Metallica: a arte em "Lulu" e no "Kill 'Em All"

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Por Gustavo Hermann
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Muito se tem falado recentemente sobre o valor artístico do novo álbum do Metallica, Lulu. As letras escritas por Lou Reed, inspiradas pelas peças "Erdgeist" (Espírito da Terra) e "Die Büchse der Pandora" (A Caixa de Pandora), ambas de autoria do dramaturgo alemão Frank Wedekind, têm sido apontadas por alguns fãs e críticos como obras-primas de altíssimo valor artístico. As peças de Wedekind, escritas na virada do século XIX para o XX, narram a história de Lulu, uma mulher lasciva que, após relacionar-se com uma série de homens e prostituir-se nas ruas de Londres, acaba sendo vítima do famoso assassino Jack, o estripador.

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Os poemas de Lou Reed inspirados pela saga de Lulu são divagações eróticas cuja relação com o enredo das peças é apenas vaga. Reed, que na juventude foi submetido a tratamentos de choque para "curar" seu bissexualismo, compõe versos sobre engolir o pênis de um homem de cor ("I will swallow your sharpest cutter. Like a colored man's dick." trecho da faixa Pumping Blood), sobre um cachorrinho com seu pequeno pênis ("Little dog don't have much at all. A puny body and a tiny dick." trecho da faixa Little Dog") e sobre James Heatfield ser uma mesa ("I'm the table", trecho que Heatfield repete diversas vezes com espantosa convicção no decorrer da faixa The View). Antes de se emitir qualquer julgamento, é necessário frisar que o valor artístico de uma obra está nos olhos de quem a aprecia (Eye of the Beholder?), sendo por isso relativo. Há quem encontre na poesia de Reed uma visão artística arrebatadora e vanguardista, assim como há aqueles que consideram um disparate chamar de arte tal tipo de "poesia".


O objetivo deste artigo, entretanto, não é discutir o valor artístico de Lulu ou das letras de Lou Reed, mas sim argumentar sobre a validade das letras do Metallica "antigo" como arte, em especial aquelas de seu début de 1983, o álbum que deu origem ao gênero thrash metal: Kill'Em All. Vejamos o trecho a seguir:

"You know our fans are insane,
We're gonna blow this place away!
With volume higher
than anything today...the only way, yeah!
When we start to rock
we never want to stop again!"

"Nós sabemos que nossos fãs são insanos,
Nós vamos estourar esse lugar!
com o volume mais alto
que qualquer coisa hoje... essa é a única forma, yeah!
Quando nós começamos a botar pra quebrar
nós não queremos parar nunca mais!"

(trecho da letra da faixa Hit the Light)

Há quem torça o nariz para este tipo de "poesia", porém pretendo mostrar que o trecho de Hit the Lights supracitado possui valor artístico tão grande ou mesmo maior que aquele dos poemas de Lou Reed recitados em Lulu. Muitos dirão que, em comparação à arte de Lou Reed, a fanfarra adolescente concebida pelo Metallica no início da década de 1980 soa infantil e imatura. Porém, é possível encontrar no trecho acima aspectos que remetem à obra do artista primitista/pós-impressionista Eugène Henri Paul Gauguin - no caso o retrato crú de impulsos juvenis primitivos em um estilo "naïve", pincelado com maestria pelo Metallica nos versos de sua letra. Os tom "ridicule" que permeia as rimas pode ser tomado como uma influência direta da vida e obra do pintor Henri Julien Félix Rousseau, famosas por seus tons patéticos e por seu pós-impressionismo bem humorado, respectivamente.

O Metallica de 1983 pode ser considerado como os "cubistas" da música moderna, visto a simplicidade "avant-garde" de seus temas e letras. Leia mais uma vez o trecho acima, você consegue notar a remoção intencional de qualquer senso coerente de profundidade? consegue perceber a força arrebatadora e a simplicidade do estilo? a energia tribal primitiva que emana de cada um dos versos, cuidadosamente compostos visando um avassalador efeito dramático? você pode captar o elemento perturbador de sua expressão pueril? e a alusão ao mito de Ícaro implícito na palavra "higher" (mais alto), representando o desejo do poeta por transcendência artística?

Muitos destes aspectos podem ser utilizados para se traçar paralelos entre a arte produzida pelo Metallica e grandes movimentos artísticos modernos como o cubismo, expressionismo, primitivismo, pós-impressionismo etc. Por esta razão, arrisco dizer que Kill'Em All é, ao menos liricamente, o álbum mais maduro do Metallica. Assim como o poeta francês Jean Nicolas Arthur Rimbaud, o Metallica alcançou o ápice de sua criatividade lírica muito cedo em sua carreira; ao contrário de Rimbaud, entretanto, os membros do Metallica não se aperceberam disto, e perderam a oportunidade de, como Rimbaud, abandonar sua arte no momento em que se encontravam no topo do mundo, tocando mentes jovens das alturas, sentados aos pés de anjos.


Atualmente a banda busca, com limitado sucesso, soar mais uma vez "art-sy", como indica a escolha por uma colaboração com Lou Reed para seu novo álbum, o sucessor do aclamado Death Magnetic de 2008. Porém é pouco provável que o Metallica jamais consiga criar algo comparável à grandeza lírica de sua obra-prima - o álbum Kill'Em All. Não, meus amigos, tal tipo de expressão sublime ocorre apenas uma vez a cada cem anos, se tivermos sorte. Não esperem poesia do quilate das letras de Kill'em All antes de 2083!

"We are gonna kick some ass tonight
We got the metal madness
When our fans start screaming
Its right well alright"

"Nós vamos chutar algumas bundas esta noite
Nós estamos contaminados com a loucura do metal
Quando nossos fãs começam a gritar
Está certo, bom, tudo bem"

(trecho da letra de Hit the Light)

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