split com o Raimundos, em que toca, adivinhem, covers do quarteto de Brasília. É o "volume morto" do poço.
Obviamente, Lobão não poderia ficar de fora dessa. Ah, Lobão... Talvez o exemplo mais bem acabado de músico da segunda divisão, poderíamos chamá-lo de Vasco do rock brasileiro. É aquele sujeito que chama mais atenção pelas pérolas vomitadas na imprensa e nas redes sociais do que pela música. Não que alguém precise fazer a mesma coisa 24 horas por dia pelo resto da vida. Além de músico, Lobão também é colunista e escritor. Talvez por isso, ninguém tenha dado muita bola para o último disco dele, "O Rigor e a Misericórdia", lançado ano passado. Você também não sabia desse lançamento? Pois é... Ah, e ainda estamos esperando ele cumprir a promessa de deixar o país. Desconfio que o lupino tenha mudado de ideia porque sabia que, assim como Ed Motta, só se apresentaria para brasileiros no exterior – que a todo o momento pediriam para ele tocar "Me Chama" ou "Decadance Avec Elegance".
Certo, vocês acham que, novamente, estou tratando apenas de nomes do alto escalão. Vamos, então, ao exemplo de uma figura menos badalada: Thiago Bianchi (ex-complete com o nome de qualquer banda). Quando pensamos no sujeito, a primeira pergunta que vem à mente é: quanto tempo esse cara fica na frente do espelho se penteando? Daí lembramos que ele já estampou capa da Folha de S. Paulo e até no programa da Fátima Bernardes apareceu. O motivo? Não lembro, mas não era para falar sobre heavy metal. Ok, ele compôs o hino do maior festival de metal já realizado na América do Sul (brinks, ele escreveu a música-tema do Metal Open Air).
Com esses pitacos, não quero, de modo algum, desestimular bandas que estejam dando os primeiros passos rumo ao "sucesso". Lembrem-se: popularidade não significa, necessariamente, realização, e até o Corinthians já esteve na segundona. Por isso, nem vou entrar na discussão sobre falta de espaço nas rádios e programas de TV. Se o povo gosta de Luan Santana e não gosta de Cachorro Grande, é uma questão de escolha; só não dá para alegar a ruindade do que toca para justificar a ruindade do que não toca. Porém, dá para tentar a sorte em algum reality show, tipo o "Superstar". Imagina, amigo, você pedindo a benção do Paulo Ricardo! Aprova o meu som aí, cara! Não se preocupe: levar um "não" do Paulo Ricardo é a melhor coisa que pode lhe acontecer.
No fim das contas, ainda estou com uma dúvida: será que existe alguém na primeira divisão?
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