Respeito aos músicos brasileiros
Por Márcio Baraldi
Postado em 06 de dezembro de 2011
Há exatos dez anos atrás eu dividi o palco do saudoso programa Musikaos, na TV Cultura, com o Angra, que então estava feliz da vida, revigorado com sua nova formação e divulgando seu disco de retorno trinfual, o excelente "Rebirth". Me lembro que na ocasião, Edu Falaschi fez um entusiasmado elogio ao público headbanger brasileiro, dizendo que o público metálico era o mais fiel do mundo e também dos mais cultos, pois falava inglês e apreciava música bem tocada, o que é o caso do Heavy Metal, estilo conhecido pelo virtuosismo de seus músicos. Mas... e hoje em dia? Será que esse público ainda mereceria tal elogio? A julgar pelos recentes desabafos de Thiago Bianchi, vocalista do Shaman, e do próprio Edu, ambos amplamente divulgados no meio roqueiro, eu creio que os tempos mudaram. E o público também. Quando vi tais desabafos, primeiro do Thiago e depois do Edu, imediatamente pensei:"Milagre! Finalmente alguém está sendo sincero nesse mercado e falando a verdade! ". Sim, porque o que ambos falaram nada mais é do que a pura verdade que ninguém nesse mercado quer assumir publicamente. O que Thiago e Edu fizeram foi apenas dizer publicamente o que TODOS os músicos brasileiros dizem nas mesas de bar para os amigos, familiares e próprios colegas.
Todo mundo está careca de saber que ser músico (e artista em geral) no Brasil é uma missão muito difícil e ingrata. Por que? Porque vivemos num país que nunca teve uma política governamental sólida de apoio a sua própria cultura. Um país onde as rádios e TVs desde sempre pertencem a meia dúzia de famílias ou conglomerados poderosos que mandam e desmandam na mídia. É a família Marinho, a família Civita, a família Abravanel, os bispos da Univer$al, e mais algumas por aí. Tem deputado e senador neste país que tem mais de dez emissoras de rádio. Não pra tocar músicos brasileiros, mas pra ganhar dinheiro com jabá, verdadeira fábrica de fortunas! E o mais triste é que apesar de rádios e TVs serem concessões PÚBLICAS do governo, essas mesmas emissoras não dão espaço para o público, apenas para o privado, ou seja, para os anunciantes. O público mesmo que se dane, que engula calado o que os donos da mídia querem lhe empurrar goela abaixo. Engulam novelas idiotas, programas de humor sem graça, notícias manipuladas, mentiras deslavadas, apoio explícito a determinados candidatos nas eleições, pornografia, baixarias, reality shows vergonhosos, enfim, engulam tudo que os faça cada vez mais burros e alienados. Cada vez mais fúteis, superficiais e despolitizados. E, claro, pra coroar esse processo todo, falta uma peça-chave: a música! A música, uma das artes mais antigas e sublimes da Humanidade, que sempre serviu para entreter saudavelmente as pessoas, para transmitir boas mensagens e despertar sentimentos, hoje serve para uma única coisa:durar um verão e depois ir para o lixo.
É isso que as rádios populares e a grande mídia desejam quando expulsam de sua programação Chico Buarque, Milton Nascimento, Raul Seixas, Rita Lee, Elis Regina, Renato Russo, Cazuza, e tantos outros músicos brasileiros de valor inquestionável, para colocar em seu lugar "artistinhas" acéfalos, criados em laboratório e programados para durar um ou dois verões. É o que desejam quando boicotam radicalmente o metal e o rock de qualidade brasileiros para substituí-los por "canções" pavorosas de dois acordes mal tocados, com letras que fazem o Tiririca parecer o Einsten. Expulsam músicos formidáveis, repletos de talento e idéias inteligentes, para colocar em seu lugar vagabas de bunda e peitos siliconados gemendo uma tonelada de palavrões. Pra tocar coisas que a gente sente vergonha só de ouvir o refrão.
Edu Falaschi e Thiago Bianchi sabem muito bem disso tudo, pois sentem na própria pele essa injustiça todos os dias. Como tantos milhares de músicos brasileiros, Thiago e Edu dedicaram suas vidas a estudar música arduamente desde crianças. Gastaram muito tempo e dinheiro do próprio bolso em conservatórios, para desenvolver a vocação e o talento com o qual nasceram. Para realizarem seu sonho e projeto de vida. Gastaram pequenas fortunas gravando discos ótimos e caros, produzindo clipes idem, comprando instrumentos, equipamentos, iluminação e figurinos de palco. Tudo para oferecer o melhor para o público. E o que recebem em troca?! ?
Cadê aquele "público fiel e culto do metal" que não lotam seus shows? Que não compram seus discos originais, que não garantem o sustento dos próprios artistas que dizem gostar?
Infelizmente músico no Brasil sempre foi uma categoria profissional desmobilizada, despolitizada, largada "à própria sorte". Nunca possuíram um sindicato atuante que organizasse a categoria, que estabelecesse tabela de preços de cachês, que tivesse um Departamento Jurídico forte para defende-los de caloteiros e tantos picaretas que infestam esse mercado de shows no Brasil. Que lutasse junto ao Congresso por leis que apoiassem e protegessem a música brasileira, que peitasse o "Império do Jabá" que sempre reinou nas rádios e TVs e obrigassem-nas a reservar uma cota de suas programações para a música nacional de qualidade, incluindo-se aí o rock e o metal. Falta um sindicato para garantir aos músicos brasileiros o direito de viverem dignamente da própria música, sem precisarem jogar as próprias composições no lixo e (sobre)viverem de covers em barzinhos. Nem de dar aulas para o resto da vida. Um sindicato que substitua a OMB (Ordem dos Músicos do Brasil) que está aí hoje e nada faz de concreto pelos músicos.
Falta uma política cultural do governo para fazer pela música brasileira o mesmo que está fazendo pelo cinema brasileiro. Hoje, graças ao apoio do governo o cinema nacional cresceu, apareceu e ganhou o mundo! Hoje temos sucessos internacionais como "Tropa de Elite", "Chico Xavier", "Cidade de Deus" e tantos outros e uma produção que não para de crescer, com novos filmes todo mês.
É preciso conquistar o mesmo respeito para com a música nacional. Hoje temos milhares de músicos talentosos, com músicas maravilhosas, mas que não tocam nas rádios, nao aparecem na TV, não alcançam o povão, ninguém conhece. Será que é pedir demais que num país de 200 milhões de habitantes, alguns milhares comprem seus discos e vão aos seus shows?
E, por favor, não venham dizer que basta o Youtube, o Myspace e um boca-a-boca pra alguém fazer sucesso que isso já está provado que não passa de ilusão. O Youtube é um oceano de caras e bocas, onde uma pequena parcela que realmente tem talento se perde numa imensidão de lixo que só serve mesmo pra ocupar espaço. Lugar de música boa é no rádio! Sempre foi, sempre será.
Também não concordo quando dizem que o público não vai aos shows nacionais porque gastam todo seu dinheiro em shows estrangeiros e acaba não sobrando nada no bolso. Há tantos shows nacionais bacanas pelo Brasil afora por dez, vinte, trinta reais. Isso é dinheiro de pinga para quem paga 500 reais para ver o Metallica ou o Roger Waters, por exemplo. Isso é desculpa esfarrapada, as pessoas não vão porque só querem assistir o que está na moda. Só querem ver o que já é famoso, ou o que a mídia lhes manda assistir, os artistinhas canastrões que essa mesma mídia fabrica e vende para o público. As pessoas hoje em dia não dão mais valor para o conteúdo, e sim para a embalagem. Quem tiver a melhor propaganda ( e mais grana para ela), leva!
Por tudo isso, Thiago e Edu não tem que pedir desculpas a ninguém, muito pelo contrário. É o público que deveria se desculpar com eles e com todas essas bandas de alto nível que o Brasil possui e que não recebem o devido respeito e valor que merecem.
Eu já aplaudi Thiago e Edu como músicos muitas vezes na minha vida. Mas desta vez os aplaudo em dobro:pelo talento e pela sinceridade! Respeito aos músicos brasileiros!
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