O lado bom da vida: Quando as bandas mudam a sonoridade
Por Tarcisio Lucas Hernandes Pereira
Postado em 11 de novembro de 2015
É de conhecimento de todos que o rock e o metal é, dentre todos os estilos, aquele que possui os fãs mais fervorosos. Algumas bandas possuem grupos de fãs tão dedicados que apenas no assunto "religião" encontramos atitudes parecidas, tamanha a devoção e defesa que encontramos junto aos seus "adeptos".
A lista de bandas que são objeto de culto é grande, mas podemos, apenas para ilustrar algumas, citar Metallica, Guns and Roses, Iron Maiden, Dream Theater, Black Sabbath, entre muitas outras. Cada vertente do metal e do rock tem seus exemplos.
Mas... e quando nosso "objeto de culto e adoração" muda drasticamente sua sonoridade?
Isso aconteceu com o Metallica, na fase dos "Load" e "Reload" (com sua sonoridade mais comercial), com o Iron Maiden nos últimos discos (com influencias de progressivo), Megadeth... e convenhamos , no caso dessas bandas, as mudanças sonoras nem foram tão drásticas assim (vou poupar alguns comentários aqui:"foram sim, aqueles discos são uma merda. Perderam a essência. Se venderam. Deveriam mudar o nome. Blá blá blá. Bla´blá blá")
O que dirá então bandas como Anathema, Pain of Salvation, Paradise Lost, Tristania, Theatre of Tragedy, Queenryche, Within Temptation, que possuem em suas discografias álbuns que apresentam uma mudança absurdamente radical do som que propunham inicialmente?
Para o fã devoto, seria o fim dos Tempos, o Dia do Juízo? A dissolução da fé?
A julgar pelas reações exacerbadas, principalmente nos comentários desse nosso digníssimo portal metálico Whiplash, sim, é de fato o fim de Tudo, o Apocalipse.
Mas sejamos menos dramáticos, e tentemos entender sob a ótica do artista.
Apesar de ser um profissional que, assim como qualquer outro, está dependente das leis de mercado para ganhar seu suado sustento, a pessoa que escolhe montar uma banda, supomos, toma tal decisão por querer trabalhar se expressando musicalmente. Sim, sabemos que muitas bandas se formam pensando no glamour, nas mulheres, na festa e na fama, e muitas delas são realmente muito boas; mas ainda mais em tempos modernos esse estilo de vida "rock and roll" é cada vez mais restrito, uma vez que o próprio mercado tem escolhido outros estilos em detrimento de nosso amado som. A maioria das bandas que vejo se formar se formam por amantes da musica, acima de tudo.
A banda é formada, os músicos vão ganhando experiência, tanto em seus instrumentos, tanto em suas vidas particulares, e da mesma forma que acontece conosco, em nossas profissões mais "pacatas", é totalmente natural que o mesmo passe a sentir necessidade de outras formas de se expressar.
Experiências pessoais e profissionais começam a influenciar na criação. Isso em todas as artes. Picasso tem a fase azul, a fase rosa, a fase cubista. Shakespeare tem suas comédias, suas tragédias e seus sonetos.
E assim é na música.
Os Beatles tem sua fase "inocente" e sua fase psicodélica. O Yes, sua fase progressiva, sua fase pop. Theatre o f Tragedy, sua fase eletrônica, sua fase gótica.
Tenho plena certeza que por trás dessas mudanças na sonoridade existem dois cenários possíveis, um negativo e um positivo. Vejamos:
- Cenário negativo: a banda muda sua sonoridade por razões puramente comerciais, tentando agradar o máximo possível de ouvintes e arrebanhar novos fãs. Bandas como Scorpions, Emerson Lake and Palmer e Gentle Giant já falaram abertamente terem tomado este caminho. Ainda que nem sempre o resultado seja ruim – O Queen é um ótimo exemplo de banda que fez grandes trabalhos em vertentes mais populares – aqui realmente parece faltar verdade e comprometimento da banda para com seu público.
- Cenário Positivo: A banda quer explorar novas possibilidades musicais, sente que o som que fazem não mais lhe toca como antes. Assim, de forma sincera, eles procuram aquele som que falta, ainda que seja só por um período. Bandas como Paradise Lost e Anathema se incluem nessa fase. O primeiro, retornou posteriormente ao som que fazia em seu inicio; o segundo se distancia cada vez mais, mas dentro de cada uma das propostas, vê-se claramente músicos tentando fazer o melhor possível.
O que o fã precisa entender é que o passado da banda nunca será alterado. Quando o Metallica lançou o "Laod", o "Ride the Lightning" não deixou de existir. Continua lá, para ser ouvido sempre que quisermos.
Quando Yes lançou o "90125", o "Close to the Edge" não foi retirado das lojas e queimado em praça publica pelos integrantes.
A música "Empire of Clouds" não fez com que a música "The Trooper" fosse riscada magicamente em todos os vinis do conjunto.
Muitos grandes trabalhos se perdem pela critica exagerado dos próprios fãs. E muitas vezes os fãs mais fanáticos são justamente aqueles que mais contribuem para o afundamento da banda (John Lennon que o diga).
O que recomendo é que cada álbum seja ouvido dentro de sua própria proposta. A proposta de "Book of Souls" não é a mesma proposta de "Number of the Beast".
Caso o ouvinte não se identifique, basta ir lá na sua prateleira, ou na sua pasta de MP3, e coloque no volume máximo o que considera "True". Deixe as inovações para quem as querem, mas pelo amor de Deus, não precisa se descabelar e decretar a morte da banda (muitas vezes, literalmente).
Ou então, monte sua própria banda e mostre para aqueles vendidos como é que se faz rock e metal de verdade.
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