Suicidal Tendencies: quem não gosta nunca nos ouviu

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Fonte: UOL Música
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AUGUSTO OLIVANI
ISADORA FERNANDES
Da Redação

A banda Suicidal Tendencies talvez não figure entre os nomes mais consagrados e populares da escalação do festival Claro que É Rock, que acontece nos dias 26 (SP) e 27 (RJ) de novembro. Com Iggy Pop, Sonic Youth, Nine Inch Nails e Flaming Lips na escalação, talvez o veterano grupo californiano fique em segundo plano.

Para o vocalista Mike Muir, líder do Suicidal Tendencies, a situação não incomoda. "É ótimo porque existem pessoas que irão no festival por outras bandas e nós faremos de tudo para que saiam com a impressão de que somos diferentes das demais", declarou em entrevista ao UOL. "Algumas delas chegarão em casa pensando "Cara, Suicidal... SUICIDAL! O que é esta banda?"

O Suicidal Tendencies iniciou sua carreira de forma polêmica no início dos anos 80, enfrentando dificuldades para lançar o primeiro disco e conseguir shows mesmo em um estado liberal como a Califórnia. A banda inverteu a situação logo, conquistando um público cativo nos mais variados nichos, de surfistas e skatistas passando por punks e metaleiros. Hoje, 22 anos depois do lançamento do primeiro disco, Mike Muir e seus companheiros já viram uma nova geração de fãs se formarem depois de álbuns clássicos como "Join the Army" e "Lights, Camera... Revolution!".

Na entrevista, o vocalista Mike Muir fala da expectativa de tocar novamente aqui, da motivação que fez com que a banda seguisse firme até hoje e também da catástrofe que atingiu Nova Orleans.

UOL: Vocês tocaram no Brasil junto com os também californianos do Slayer, em 1994 (N.R.: festival Monsters of Rock), e retornaram em 1997. Já se foram oito anos desde que estiveram por aqui na última vez. O que você acha desta possibilidade?

Mike Muir: Estou ansioso. Começamos a fazer entrevistas e a ansiedade tomou conta, o rumor de que iríamos voltar se espalhou, começamos a receber e-mails de fãs brasileiros pedindo para dizermos que era verdade. Pessoas que não puderam nos ver nos dois primeiros shows que fizemos em São Paulo finalmente terão essa oportunidade - gente que tem só 16 anos e na época dos shows era criança. E os mais velhos dizem que levarão os irmãos e os primos juntos, para mostrar a eles porque gostam tanto do Suicidal. E tem também as pessoas que irão no festival por outras bandas, que nunca ouviram uma música do Suicidal Tendencies em suas vidas. Nós faremos de tudo para que saiam com a impressão de que somos diferentes das demais. Gostamos de dizer que aqueles que não gostam de Suicidal é porque nunca ouviram nossa música. Algumas dessas pessoas chegarão em casa pensando "Cara, Suicidal... SUICIDAL! O que é esta banda?" (ri). Nós já fizemos isso em todo o mundo, em diversos festivais e nas mais variadas escalações.

UOL: Vocês imaginavem ter uma larga base de fãs por aqui?

Mike Muir: Sim, somos sortudos porque por Venice passam muitos surfistas e skatistas do mundo todo, inclusive brasileiros. Eles sempre nos incentivaram a ir ao Brasil, assim como sempre os incentivamos a voltar à Califórnia. Conhecemos gente que não conheceríamos de outra forma e gostamos de estreitar esses laços. Quem vem a Venice sem conhecer ninguém acaba indo aos lugares comuns que turistas frequentam. Mas se estão conosco, os levamos até lugares que não estão no mapa. O mesmo aconteceu com a gente no Brasil. Por ocasião do festival em que tocaremos, iremos reencontrar amigos, o que faz com que nos sintamos ótimos. Não que eu vá falar português, mas acredito que existe uma conexão entre nós e o Brasil, o que é o mais importante.

UOL: Já se vão mais de 20 anos desde que começaram a banda. Como é ver toda uma nova geração de fãs nascer?

Mike Muir: É uma experiência ótima. Quando começamos, dizíamos que não queríamos fazer sempre a mesma coisa. Em uma das primeiras entrevistas que demos, para um fanzine punk da nossa região, perguntaram o que achávamos que estaríamos fazendo em cinco anos. A resposta foi: "Eu não "acho", eu tenho certeza que estarei na banda daqui cinco anos. E se estiver, sentirei orgulho por tudo que terei feito até lá." A pergunta que se seguiu foi: "E quando irão parar?". Essa foi fácil: "Quando se tornar um trabalho". Essa é a abordagem que sempre tivemos e acho que é por isso que continuamos uma banda. Aqueles que entraram depois perceberam isso. É como uma família, os fãs sentem que existe uma diversidade: membros de diferentes nacionalidades, abrangência musical. As pessoas começaram a se identificar com isso, a perceber que nós não estamos tentando nos encaixar, mas sim nos destacar. A vida é isso, não é tentar ser melhor que as outras pessoas, mas não deixar que ninguém te olhe de cima para baixo. Você tem a responsabilidade de ser uma pessoa melhor do que aquelas que fazem isso.

UOL: Você falou sobre a diversidade na banda. Qual a influência das comunidades latina e negra no Suicidal Tendencies?

Mike Muir: Nossos baterista (Ron Brunner Jr.) e baixista (Steve Brunner) são irmãos e mais jovens que o resto da banda em três ou quatro anos. Quando tinham 16 anos, seus irmãos tocavam com o Snoop Dogg. O pai deles tocava na banda Tower of Power (N.R.: banda de soul/funk). A família viajava por New Orleans sempre, ou seja, eles têm uma bagagem musical totalmente diferente da nossa. O guitarrista Mike Clark veio de uma banda chamada No Mercy, que tem um disco em que eu até cantei, uma coisa mais surfista, hardcore skate e punk rock. Todos que fazem parte da banda vieram de partes diferentes e trouxeram junto aquilo que já faziam. Se alguém novo tenta se encaixar em uma determinada imagem do Suicidal, nós dizemos "Esqueça isso e faça o que você sabe, mas faça melhor". Assim como nós nunca tentamos nos encaixar, dizendo que somos do skate, do surf, do punk, do metal, disso e daquilo. É por isso que continuamos sendo uma banda, é por isso que o Suicidal Tendencies ainda é válido e é por isso que iremos até o Brasil para tocar neste festival.

UOL: É por esses motivos que vocês não têm problemas em encaixar novos membros no Suicidal Tendencies no lugar de outros, como no caso do baixista Robert Trujillo (que hoje está no Metallica)?

Mike Muir: Quando fizemos o show no dia seguinte à saída de Robert, seu primo, que vai a todos os nossos shows, veio todo triste dizer que o Trujillo tinha ido para outra banda... Depois do show, ele disse: "Cara, o novo baixista destrói o Robert!" (ri). Estamos em outro nível agora. Há a música e também toda uma atitude, um propósito, e isso é algo que nunca perdemos. Não importa se nosso ex-baixista está no Metallica, se nosso antigo baterista toca no Jane's Addiction e hoje com o Sting: enquanto nos mantivermos em comunicação com o público e eles respondendo à nossa música, continuaremos tocando.

UOL: A banda enfrentou muitos problemas no passado, por conta do nome, por exemplo, e vocês conseguiram sobrepô-los. Você acredita que a partir de certo momento a força do Suicidal Tendencies superou o conservadorismo do senso comum e os detratores da banda simplesmente tiveram que engoli-los?

Mike Muir: As maiores batalhas pelas quais já passamos são aquelas que você não vê no noticiário. Você pode ver as armas e os tanques, mas as decisões que levam a tudo isso nunca serão mostradas. Muitas vezes, quando enfrentamos obstáculos, em vez de fazermos uma coletiva de imprensa para alardear, preferimos identificar o problema e pensar em como passar por ele. Fazer isso com dignidade e respeito em relação ao nosso público e não ao senso comum. Tivemos muitos problemas, e quando novos managers nos ouvem falar sobre eles, perguntam porque não arrumamos na época um assessor de imprensa ou uma produtora de eventos, dizem que poderíamos conseguir US$ 1 milhão só com essa publicidade gratuita. Eu respondo: "Porque eu não quero US$ 1 milhão, nem publicidade gratuita". Eu quero promover mudanças, não quero ser uma vítima.

UOL: Em algumas entrevistas você mencionou que a banda teve problemas de racismo quando tocou no sul dos Estados Unidos. Para você o que aconteceu em Nova Orleans, como a resposta lenta do governo para resgatar os desabrigados, também está relacionado ao racismo?

Mike Muir: Depois do 11 de setembro, todas as forças emergenciais estavam à espera de um novo ataque terrorista, para que não fossem novamente pegos de surpresa. Tornou-se uma questão política. Neste caso, o que se abateu sobre os EUA foi um desastre natural, que tem um espectro todo diferente de questões. Alguns dizem que aconteceu em Nova Orleans porque lá se concentram os pecadores, mas acredito que Deus não age dessa maneira. Três dias antes da tragédia ninguém acreditava que seria algo tão grande assim. Mesmo com toda a tecnologia, nós continuamos limitados no sentido do conhecimento. Muitos dos que ficaram na cidade é porque não tinham sequer outra opção e outros porque não acreditavam que seria tão mau. Quando o 11 de setembro aconteceu, por exemplo, o prefeito Rudolph Giulianni tomou uma posição de imediato, forçada, e Giulianni é alguém fácil de não se gostar - mas ele soube como agir. Neste caso de Nova Orleans, você tem o governador de Louisianna que não fez nada sobre o assunto, o prefeito que também não fez nada, todos queriam apontar os dedos uns para os outros, fazer politicagem em vez de fazer algo pelas pessoas que necessitavam de ajuda. A maior verdade que ouvi nessa situação veio do chefe de polícia de Nova Orleans, que foi criticado por não tomar certas medidas. Ele respondeu: "sim, nós temos a estrutura, nós temos o equipamento, mas está tudo cinco metros debaixo d'água!" Você nunca está preparado para algo que nunca aconteceu. Quando uma tragédia assim acontece e tudo fica tão caótico, é fácil culpar tudo e todos. A única coisa que faço é lamentar. A ironia é que, com toda a situação racial da região, a tragédia colocou todos em pé de igualdade, e ainda coloca, ou seja, é uma chance para repensarem a situação e tentarem fazer dali um lugar melhor.


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