Aliterasom: Jack Endino, "O Inferno São Os Outros"

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Por Daniel da Costa Junior, Fonte: Aliterasom
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Existem algumas coisas que afligem apenas brasileiros. Uma delas é uma crítica direcionada a nossa nacionalidade. Se tem algo que nos (vou me incluir para não parecer falta de humildade) incomoda de forma quase repugnante, é uma crítica que associe quem somos ao país onde nascemos. É como se o brio patriótico brotasse – porque ele de fato não existe – do interior do nosso coração e explodisse nos nossos lábios (e agora nos nossos dedos, nos comentários, dos fóruns, das redes sociais, de onde deixarem) com palavras de ordem, com xingamentos, com ufanismos, com uma falsa sensação de brasileirismo.
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Vamos recordar que quando Matt Groening, criador dos Simpsons, fez um episódio do seu clássico desenho retratando o Brasil de forma caricata, a sociedade se manifestou como se, perto de nossas fronteiras, os Yankes estivessem com suas garruchas apontadas para os índios, com garrafas Duff na mão e com o uniforme do New York Knicks por dentro dos coletes anti-flechas. Groening virou persona non grata de alguns setores da população, mesmo aquelas que não sabem quem é Homer Simpson e muito menos onde fica Springfield. Matt não perdoa sua própria nação, seus políticos, seu sistema de comunicação, o entretenimento... Nada passa despercebido pelo artista. Irlanda, Canadá, Japão... Todos eles já tiveram a chance de serem “homenageados” pela família mais conhecida dos Estados Unidos e isso não partiu os protocolos diplomáticos entre as nações, mas aqui...

Em outro episódio (não do desenho) envolveu um dos integrantes do comitê da FIFA, o senhor Jerôme Valcke. O francês pegou pesado nas críticas aos organizadores da Copa no país pela lentidão das obras e o atraso no cronograma na entrega dos estádios para a maior competição futebolística do planeta. Como cereja, disse que o Brasil precisava de um chute no traseiro, para enfim tomar providências convincentes, muito mais do que otimismo, para que efetivamente tudo saia perfeito em 2014. Bem, o resto vocês já sabem: a presidente Dilma envolveu o ex-senador Aldo Rebelo para ser o testa de ferro e seu porta-voz nas questões que envolvem a organização do evento. Com seu sotaque nordestino carregado, só faltou pegar uma peixeira e ameaçar o dirigente de lhe cortar os bagos caso falasse mais uma vez do nosso traseiro. Só pra encerrar este parágrafo, o deputado federal Romário, não usou as mesmas expressões, mas disse que o Brasil fará vergonha no ano da Copa. Mudança de discurso? Não, mudança de termos e nacionalidade, não é peixe?

Agora foi a vez de Jack Endino entrar para lista dos seletos homens que falaram mal do “povo brasileiro”, porque assim entende a sociedade ao ler nos sites que ele criticara a forma como um grupo paraibano (The Noyzy) cantava em inglês. O que poderia passar batido apenas como uma opinião isolada e uma constatação não muito longe da verdade viraram uma questão de honra para algumas pessoas nas redes sociais. Músicos, produtores, bandas se revoltaram com a declaração de Endino, que após várias experiências no Brasil (o produtor já trabalhou com Titãs e Kid Abelha, por exemplo) não pode sequer emitir seu parecer como ouve sua própria língua na voz de não-falantes.

Acho a discussão tão inóspita a partir do momento que mesmo os brasileiros, não sabem falar e/ou escrever seu próprio idioma, cometendo em suas canções “licenças poéticas” que poderiam corar Machado de Assis e Drummond. O que inspira esse texto na sua essência é essa total inadequação de conviver com outro olhar, outra perspectiva, outro prisma. Caso ele tivesse elogiado, seria primeira página de orgulho: “Não sabemos falar português, mas o nosso inglês está ready”. Tomar como motivo de ofensa o fato de não falarmos direito um idioma que não é nosso (?) é o consenso de que a nossa burrice se internacionalizou, não é mais apenas de ciência tupiniquim. Portanto, a conclusão que chegamos, é que muito mais do que um quimeras, o que nos incomoda mesmo é que gringos falem que não sabemos cantar inglês, que somos desorganizados, que nossos programas infantis são cheios de sexismo e sensualidade e que este país ainda é uma bomba, mesmo que a classe média ache que o poder aquisitivo tenha lhe conferido inteligência.

É absurdo pra gente ouvir de um gringo o que a gente finge não saber. Acreditamos em jargões absurdos (Deus é brasileiro), cremos em uma identidade que não é nossa e passamos vergonha quando tentamos encobrir nossa falta de modéstia mediante alguma verdade ou algo que pareça com ela. Em algum lugar da história demos apenas poder aos brasileiros de tocar nas feridas dos brasileiros. Outorgamos apenas ao carioca, ao paulista, ao mineiro, ao gaúcho, nos dizer quem são os bons e os ruins. Qualquer outro membro do planeta Terra que se atreva a dizer que bandas de rock deveriam cantar em seu idioma porque cantam mal em inglês, está mentindo porque esta é uma verdade que só pode ser dita por quem fala português.

O pior disso tudo é que, para uma “grande maioria”, é um absurdo que nos digam o que fazemos de errado, porque errado mesmo é dizer o que precisamos reparar, right?

*Qualquer generalização perde muito a base crítica, portanto se o gringo tivesse dito que “todas” as bandas brasileiras cantam mal em inglês, os tomates das feiras cariocas seriam insuficiente.

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