Você concorda com solos individuais nos shows?

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Por Bruno Sanchez
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Há algumas semanas, eu lia uma entrevista do famoso baterista Mike Terrana, conhecido pelos seus trabalhos ao lado do Metalium, Squealer, Artension, Axel Rudi Pell, Malmsteen e Rage. Exatamente sobre esta última banda, Mike deu o depoimento - digamos - mais emotivo da conversa, descrevendo como ficou triste quando o líder e baixista Peter "Peavey" Wagner, não queria que ele fizesse um solo individual de bateria durante a apresentação brasileira da banda no Live 'N' Louder de 2005.

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Magoado, Mike disse que queria apenas entreter a audiência e deixou claro que um dos motivos que o fez sair da banda meses depois, foi essa proibição.

O ponto deste artigo é: você está em um festival, com um tempo restrito para a apresentação da sua banda (de 30 a 40 minutos, em média) e seu baterista está louco para ocupar quase 10, desses minutos, com um solo individual, o que você faria? O público realmente se diverte com esses solos para justificar a mágoa de Mike Terrana?

Hoje em dia, quase toda banda de Rock e Metal que se preze, tem um momento de solos individuais durante suas apresentações. De cabeça, lembro do momento nos shows do Children Of Bodom, Avalanch, Angra, Shaaman, Whitesnake, Gamma Ray, Helloween, KISS, Deep Purple, Edguy, Stryper, Dr. Sin, Dio, Hammerfall, Primal Fear, Deep Purple e Living Colour.

Solos assim não são nenhuma novidade para quem entende um pouco de música. No Blues e no Jazz, eles estão presentes há mais de 80 anos! Mas não exatamente no formato que conhecemos, afinal, o que vale nesses estilos, é a criatividade e improvisação, nada ensaiado. O músico descarrega o que está sentindo e desenvolve algo na hora.

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O Rock dos anos 60, totalmente influenciado pelo Blues em bandas como Cream, The Who e The Jimi Hendrix Experience, também trouxe improvisação e criatividade e foi nessa época, que os solos em shows de música pesada se consolidaram, especialmente com o baterista Ginger Baker, para se tornar carta marcada nos shows da década seguinte.

Mas o problema é justamente essa improvisação e criatividade. Hoje, os solos não saem mais a partir do engenho do músico; Tudo é pré-programado, reproduções do que já ouvimos nos últimos 30 anos e que o músico repete exaustivamente até o fim da turnê: a brincadeira com o surdo com a "participação" do público, as mesmas viradas, batidas familiares (Painkiller?), melodias conhecidas no medley dos teclados ou guitarra (tema de Star Wars?), nenhuma novidade, nada. Um verdadeiro tédio que acaba causando o temível anticlímax, muitas vezes irreversível, até o final da apresentação. Será que ninguém percebeu isso?

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Agora me responda: qual o objetivo de um solo individual, atualmente? Agradar realmente o público ou um sinal do ego do músico em questão apenas para mostrar o quanto ele é competente em cima dos palcos?

Dave Lombardo, um dos maiores bateristas que já pisaram no planeta Terra, jamais se utilizou de um solo individual para demonstrar sua competência em uma apresentação. O Slayer, aliás, é uma das poucas bandas que sabe utilizar seu tempo, seja em festival ou como atração principal nas próprias turnês, de maneira inteligente: despejando um clássico atrás do outro, sem pausas e intercalando com uma ou outra música do novo CD, deixando todos com um sorriso de orelha a orelha.

Steve Harris, indiscutivelmente um dos baixistas mais influentes de todos os tempos, também nunca precisou de um solo individual para mostrar seu talento.

Pelo outro lado, no entanto, músicos de talento inquestionável como Cliff Burton, John Bonham, Ritchie Blackmore, Mike Portnoy, e outros, também já tiveram seus momentos de massagem de ego sobre os palcos.

Não vou para cima do muro e dou minha opinião agora a vocês: solos individuais esfriam o público nos shows e devem ser evitados. Peavey estava certo em proibir o Sr. Terrana, especialmente por se tratar de um festival, com tempo bem restrito para cada grupo. No lugar do solo, uma banda pode aproveitar melhor o seu tempo colocando uma ou duas músicas a mais no set, quem sabe alguma surpresa ou algo esquecido há anos?

Não estou sozinho em minhas observações. Uma rápida pesquisa em um dos fóruns de música onde participo, mostrou que a maioria concorda que solos não são sinônimos de diversão para o público. Rogério Martins, 41 anos, fã de Rock e Heavy Metal há algumas décadas, deixou clara sua impressão:

"Eu acho um saco. Esfria legal o show. Normalmente é o vocalista que dá uma pausa pra garganta e começa a apresentar a banda. Fulano de tal no baixo (tome 10 minutos de baixo), Joãozinho na bateria (mais 10 minutos na batera), El Fodon na guitarra (mais 10 de solo de guitarra), sem contar quando a banda tem teclado e outros instrumentos. Essa é uma boa hora para sentar, ir fazer um xixi ou tirar um cochilo. Eu já vi alguns solos criativos e interessantes, mas é uma raridade."

Gabriel Marques Silva, 29 anos, também concorda com Rogério:

"O que vemos por aqui são bandas com bateristas muito bons tecnicamente, porém de pouca criatividade. É raro você encontrar composições deles nos álbuns, mesmo na parte instrumental, logo, na hora de solar, é aquele Workshop de bateria. O cara arregaça, bate muito rápido em tudo, mas o som é desinteressante."

O headbanger paulistano, Renato Kagami, 23 anos, comenta:

"Solos individuais não são bons, em sua grande maioria. Esfriam o público e só agradam aos fãs de determinado instrumento. Jams conjuntas soariam bem mais interessantes. Como por exemplo improvisar uma música, ou tocar um cover de maneira imprevista. Algo que faça aquele show ser único, não apenas um solinho que pode soar "matador" para um tipo de pessoa, mas que para 99,9% do público seja maçante."

Lógico que existem exceções. Os solos do baterista Aquiles Priester (Angra), costumam ser versáteis e interessantes, mas longos, o que também acaba esfriando a audiência. Obviamente que todos que vão a um show do Van Halen, querem ouvir um solo de Eddie Van Halen. Quem vai ao show do Rush, idem, quer um solo de Neil Peart. Quem vai a um show do G3, também quer ouvir solos dos três guitarristas Mas na esmagadora maioria das apresentações, os solos individuais apenas desanimam seu público.

Uma maneira de encaixar esses momentos, sem necessariamente quebrar o clima de uma apresentação, é como elo de ligação entre as músicas. O Metallica usava bastante esse artifício nos shows da turnê do álbum '...And Justice For All'. Kirk Hammett fazia um solo rápido (eu disse: rápido) entre os clássicos For Whom The Bell Tolls e Welcome Home (Sanitarium). Mas não era apenas uma masturbação sonora, ele servia inteligentemente para ligar as duas músicas e não deixar os ânimos esfriarem. Neste caso, a execução era totalmente válida e, lógico, a decisão de ter ou não esses solos deve partir sempre do bom senso dos músicos, independente do tamanho do ego e do pensamento "vou tocar porque quero e eles que se danem", afinal, como já diria o sábio Gene Simmons, "uma banda trabalha para seu público".

Uma das matérias mais polêmicas que escrevi até hoje, foi a resenha de um show do Dr. Sin no começo de 2004. Particularmente, adoro a banda, mas naquele dia - na minha opinião - eles pisaram na bola. A apresentação atrasou por nada menos que 4 horas e quando os caras entraram, com o público exausto da espera, começaram a intercalar os clássicos da carreira com solos intermináveis e, depois da ótima Down In The Trenches, colocaram mais quase meia hora de solos individuais e isso já eram quase 6 da matina. Por mais fã que você seja (e eu sou), é de matar né?

Vale lembrar que firulas nos shows, solos individuais e virtuosismo, foram grandes responsáveis pela decadência do Hard Rock e Heavy Metal na segunda metade da década de 70. Naqueles idos, o público mais velho, na casa dos 25 anos, que cresceu acompanhando bandas como Led Zeppelin, Deep Purple e Rainbow, curtiam as versões "ao vivo" das músicas, que mesmo quando eram curtas nos discos originais, acabavam se transformando em longos números sobre os palcos. Lembro de uma conhecida versão de Dazed And Confused do Led Zeppelin, que ganhou generosos minutos na versão ao vivo com um solo gigantesco de John Bonham.

Há quem goste (os mais velhos), há quem odeie (a molecada que estava começando a ouvir Rock) e, justamente esse segundo grupo, abandonou a virtuose em troca de sons mais rápidos e diretos: resumindo, foi o surgimento do movimento Punk inglês, que logo se espalhou para o resto do mundo.

Mas ainda tinha quem gostasse de um som técnico e pesado, porém direto e isso proporcionou o "boom" da NWOBHM no final dos anos 70 que revelou nomes como Saxon e Iron Maiden. Essas bandas, que aliaram a energia do Punk com a técnica do Metal, também nunca precisaram de um solo individual para se consolidar (não me lembro mesmo do Maiden ocupando espaço no seu setlist com isso, nem no começo de carreira).

Vai da cabeça de cada um, mas tenho percebido cada vez mais que o público anda de saco cheio desses momentos. E você? É contra ou a favor dos solos individuais nos shows?

PS: Alguns leitores mandaram e-mails comentando que o Maiden teve - sim - momentos de solos individuais ao longo da carreira. No vídeo do Rock In Rio, na turnê do Powerslave, Dave Murray tinha um solo de guitarra que se repetia na Somewhere On Tour no ano seguinte, com Adrian Smith. Agradeço os leitores pela participação e reparem que esses solos não fazem parte da rotina de turnês dos ingleses há 20 anos, portanto acredito que o Iron Maiden e sua equipe chegaram à mesma conclusão que eu.




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Sobre Bruno Sanchez

Paulistano, 26 anos, Administrador de Empresas e amante de História. Bruno é colaborador do Whiplash! desde 2003, mas seus textos e resenhas já constavam na parte de usuários em 1998. Foi levado ao Rock e Metal pelos seus pais através de Beatles, Byrds e Animals. Com o tempo, descobriu o Metallica ainda nos anos 80 e sua vida nunca mais foi a mesma. Suas bandas preferidas são Beatles, Metallica, Iron Maiden, Judas Priest, Slayer, Venom, Cream, Blind Guardian e Gamma Ray.

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