Música: a internet e o modo como a consumimos

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Jean Carlo B. Santi
Enviar Correções  

Muito tem se falado neste assunto nos últimos dias. De celebridades do mundo artístico e até o Governo Americano com sua "PIPA" caindo na "SOPA" de muita gente, o fato é que esta pauta tem rendido bastante polêmica. Por este motivo, amigo leitor, não quero tratar aqui de discussões sobre propriedade intelectual, direitos autorais, liberdade de acesso dos internautas, ou qualquer coisa do gênero.

Lemmy Kilmister: A opinião da lenda sobre Sharon Osbourne e Iron Maiden

Metallica: as extravagâncias da banda para tocar no Rock in Rio

O que proponho aqui é sairmos do meio deste redemoinho e divagarmos sobre outro prisma. Minha curiosidade é saber, se outras pessoas comuns, assim como eu, amantes da música e especialmente do rock, pensam o mesmo sobre a forma de como temos consumido música ultimamente. Sou um balzaquiano, há muito deixei a casa dos 20, mas também não cheguei à era dos "enta" (quarenta, cinqüenta, sessenta...).

Comecei a ouvir música muito precocemente, coleciono discos desde os meus 6 anos de idade. Diferentemente da maioria das crianças, além das brincadeiras infantis habituais eu dividia meu tempo para escutar música na minha vitrolinha, escutava discos inteiros, e adorava aquilo. Não estou aqui fazendo o papel saudosista, na linha "como os anos 80 eram legais" ou coisas do tipo, nem querendo fazer comparação com o estilo de vida desta nova "Geração Internet". Aliás, respeito muito, pois cada um independente da data de nascimento, tem sua própria história. Só estou querendo tornar mais claro o cenário que vamos tratar mais adiante.

Para quem viveu essa época, é só relembrar, e para quem não, procure visualizar o contexto. O fato é que, nos anos 80, o acesso à música era MUITO restrito se comparado com os dias de hoje. Me lembro de como era difícil conseguir material novo (olhem só, tratávamos o acervo pessoal de cada um, digo, fitas K7, discos, revistas de rock, posters, etc, de "material"), havia a questão econômica, pois caso você quisesse adquirir qualquer música, tinha que ir pessoalmente em uma loja de discos e comprar, e pagar muito por qualquer fitinha K7, disco era ainda mais caro. Além disto, mesmo para os mais afortunados, não havia tanta disponibilidade e variedade assim, e qualquer novidade demorava "pra caramba" pra chegar, algumas até tinham que ser encomendadas do exterior, por qualquer bagatela. Nessa "escassez" de material, era muito comum emprestarmos e pegar emprestado discos e fitas dos amigos, e caso gostássemos, ainda poderíamos regravar em uma fita K7 virgem (lembram disto? Basf, VAT, Sony...), e aumentávamos nossa coleção com estas fitinhas piratas. Disco mesmo era adquirido quando a mesada reunida dava pra comprar, ou ganho de presente de Natal...

Estamos bem próximos do ponto onde quero chegar, quando falei em comprar disco. Me lembro que era um verdadeiro ritual: dinheiro na mão, já sabia de cor o disco que seria adquirido, afinal, passava várias vezes pela loja namorando o disco. O vendedor da loja virava meio que um amigo, no fundo você sentia um pouco de inveja dele, afinal, o indivíduo tinha acesso àquilo tudo, poderia ficar ouvindo o som que quisesse a tarde inteira, etc. Ele acabava também te dando boas dicas de álbuns de rock, trocava umas idéias, etc.

Enfim, em casa, sozinho de preferência ou com algum amigo mais chegado, colocava o som na vitrola e nada mais importava. Cada faixa era "degustada" e às vezes, dependendo da empolgação, repetida várias vezes no ato. Enquanto isso, ficava observando a capa do disco, todos os detalhes, o desenho, as fotos, as letras, o agradecimento dos artistas (isso mesmo, vocês já se esqueceram que tem tudo isso nos encartes dos discos? hehehe). Durante a semana, depois da escola e do trabalho, ouvia o disco de novo e de novo e de novo... Decorava cada palavra das letras (foi assim que consegui melhorar um pouco meu sofrível inglês) e todas as melodias, refrões, introduções, cada parte da música em si. Sabíamos tudo sobre as bandas, a discografia, suas histórias, a vida de cada integrante, as bandas por onde tinham passado, etc.

E quando surgia a oportunidade de ir a um show então? Mais uma rara oportunidade de ver nossos heróis em ação, já que o YouTube ainda não existia... Era questão de vida ou morte, você venderia as próprias roupas (exceto as camisetas pretas de banda!) e andaria 500 km à pé, porque certamente seria uma lembrança marcante para o resto da sua vida, e aumentaria ainda mais a lenda criada em torno da banda assistida. Pessoal, não sei se vocês se deram conta, mas era assim que se consumia música.

Observando melhor o cenário descrito anteriormente, não é difícil entender como estas bandas "da antiga" e sua música se tornaram imortais, diferentemente da efemeridade das bandas de hoje. Falando em hoje, é bem mais fácil descrever como consumimos música atualmente: ou você "pluga" o pen drive no som do carro com um monte de músicas soltas em uma pasta dirigindo para o trabalho ou ouve no computador, enquanto tecla com alguém no MSN, Facebook, Twiter, e por aí vai. Você até se esforça para assistir aos shows, mas não vê muita novidade no palco, afinal, você já viu milhões de vezes pela internet as apresentações daquela mesma turnê. Notaram alguma diferença? Hoje temos acesso a tanta música grátis e de forma instantânea, com tanta novidade disponível, que nem sabemos o que queremos ouvir. Não quero ser hipócrita, pois como amante e estudioso da música, eu também acabo baixando muito "material" na internet, e confesso que tenho pastas cheias de música que ainda nem ouvi. Assim como a maioria de vocês, não tenho muito tempo. Não sei o nome do baixista da nova banda, nem quantos álbuns ela tem, de onde veio, quando foi criada. Conheço uma ou duas músicas. Ouvi dizer na internet, busquei no YouTube e gostei. Baixei o álbum todo. Dentre em pouco se tornará apenas mais um e será esquecido no HD do computador, porque já estou baixando outras novidades que surgiram, e já são tantas que nem consigo me lembrar ou encontrar no computador...

Esta semana, a nossa Rita Lee, rainha do rock nacional, anunciou a sua aposentadoria dos palcos. E não fosse pelo incidente policial que ela criou, ninguém saberia disto. Afinal de contas, quem é ou quem foi a Rita Lee? Quem não a conheceu por ser jovem demais não deveria saber mesmo, afinal se conhece 50 novas boas bandas todos os dias, bandas legais de uma música só, que como ex-Big Brothers, amanhã não terão mais importância, pois se somarão com mais 50 bandas novas no dia seguinte. Algumas até poderão se perpetuar, mas conseguirão no máximo encher alguns ginásios por aí, e por pouco tempo. Encher estádio de futebol é coisa pra banda velha, que já lançou algum dia um disco de vinil. Não é interessante pesquisar esta "velharia do rock", com tanta coisa legal rolando hoje em dia. Infelizmente este é o pensamento mais genérico da juventude atual.

Desde sempre percebo uma grande diferença entre o rock e demais estilos de música, e não é porque sou roqueiro, é um fato: no rock não existe linha do tempo ou modismo, a música é eterna. Para qualquer roqueiro que se preze, ouvir Beatles é ainda tão relevante quanto foi à quase 50 anos atrás. O Nirvana e Alice in Chains ainda são o máximo, embora a onda grunge já tenha passado há tempos. O rock nacional do Legião Urbana, Titãs, Engenheiros do Hawaii, Barão Vermelho, Ira!, Ultraje à Rigor e Cia continuam do caralho mesmo depois de anos fora da mídia. Rolling Stones, The Doors, Black Sabbath, Judas Priest, Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, AC/DC, Iron Maiden, Metallica, Megadeth, Sepultura, Ramones, Sex Pistols, Queen, U2, Guns´n´Roses entre outros monstros que não caberiam aqui por falta de espaço ainda são as bandas mais fodidas e avassaladoras do mundo, e ninguém vai mudar isso para nós, roqueiros.

O problema é que algumas das bandas citadas já nem existem mais, e as que ainda estão na ativa, são lideradas por bravos "anciãos", que infelizmente, por limitações obvias, não poderão estar nos palcos por muito mais tempo. Para esta "geração vinil", a partir dos anos 2000 em diante não surgiu e muito provavelmente não surgirá nenhuma outra banda como estas citadas. E mesmo para estas bandas antigas, são os álbuns que algum dia foram ouvidos na "vitrolinha" que continuam levando as pessoas aos shows, muito menos pelos álbuns digitais lançados hoje.

Há muito se fala em morte do rock, e este ainda continua vivo e vigoroso, mas quando todos estes caras pararem, quem vai tocar o barco? Vocês conseguem imaginar alguém? Porque Jimi Hendrix, que morreu há várias décadas, continua sendo o guitarrista mais comentado por nós? Porque todos estes ícones continuam tão importantes e insubstituíveis? Só posso imaginar que, ao contrário do que nossos rockstars podem pensar por não venderem mais milhões de discos, todos eles tiveram o privilégio de surgir em uma época onde consumir música era uma verdadeira doação, feito com entrega e alma, imortalizando toda sua obra e os tornando lendários. Quem surgiu disponibilizando grátis seu álbum pela internet, e na semana seguinte através do número de acessos do Top Semanal já foi parar na programação da MTV, definitivamente não vai entrar para o mesmo hall.

Enfim, finalizo este texto não querendo chegar à conclusão alguma, porque é muito difícil ter uma definição real sobre os benefícios e prejuízos da internet sobre a música em si. Mas uma coisa é certa: houve uma radical e profunda mudança na forma de como consumimos música, e isto mexeu com as estruturas do meio musical de forma irreversível. Se podemos atrelar a isso outros fatores como a própria mudança no ritmo de vida dos tempos de hoje, com o capitalismo ainda mais selvagem, o fast food, a globalização, entre outros, é só mais um ingrediente para temperar esta salada. Mas enquanto desligo o computador, me bateu uma vontade louca de limpar a agulha da minha vitrola e botar pra tocar um discão do Raul Seixas que há muito eu não ouvia.

Jean Carlo B. Santi é Administrador de Empresas e Pós-Graduado em Marketing. Músico amador, atua também como baterista numa banda que toca covers de classic rock. Ainda criança, pôde conhecer através de um tio bandas como Queen, Pink Floyd, Gênesis, Nazareth, U2, Bon Jovi, Guns´n´Roses... Mais tarde, descobriria por conta própria que havia muito mais no rock, e desde então, nunca mais encontraria o caminho de volta do limbo de onde vivem todos estes seres fantásticos e surreais, habitantes deste mundo à parte chamado rock´n´roll.




Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Lemmy Kilmister: A opinião da lenda sobre Sharon Osbourne e Iron MaidenLemmy Kilmister
A opinião da lenda sobre Sharon Osbourne e Iron Maiden

Metallica: as extravagâncias da banda para tocar no Rock in RioMetallica
As extravagâncias da banda para tocar no Rock in Rio


Sobre Jean Carlo B. Santi

Jean Carlo B. Santi é Administrador de Empresas e Pós-Graduado em Marketing. Músico amador, atua também como baterista numa banda que toca covers de classic rock. Ainda criança, pôde conhecer através de um tio bandas como Queen, Pink Floyd, Gênesis, Nazareth, U2, Bon Jovi, Guns'n'Roses... Mais tarde, descobriria por conta própria que havia muito mais no rock, e desde então, nunca mais encontraria o caminho de volta do limbo de onde vivem todos estes seres fantásticos e surreais, habitantes deste mundo à parte chamado rock'n'roll.

Mais matérias de Jean Carlo B. Santi no Whiplash.Net.

adWhipDin adWhipDin adWhipDin adWhipDin adWhipDin