Engenheiros do Hawaii: o porquê do hiato do grupo
Por André Nascimento
Fonte: Folha Online
Postado em 17 de dezembro de 2009
No site da Folha Online há um novo trecho do livro "Pra Ser Sincero - 123 Variações do Mesmo Tema", onde Humberto Gessinger relata sobre os dois últimos anos da pausa dos ENGENHEIROS DO HAWAII e os motivos que o levaram a tomar esta decisão. O trecho segue abaixo.
2007... Chegava a hora do velho disco novo, Novos Horizontes, lançado em CD e DVD. Foi gravado ao vivo no mesmo local onde gravamos o 10.000 Destinos. Quase todas as turnês passaram por essa tradicional casa de shows de São Paulo. Ela já teve vários nomes, os últimos vinculados a patrocinadores. Boa sensação estranha de sobreviver aos nomes. O disco aprofundava a viagem iniciada no Acústico MTV. A principal diferença, além da viola caipira, era o número maior de músicas inéditas: oito. Gravar ao vivo passou a ser fundamental para mim. Quanto mais cosméticos a tecnologia de estúdio oferece, mais me fascina o que só acontece uma vez, numa noite, em frente a algumas pessoas.
A diferença entre músicas inéditas e regravações foi ficando cada vez mais irrelevante para mim. Boa sensação estranha de que tudo se misturava e construía uma única infinita canção. Esses são os novos horizontes: livres, desformatados. na falta de algo melhor nunca me faltou coragem na falta do que fazer inventei a minha liberdade As mesmas participações do disco anterior, Carlos e Clara, reforçavam os nós na tapeçaria, os elos na corrente.
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Maltz inseriu um rap em Cinza, uma música que eu havia lhe enviado. Mandou bem. Clara cantou A Onda e Parabólica, música que escrevi para ela e em cujo clip ela apareceu, antes de completar um ano de vida. Em poucos minutos, cantando com minha filha, aprendi mais sobre o ciclo da vida do que aprenderia lendo todas as bibliotecas do mundo. No palco, com os "de fé", boa sensação estranha de que tudo se mistura e constrói uma única infinita família.
Tudo as 123 mil maravilhas. Exceto numa questão de logística: imperava o caos aéreo no país, transformando num inferno a vida de quem voava todo fim de semana. Que saudade dos tempos em que eu saía de manhã, de Porto Alegre, para tocar em Manaus, à noite, sem receio de perder a hora. Já não era só a neblina do inverno porto-alegrense que parava tudo e entupia o saguão do Aeroporto Salgado Filho. O sistema colapsou. Envelheci dez anos ou mais nesses meses.
2008... Resolvi dar um tempo nos Engenheiros do Hawaii. Voltei ao baixo para os últimos shows. Querem que eu pinte um quadro geral? Não dá. Só vejo pontos. O caos aéreo, a rotina em que tudo se transforma, a satisfação de ter feito os discos e shows que queria fazer Isso mesmo, a insatisfação pode ser um combustível que a felicidade não é. As duas últimas turnês foram as mais bemsucedidas da história da banda. Os discos dessa última fase, dois no gerúndio e dois acústicos ao vivo, me satisfizeram completamente.
Resolvi parar por tempo indeterminado. Ok, também odeio a expressão "tempo indeterminado". Mas ela pode ser uma definição interessante da vida. Talvez, quando tu estiveres lendo, eu já tenha voltado, talvez não volte nunca mais. Não é nada tão dramático, é a vida. O último show (dessa fase?) foi no Crato, A Princesa do Cariri, no Ceará. Na última música do último bis, desajeitadamente, improvisei uma versão: só deixo o meu cariri no último pau-de-arara.
pode ser pra sempre, pode não ser mais
pode ter certeza e voltar atrás
pode correr risco, arriscado sempre é
só não pode o medo te paralisar
No início de 2007, quando recebi uma homenagem no Prêmio Açorianos, em Porto Alegre, convidei Duca Leindecker para tocar umas canções comigo. Desde então, vez por outra, falávamos em fazer alguma coisa juntos. Por coincidência, Duca também estava dando um tempo na sua banda, Cidadão Quem. A hora havia chegado. 123 bandas podem se considerar "a maior banda do rock gaúcho". Nós criamos o duo Pouca Vogal para ser "a menor banda do rock gaúcho". Escrevemos algumas músicas e as colocamos no site www.poucavogal.com.br para download gratuito. Boa sensação estranha de sobreviver à indústria fonográfica.
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