Stone Temple Pilots: ainda é STP sem Scott Weiland?
Por Alaor Rocha
Postado em 07 de outubro de 2013
Não vivi os anos 90. Nasci em 1994 e tudo que me lembro dessa década de modo ativo é que eu desenhava nas paredes de casa e era o mais novo da minha turma do pré. Não senti as dores do falecimento dos Mamonas Assassinas nem do Ayrton Senna. Não vivi a época de muita dance music e grunge que ouvimos até hoje.
Não vivi na época de ouro dos STONE TEMPLE PILOTS.
Então de certo modo não entendo todo esse rebuliço que a saída de SCOTT WEILAND causa até hoje entre os fãs da banda. É claro que a saída de qualquer vocalista é sempre uma flecha no joelho da maior parte dos grupos (e podemos ir do Alexandre Pires saindo do Só Pra Contrariar até o Rob Halford se desligando do JUDAS PRIEST), não há como negar: A história da música mostra o coup de grâce que uma situação dessas é.
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Se formos parar para contar, na verdade há poucos casos onde a troca de vocalistas se mostrou vantajosa para a banda. Podemos citar o Chuck Mosley sendo substituído por Mike Patton no FAITH NO MORE, David Gilmour pegando o lugar de Syd Barrett no PINK FLOYD e quando Ozzy foi demitido do BLACK SABBATH para que Dio dominasse os vocais. Por mais que tais trocas sempre causem uma cisão entre os fãs, esses três exemplos podem ilustrar que existe fuga à regra de que a banda simplesmente não tem mais chance de seguir em frente.
Mas voltemos aos Stone Temple Pilots. Não é segredo para ninguém que Scott é um garoto-problema para a banda, por mais talentoso que seja: Caracterizado como um adicto arrogante na mídia (e, recentemente, com sua voz desgastadíssima — palavra de quem o viu ao vivo na edição de 2011 do SWU), o vocalista sempre andou na corda bamba entre seus parceiros de STP. Até mesmo sua passagem pelo VELVET REVOLVER foi conturbada, deixando os ex-GUNS N' ROSES órfãos de voz até hoje (uma pena, é um senhor supergrupo). Era quase questão de tempo ver Scott ser chutado da banda pela segunda vez, já que nem mesmo sua capacidade vocal conseguia compensar seus problemas com drogas e álcool. O esperado ocorreu em Fevereiro desse ano, com direito a brigas judiciais quanto ao uso da marca Stone Temple Pilots pelos irmãos DeLeo e uma conversa indireta entre os lados da cisão, mais ou menos como quando dois amigos do primário brigam e pedem para que o amiguinho em comum faça a ponte entre eles.
Tudo bem, mas os DeLeo gostariam de continuar usando o nome para quê? Fariam um Instrumental Pilots? Scott Weiland dificilmente seria substituído por alguém à altura e... bem, até que em Maio chegou a notícia de que os pilotos continuariam, comandados pelo frontman do LINKIN PARK, Chester Bennington (anexando o lembrete "with Chester Bennington" ao nome da banda exatamente pela batalha nos tribunais). A notícia veio acompanhada da primeira música da parceria, "Out of time", e a partir daí o caldo só fez engrossar.
Hoje, com EP prestes a ser lançado em formato físico (já está disponível para streaming) e alguns shows bem-sucedidos, o Stone Temple Pilots tem passado por uma represália que às vezes beira a infantilidade. Na página do Facebook da banda, qualquer postagem é acompanhada por xingamentos irresolutos a Chester, inúmeros "No Scott, no STP" e comentários dizendo como esse é um novo Talk Show e pedindo para trazerem Scott de volta aos pilotos. Mas esperaí:
1. Chester não é um mau vocalista. Longe disso, na verdade. Por menos que se goste de Linkin Park por aí (para mim, ódio puramente infundado), é perceptível a grande evolução pela qual o vocalista passou durante esses anos de carreira. Está cantando com voracidade à frente do STP, atingindo sem esforço as notas que Weiland fazia quase questão de distorcer ao vivo.
2. Sim, Chester está copiando trejeitos de Scott em cima do palco, mas isso é motivo para crucificá-lo? Primeiro que ele sempre foi fã assumido dos pilotos; segundo que ele já vem de uma banda mais do que famosa e provavelmente não quer deixar o espectro do Linkin Park pairar sobre o STP exatamente por muito desse ódio que vitimiza sua origem; terceiro que o Scott é inegavelmente a principal referência visual da banda, então é claro que os fãs sentiriam falta de algo na linha (principalmente porque é visível quantas viúvas de vocalista nascem desses rompimentos).
3. "High Rise", o EP, está mais do que Stone Temple Pilots. É instigante, nada nostálgico, com cinco músicas igualmente potentes e que cairiam como uma luva nos vocais de Scott Weiland.
4. E sem tocar "Plush" ao vivo. Sério, eles não tocaram "Plush" ao vivo até então. E não parece estar fazendo falta.
Mas com certeza qualquer um pode jogar na minha cara que, por exemplo, o PEARL JAM nada seria se Eddie Vedder fosse substituído, ou o METALLICA sem James Hetfield seria querer a Bíblia sem Jesus (até mesmo o Linkin Park passaria por perrengues se Chester se desligasse da banda). Não discordarei de modo algum: Bandas como IRON MAIDEN e o já citado Judas Priest quase mergulharam no ostracismo quando Blaze Bayley e Tim Owens comandaram os vocais, tal atitude é pisar em ovos já rachados para a maior parte das bandas.
Mas, pessoalmente, o Scott não é tão único assim. Seu estilo é inconfundível, sim, assim como sua voz tem um misto de suavidade e potência mais do que característico (Velvet Revolver está até hoje no meu Top 5 particular, muito devido a Scott), mas a entrada de Chester, por mais dolorosa que seja para todas as viúvas, me fez perceber que sim, ele é substituível. O vocalista do Linkin Park é competente como poucos seriam, desempenha sua função com bastante confiança (por mais delicada que seja sua situação) e tem tudo para continuar com um trabalho ótimo com os pilotos.
Pois é, ninguém é insubstituível. Seja no amor, em um cargo numa empresa ou banda. Sim, o NIRVANA poderia ter continuado sem Kurt Cobain, assim como o LED ZEPPELIN sem Bonzo. A concessão de continuidade foi feita por respeito a esses membros, o que é mais do que justo. Julgar a qualidade de uma banda pós-troca de vocalista é outra coisa, mas, lá no fundo, qualquer uma pode continuar seus trabalhos mesmo que só haja um membro original (Guns N' Roses mandou um beijo). E isso vale para outros campos, também: A Apple segue firme e forte sem Steve Jobs, a série Arquivo X sobreviveu a trancos e barrancos quase sem um de seus protagonistas... os exemplos são infinitos.
Repito, a qualidade é uma questão separada.
Felizmente, os Stone Temple Pilots foram certeiros em sua decisão. A fila anda, Scott.
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