Metal Open Air: o público foi o verdadeiro show do festival

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Por Guilherme Ripper
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O desastre que nós todos testemunhamos durante o fim de semana por pouco não se tornou numa tragédia. O festival Metal Open Air, programado para os dias 20, 21 e 22 de abril no Parque da Independência em São Luiz (MA), foi inegavelmente um fiasco, gerando revolta nas redes sociais e destaque nos principais veículos nacionais, bem como na mídia internacional.

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Não há dúvidas do estrago causado. E enquanto acusações surgem de todos os lados, são apenas o começo de uma longa jornada a ser enfrentada na justiça por todos os fãs de heavy metal que se deslocaram dos mais diversos cantos do país para o evento.

E são esses mesmos bangers e metaleiros quem deram o mais impressionante show do Metal Open Air: um show de civilidade, educação e, principalmente, paciência. O que ficou mais do que provado durante o evento é que poucas multidões são tão esclarecidas e aptas socialmente quanto os fãs de metal.

Usemos esse episódio pelo menos para finalmente exorcizar o fantasma estereotípico do 'metalêro' agressivo, grosseiro, estranho, anti-social, sujo e desleixado. O que vimos nas diversas etapas do fracasso do festival foram pessoas honestas reivindicando direitos básicos de segurança, higiene e o cumprimento das diversas promessas feitas pela produção do Metal Open Air ao vender os ingressos. Além disso, aqueles fãs se mostraram conscientes o suficiente para não promover nenhum tipo de quebra-quebra ou violência generalizada - tão prováveis em qualquer situação de frustração em massa e abuso como aquela. Vejam o exemplo do Woodstock '99.

Parabéns ao público pelas sucessivas provas de bom senso.

Diversos veículos divulgaram notícias sobre o descaso no evento. Entre eles o mais importante telejornal do país, o Jornal Nacional, mostrando a indignação legítima e pacífica dos presentes. Apesar do desrespeito da organização, fomos finalmente tratados de forma neutra e sem preconceitos pela mídia, um direito tão caro aos fãs do estilo no país. Levantem as canecas e celebremos: estamos livres!

Podemos parar de nos tratar com aquele fatalismo de "incompreendidos" e "vilanizados" pela mídia. Se era mesmo isso que faltava, já fomos aceitos; humanizados. E também temos direito a um festival decente, que honre seus compromissos com fãs, artistas e funcionários.

Levantem e mordam? Nem tanto.

Mas repensemos nossos papéis.

A grande verdade é que a lambança do M:O:A gerou um grande sentimento de união por todo o país. O público da internet ficou profundamente sensibilizado com as condições de amigos, irmãos, filhos, pais e cônjuges que foram ao evento. Mesmo os que não conheciam ninguém no local ficaram intrigados com as notícias. Alguns veículos da mídia trabalharam por horas seguidas em busca de informações, prontamente propagadas por aqueles mesmos fãs na internet. Todos nós, público e profissionais, se indignaram coletivamente com o tratamento dispensado aos artistas e aos campistas. Artistas tocaram por pura consideração ao público. E, principalmente, o público presente no evento, como já citado, deu um show de união e respeito.

E agora, o que se faz com esse sentimento?

Que a sensação geral de ser desrespeitado se reverta em novas posturas em prol da nossa música. Que se dê uma volta por cima. Não acredito em "salvar o metal", nem nos discursos desse naipe. Mas acredito em uma cena que seja auto suficiente, que seja constantemente alimentada pela relação público-artistas-produtoras. O discurso de que o metal morreu não tem sentido, porque a cena simplesmente sobrevive, alheia a nós todos. Mas não custa nada que injetemos nela doses de dignidade e tentemos criar relações muito mais saudáveis para todos os envolvidos, não é?

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Produtores: entendam que a tolerância acabou. Façam eventos de qualidade e o público frequentará. Ofereçam condições e cumpram compromissos com as bandas. Usem o Metal Open Air como parâmetro para tudo que vocês PENSAREM em fazer daqui pra frente.

Bandas: vejam mais uma vez o público DO CARALHO que vocês têm. Produzam com qualidade que serão prestigiados. Essa galera só exige respeito para respeitar de volta. E todos eles trabalham duro para ganhar o dinheiro que gastam COM VOCÊS. Parabéns para o Hangar (e de alguma forma à Shadowside) pela clareza e coragem de serem os primeiros a tratar e explicar com antecedência o que estava acontecendo (arautos de todo o trauma que viria a seguir). Parabéns às bandas que, mesmo diante de todas as adversidades, conseguiram tocar e amenizar um pouco a situação crítica dos bangers que estavam no festival. E parabéns também às bandas que foram fiéis aos próprios princípios e não aceitaram menosprezar seus TRABALHOS (vejam bem, são empregos).

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Público: Continuem assim. Vocês foram o show do Metal Open Air. Vocês são a prova de que, mesmo diante do caos, o metal no Brasil VIVE e SOBREVIVE A TUDO. Mas, apesar da atitude irrepreensível de todos, saiam disso com consciência do que nossas bandas passam na estrada para tocar para vocês. Se o M:O:A foi um extremo, é também um grande resumo de todas as pequenas falcatruas e jogadas de má fé com as quais nossos artistas são obrigados a lidar para viver de música de forma honesta no país.

Deixo, por fim, uma sugestão pessoal (correndo o risco de pedradas): que aceitemos finalmente ser Metaleiros! Se ferreiros trabalham com ferro; se guerreiros vivem a guerra; se mineiros nasceram em Minas (!!); os METALEIROS carregam o metal com essa honra e entrega que vimos. É uma vocação.

Enquanto associarmos o termo aos personagens burros e esdrúxulos que viraram clichê, o termo será associado aos burros e esdrúxulos do clichê. É hora de deixar de lado esse preconceito e reinventar o significado de ser metaleiro. Usemos esse episódio como um novo começo. Até a Rede Globo já deu a deixa...

Enfim. Que a partir de hoje metaleiro e headbanger sejam sinônimos e tenham a mesma importância. Até porque, amigos, nada mais justo com o metal nacional que denominar pelo menos os fãs com um termo em português.

(Esse texto talvez ganhe uma sequência, avaliando mais profundamente a conduta dos profissionais e artistas durante o desastre M:O:A.)




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