Guitarra: Radicalismo, e musicalidade não podem andar juntos
Por Herick Sales
Fonte: Herick Sales Guitar
Postado em 25 de novembro de 2015
Sou professor de guitarra há um bom tempo, encontro muita, mas muita gente, que vem com doses cavalares de radicalismo musical, sem ter os ouvidos abertos ao que a música pode oferecer de fato.
Muito se fala sobre identidade musical, a digital sonora do músico, e de uma banda. Ok. Então me diga: você acha possível, criar algo original, ao menos, com elementos novos, preso a uma única vertente, ou fã(nático), por apenas uns pares de bandas?
Estou cansado de ver amantes de Metallica, Steve Vai, e Dream Theater, que acham que eles são os mais fodas do mundo. Sim, eles são incríveis, mas o mundo não gira apenas em torno deles. Vou começar dando um exemplo jazzístico: Miles Davis.

O mundo do jazz, é dotado (assim como em qualquer outro), de puristas. Então, uma mente genial, como a de Miles Davis, chega em 17 de agostode 1959, e lança um dos maiores e revolucionários álbuns da história: Kind of Blue. Com seus modalismos (conceito utilizado maciçamente por vários músicos, desde Frank Zappa até Satriani), complexas progressões de acordes (vi no documentário do Pink Floyd sobre o clássico álbum "The Dark Side of The Moon", o tecladista Richard Wright, declarar que usou uma progressão de acordes do álbum do Miles Davis, na canção "Breath"), e improvisação, este álbum entrou na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Sim! Os 200 álbuns definitivos de ROCK! Desde a nossa bossa-nova, até o rock' n roll foram influenciados por esse álbum.

Miles Davis rompeu mais barreiras, ao incluir guitarra nos seus álbuns (era fã confesso de Hendrix, tanto que se não fosse a morte prematura dele, teriam gravado um álbum), criando assim, o fusion. Uma canção bem forte, que mostra esse rumo, é "Fat Time", de 81, na qual pediu para seu guitarrista, Mike Stern, soar o mais "Hendrix" possível. Com isso, Miles conseguiu a ira de certos puristas, e entrou para a história da música, revolucionando a mesma.
Agora imagine, se ele tivesse mantido sua mente fechada ao jazz tradicional, e suas características?
Outra área que vejo muita gente fechada, é o metal. Já vi alunos, músicos, até mesmo só ouvintes, mais chatos que uma velha resmungona de 90 anos, e com um radicalismo musical forte, como se existisse um deus metal, que ficará muito puto, se ele ouvir cançôes do U2 ou Genesis.
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O mesmo com Zakk Wylde: sua paixão por Allman Brothers é tamanha que ele já gravou um álbum na linha, e… foi guitarrista da banda em um show! Além de acrescentar elementos ao fraseado, advindos do Al di Meola (jazz fusion latino), e melodias ao piano a lá Elton John. Sim, Zakk é fã de Elton John.
Por fim, temos uma referência mais atual: Alexi Laiho, do Children of Bodom. Bodom é uma banda de Death Metal. Beleza. Mas vocês imaginam um cara assim, que começou a tocar, porquê ama Dire Straits, e que estudou em conservatório, além de ter feito aulas de piano? Alexi Laiho pegou suas influências de Steve Vai, misturou aos licks de blues/rock do Slash, com riffs de hard rock do Europe, metal clássico do Iron, Dio, Metallica e Slayer, e influência erudita em seus solos, criando uma paisagem sonora caótica, e ao mesmo tempo melódica… no death metal! Já vi um trecho de uma vídeoa-aula dele, em que demonstra um groove de funk, que ele usa em alguns riffs!

E cada um desses, e milhares de outros, foram sim radicais! Tão radicais, que não se prenderam num único enquadramento sonoro, regurgitando apenas, o mais do mesmo, que já foi criado. Então, se você quer ser "o cara radical do metal", ou de qualquer outro gênero, seja radical como os músicos que eu citei, que aí eu quero ver…

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