De Elvis a tchu e tchá: Música Boa, vou te esperar

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Por Carolina Canelas
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Era uma vez, em um universo distante a existência de uma coisa chamada música. A música era um conjunto de coisas, voz, melodia, harmonia, instrumentos e letra. Estava escrito que esses 5 ingredientes teriam de estar presentes em todas as músicas, e a mistura de todos nas exatas proporções faria uma música ser realmente perfeita. Esse conceito foi criado a muito tempo atrás, e naquela época os criadores desse conceito esperavam que ele pudesse ser passado de geração em geração, sempre mudando, mudando para melhor... Eis que nos surgem... Happy rock e sertanejo universitário... Mas falemos deles depois, vamos voltar ao tempo onde os conceitos de música foram criados...

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Estamos em 17 de Julho de 1954, Memphis, Tennessee. Anos 50, um pequeno palco em um pub pouco conhecido, é lá que Elvis Aaron Presley se apresenta pela primeira vez. Elvis se tornou famoso com sucessos dançantes como "Hound Dog", "Heartbreak Hotel", "Jailhouse Rock", entre outros. Uma boa parte de seus sucessos já existia, sendo assim, pode-se dizer que Elvis teve uma grande ajuda de covers, muitos deles de cantores negros de blues (o que dá a ideia de que Elvis foi o primeiro cantor de blues branco), R&B e country. Porém, mesmo que fazendo covers, Elvis dava uma cara totalmente nova a cada música que cantasse. Sua voz (ingrediente 1) arrastada e sedutora era capaz de prender ouvintes por horas a fio. Ao pegar uma música Elvis dava a ela um ritmo agressivo e dançante, um blues acelerado que ainda assim, conseguia manter harmonia entre todos os instrumentos (ingredientes 2, 3 e 4). E por fim, suas letras eram algo considerado comum na época, amores que viriam, amores que se foram, letras que emocionavam as pessoas, letras cantadas com sentimento (ingrediente 5). Foi dessa mistura agressiva e dançante de blues, country e R&B que os estilos musicais que conhecemos hoje nasceram.

Avançando mais um pouco, chegamos aos conturbados anos 60. Início da guerra do Vietnã, Martin Luther King é assassinado, o homem chega a Lua... E em um pub calmo e tranquilo de Liverpool, Brian Epstein vê aquilo que seriam os Beatles tocando pela primeira vez. Os Beatles fecham contrato com a gravadora EMI e o compacto que lançaram um pouco depois ("Love Me Do") alcançou nada menos nada mais do que o primeiro lugar na lista da Mersey Beat (revista da época) e primeiro lugar na lista de mais vendidos da Billboard. Conforme os anos 60 iam acabando as músicas dos Beatles iam evoluindo, as vozes e as letras de John e Paul tornavam-se cada vez melhores, evoluíam de dramas da vida amorosa adolescente para letras que criticavam o governo e influenciavam o povo a ir contra a guerra. George procurava sempre novas formas de incrementar seus solos e começou a buscar ideias na música indiana, sendo assim o primeiro a utilizar-se de uma cítara em sua música. As vozes de John, Paul e George sempre foram harmoniosas por natureza, ouça "Twist And Shout", por exemplo. Os anos 60 foram realmente muito ricos em questão musical, os Beatles ganham um destaque especial por terem, na opinião de muitos, mudado a música, levado multidões ao delírio e atingido diversas idades, além de continuarem "vivos" até hoje. Os Stones e sua reputação de bad boys, Bob Dylan e seu blues de protesto, The Who e seu hábito de quebrar instrumentos após os shows, o Festival de Música Woodstock e seus ideais de rock, paz e amor... Naquela época os jovens estavam dispostos a lutar por seus direitos, e era exatamente essa a influencia que a música lhes dava, não se muda nada sentado no sofá, mas não precisamos de guerra para resolver os problemas.

Nos anos 70 surgem diferentes estilos musicais, Rock Progressivo, com bandas como Pink Floyd, Hard Rock, com Led Zeppelin, por exemplo, o Glam Rock com David Bowie. Durante os anos 70 tudo acabava e começava em música, as grandes bandas estavam em seu ápice e o público as idolatrava cada vez mais. Foi nos anos 70 que surgiram as discotecas e Disco Music, que teve maior popularidade nos anos 80. Houve também o Punk Rock, o tipo de música rápida, com poucos acordes e letras diretamente ofensivas aos governos. Nesse quesito os Sex Pistols chamaram mais a atenção no cenário underground da época. A música pop começa a criar uma nova cara, Michael Jackson aparece no cenário musical e rapidamente se transforma no Rei Do Pop. O ritmo começa a ser realmente importante na música pop, as pessoas querem dançar. Mas ainda assim em cada um desses gêneros a presença desses 5 ingredientes eram facilmente percebida. Os gritos arrastados de Steven Tyler, as melodias psicodélicas do Pink Floyd, os riffs de guitarra de Jimmy Page...

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Nos anos 80 começa a surgir o Heavy Metal e as bandas dos anos anteriores tendem apenas a crescer, os solos de guitarra tornam-se cada vez mais importantes e nasce uma enorme quantidade de músicas consideradas perfeitas por possuírem aqueles 5 ingredientes na medida certa. No Brasil acontece o primeiro Rock in Rio e surgem bandas como Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e Titãs, parecia a década perfeita. Temos de admitir que toda aquela vontade de revolução da era Hippie tinha se dissipado um pouco, mas ainda assim a juventude se indignava e vez ou outra armava passeatas e greves.

Dos anos 90 até os dias de hoje, não houve muitas mudanças, sim, muitas bandas antigas cresceram ainda mais e ainda nos dias de hoje lotam estádios, mas muitas esqueceram os conceitos de música, e muitas nasceram sem nem ao menos ter conhecimento deles. O pop virou um estilo no qual tudo que precisamos é uma bateria eletrônica, uma garota bonita (não precisa nem saber cantar, playback ta ai pra isso), alguns dançarinos, letras fúteis e repetitivas, e se houver uma guitarra, fique feliz, é o máximo que você verá. Ah, e se não houver garotas disponíveis serve um garoto que tenha a voz de uma. Não quero generalizar, mas o cenário pop de hoje esta transbordando de gente assim.

Ao longo de gerações a música influencia nosso jeito de agir, nosso jeito de pensar e de ver o mundo a nossa volta. Mas isso nos leva a refletir, do jeito que as coisas estão, quando chegamos as nossas escolas, sentamos em nossas carteiras e olhamos para o lado, estamos rodeados de "Garotas Radicais"? O que importa agora é dar uma fugidinha? O que leva uma sociedade a mudar completamente o conceito de uma "Pretty Woman" para uma "Sexy Bitch"?

A música precisa sim ser vendida, o mercado tem de funcionar, a música tem de ser levemente comercial, mas as gravadoras vendem o que elas acham que o público vai engolir. Isso quer dizer que viramos uma sociedade que engole tchetcherêrê com o Gustavo Lima? Não que apenas o Brasil passe por esse momento deprimente da música, mas estamos em estado de alerta, ou deveríamos estar. O que houve com a paz e amor que nos influenciava que queríamos? Agora queremos tchu e tchá. Meu último pensamento, é que no nível em que as coisas estão, na criatividade das músicas, no que defendem, na sensibilidade que possuem e no exemplo que dão... assim vocês me matam.




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