Kurt Cobain: ele era ambicioso apesar da imagem de antiastro
Fonte: Último Segundo IG
Postado em 31 de outubro de 2002
Kurt Cobain pode ter sido um drogado infeliz que desprezava a indústria da música, mas o vocalista do Nirvana não era nada preguiçoso quando se tratava de criar a imagem e gerenciar os negócios de sua influente banda de rock.
Trechos de seu diário mostram que ele passou um bom tempo planejando videoclipes, os comunicados à imprensa, o design gráfico dos discos e o merchandising.
Enquanto isso, ele se apresentava aos fãs como o antiastro de rock, desconfortável com a aclamação mundial que catapultou o Nirvana para o auge do rock'n'roll no início dos anos 1990.
A fragilidade emocional de Cobain, seus problemas de saúde e de uso de drogas levaram-no ao suicídio em 1994, aos 27 anos.
"Sinto-me um imbecil escrevendo sobre mim mesmo como se eu fosse um ícone do pop-rock americano - um semideus ou um produto confesso da rebelião pré-fabricada corporativa", escreveu Cobain no seu diário.
Sua viúva, a estrela Courtney Love, vendeu os direitos de publicação dos diários ao grupo editorial Penguin Putnam Inc por estimados 4 milhões de dólares. O material editado, "Journals", foi lançado nos Estados Unidos em 4 de novembro de 2002 pela editora do grupo, a Riverhead Books.
O contrato de Love causou polêmica entre os fãs do Nirvana, que puseram-se a cogitar se seu ídolo gostaria de ver seus pensamentos íntimos publicados. A editora do livro, Julie Grau, disse que os 27 pacotes de cadernos e pastas nos quais ela trabalhou têm mais notas de trabalho do que escritos pessoais.
ARTISTA TORTURADO
"Eles são claramente projetos em andamento e não um receptáculo de confissões", disse Grau à Reuters na terça-feira.
"Esses cadernos têm um mérito intrínseco e um valor como documentos de um ícone de nossa época, um músico de influência tremenda, e são também a documentação de um artista brilhante, criativo e torturado."
O livro reproduz, sem muitas anotações nem comentários editoriais, os rascunhos escritos à mão de Cobain. Grau disse que Love não participou do processo de edição, e que nada substancial foi vetado no produto final.
"Journals" inclui versões para a letra da canção mais conhecida da banda, "Smells Like Teen Spirit", assim como de "In Bloom", "Lithium" e "Rape Me".
Em um esboço para o vídeo de "Rape Me", Cobain sugere que se use imagens de uma penitenciária com "criminosos de cara feia". No final, a banda optou por um conceito diferente. Cobain também mantinha seus companheiros de banda na linha. Em uma carta de 1988, ele casualmente fala ao baterista de uma formação anterior que ele havia sido substituído "por alguém com quem a gente pode se relacionar... Vamos encarar, você é de uma cultura totalmente diferente."
LADO CÔMICO DE COBAIN
Grau disse que os diários revelam que Cobain tinha "um senso de humor fantástico" e adorava a ironia.
"Acho que ele foi ambicioso desde o início, e não uma vítima, como frequentemente é descrito", disse ela. "Ele não escondia sua ambivalência com a fama e a celebridade, mas havia também um projeto claro em sua cabeça desde o início sobre o que queria conquistar e sobre a audiência maior que queria atingir com sua música."
Cobain volta sempre ao assunto da morte, entrando em detalhes ao escrever sobre uma tentativa de se atirar na frente de um trem. Uma página tem o título: "Espero morrer antes de virar Pete Townshend", referindo à força criativa da banda inglesa The Who.
Ele também fala sobre seu consumo de heroína, que experimentou pela primeira vez em 1987 em sua casa em Aberdeen, Washington. Cobain tornou-se um usuário frequente anos depois para superar misteriosas dores de estômago que o incapacitavam por dias seguidos. Ele achava que era visto como "um perdedor que injeta no camarim segundos antes do show".
As palavras mais recentes publicadas do diário foram escritas no papel de carta do Hotel Excelsior de Roma, onde Cobain tentou se matar em março de 1994 tomando uma overdose de heroína - ele acabou cometendo suicídio em abril com um tiro.
Inspirado por uma entrevista de Sylvester Stallone na televisão, Cobain comenta irritado o sotaque "Fred Flintstone" do ator e descreve as pessoas do Estado do Alasca como "caipiras bêbados que nunca vêem a luz do sol".
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