Amorphis: "Trocas de integrantes sempre causam impacto", diz tecladista
Por Homero Pivotto Jr.
Fonte: Assessoria de imprensa
Postado em 29 de março de 2019
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O tempo opera mudanças. Na vida, na arte ou em qualquer esfera. E os finlandeses do Amorphis — que começaram em 1990 apostando no death metal e agregaram elementos do folk e do progressivo no decorrer da carreira — entendem o peso que o passar dos anos exerce. Não à toa nominaram o disco mais recente como Queen of Time (Rainha do Tempo, 2018). O grupo faz sua estreia em Porto Alegre com a turnê desse álbum, mas sem esquecer-se de composições que marcaram época entre admiradores. O show ocorre como parte da programação cultural do Inked Art Tattoo Fest, em 13 de abril, sábado, às 20h30min, no Centro de Eventos da FIERGS.
Com uma discografia de 13 registros em estúdio e mudanças consideráveis na formação, o Amorphis soube aproveitar cada fase de sua trajetória. É por essa, entre outras razões, que continua relevante hoje em dia. Na entrevista a seguir, o tecladista Santeri Kallio (que acompanha o conjunto desde 1998) avalia o passado, faz reflexões sobre o presente e previsões para o futuro.
É curioso como há uma grande quantidade de bandas de rock na Escandinávia. Tem do clássico ao black metal, passando pelo death metal, hardcore e outros estilos extremos. Como você é da Finlândia, gostaria de perguntar especificamente sobre o seu país: por que acha que há tantos grupos finlandeses interessantes fazendo boa música?
Santeri Kallio — Bem, a Escandinávia é um lugar muito escuro e depressivo, se você excluir uns dois ou três meses de verão que começam a partir de junho. É por isso que a área é mais categorizada como local de hard rock / metal em vez de dub, disco ou reggae. As atmosferas de metal pesado se encaixam bem para nós. No inverno, praticamente, não há sol. Também existe uma mentalidade clássica dos povos nórdicos. A estética suave e ao mesmo tempo agressiva do metal pesado se encaixa muito bem para quem vive na Escandinávia.
O Amorphis começou predominantemente death metal. Mas conforme o tempo foi passando, elementos de outro estilo ganharam espaço na musicalidade da banda. Por que isso aconteceu? Foi natural ou uma decisão proposital?
Santeri Kallio — Ambos. Precisávamos nos desenvolver como músicos e encontrar novas abordagens para o death metal. O envelhecimento também afetou a banda. O primeiro álbum foi feito quando os caras eram realmente muito jovens. Quando se está na casa dos vinte, seus ídolos musicais começam a mudar e você começa a explorar mais suas possibilidades como músico. Além disso, as mudanças na formação foram uma grande razão pela qual a música do Amorphis mudou tão rapidamente. O vocalista foi alterado algumas vezes, além da troca de baterista.
As mudanças na formação tiveram algum impacto na identidade musical de Amorphis? De que maneira?
Santeri Kallio — As trocas de integrantes sempre causam impacto. É apenas uma questão de qual perspectiva você estará procurando. Mudança de baterista afeta no arranjo e no groove, a mudança de vocalista também é grande, pois altera o tom do instrumento mais importante: a voz. Também muda normalmente a imagem inteira das bandas. No entanto, as mudanças na formação — se a banda não é uma ditadura — sempre têm um grande efeito sobre as composições. Portanto, a opinião de cada pessoa conta pelo menos um pouco. Por exemplo: o Amorphis é uma banda bastante democrática, então a mudança de integrantes altera a direção musical. Qualquer um pode ouvir a diferença de Tales from the Thousand Lakes (1994) e do Elegy (1996) em questões de arranjo, quando o baterista e o tecladista mudaram. Ou até mesmo a maior mudança com Elegy e Tuonela (1999), quando Pasi assumiu os vocais. Meu exemplo pessoal favorito sobre como as mudanças se deram em nossa música é a transição de Far From the Sun (2003) para Eclipse (2006). Foi quando Tomi Joutsen (voz) entrou e começamos a fazer heavy metal novamente em vez de testes psicodélicos de space rock.
Quão importante você acredita que é saber envelhecer, na música e na vida?
Santeri Kallio — Bem, em nossa profissão não há muito tempo para pensar ou planejar sobre como envelhecer. As principais mudanças na vida, como o nascimento do primeiro filho ou mortes dentro da família, sempre causam transformação e, normalmente, tornam você uma pessoa mais sábia. Pelo menos esses acontecimentos dão uma compreensão mais ampla sobre o que é a vida. Eu nunca planejei nada, exceto tentei ficar longe de problemas e também quis colocar o máximo de esforço nas bandas em que estive. Geralmente, ficar mais velho não é realmente divertido. Mas você precisa lidar com isso de alguma forma e tentar não se estressar.
Considerando que o Amorphis está na ativa há quase três décadas, o que é melhor e o que é pior hoje em dia na indústria da música?
Santeri Kallio — Difícil dizer no momento. A indústria está na encruzilhada. A digitalização mudou tudo em termos de negócios e de produção. Hoje em dia, as bandas precisam se esforçar muito mais em turnês e autopromoção. As gravadoras basicamente se foram, exceto as majors que naturalmente mandam no mercado. E a dominação muitas vezes é igual ao poder para decidir sobre tudo. Claro que, quando as bandas ficam maiores, mais independência e suporte elas recebem. Pessoalmente, estou feliz que o Amorphis já tenha se estabelecido antes dessa mudança na indústria. Para novos artistas deve ser muito mais difícil viver de música. Você tem que vender tudo o que pode para conseguir um contrato com a gravadora. Talvez eu esteja errado nisso, espero mesmo estar.
Vocês têm 13 álbuns de estúdio. Se tivesse que listar três lançamentos inovadores da carreira, quais seriam e por quê?
Santeri Kallio — Tales from the Thousand Lakes (1994): Verdadeiro clássico em todo o gênero que representa. Muito bem montado, sem besteira incluída. Sofisticado, brutal e primitivo ao mesmo tempo. A maioria das músicas é lendária.
Skyforger (2009): terceiro álbum desde que Tomi Joutsen apareceu. A direção musical que reinventamos com Eclipse (2006) atinge o pico com esse lançamento. Não há músicas ruins nesse disco. Muito boa mistura de heavy metal, hard rock e elementos étnicos.
Queen of Time (2018): décimo terceiro trabalho de estúdio em nossa carreira. Um disco forte de metal. Soa como nada mais. Música e produção são muito boas, e a banda está na melhor forma. É superpesado, cheio de beleza, e novo ao mesmo tempo. Talvez seja cedo demais para analisar isso, o tempo dirá, mas vou apostar que é atemporal.
O Amorphis recentemente anunciou que vai tocar Queen of Time na íntegra em shows selecionados na Finlândia. E para apresentações fora de sua terra natal, como no nosso caso é o Brasil, qual previsão de repertório?
Santeri Kallio — Só com as melhores. Músicas do Queen of Time sem esquecer as raízes. Esperamos ainda colocar pelo menos algumas composições dos primeiros anos da nossa carreira.
O show em Porto Alegre será em uma convenção de tatuagem. Você consegue ver um paralelo ou fazer conexões entre a música do Amorphis e a técnica milenar de desenhar na pele?
Santeri Kallio — Esa (guitarra) e Tomi J. (voz) estão cheios de tatuagens desde os anos 90. Há alguns anos Koivusaari (guitarra) e Jan (baterista) aderiram a esse hobby também. Nos vejo encaixando perfeitamente nesse tipo de evento. Ao longo dos anos, tenho visto dezenas de grandes desenhos inspirados por nossa música na pele dos fãs. Também alguns autógrafos tatuados (haha). Quem não gosta de tatuagens? Eu ainda estou sem, mas nunca diga nunca!
Para terminar: vivemos tempos em que os seres humanos parecem ser cada vez mais mecanizados. O quão importante é a arte como elemento inspirador e que faz as pessoas pensarem não tão conscientemente? Quero dizer, quando você ouve música, lê um livro ou olha para uma pintura, pode deixar que sua mente simplesmente flua — algo cada vez mais incomum no mundo de hoje.
Santeri Kallio — Eu sou tão velho que vivi antes de os computadores domésticos dominarem. Então, é muito fácil para eu falar sobre a importância de não olhar para o seu telefone 24 horas por dia, seja vendo notícias falsas ou conteúdo comercial. Vá ler um livro clássico, quadrinhos, tocar música, ouvir música ou algo que seja possível de socializar com seus amigos em vez de colocar todo o esforço nas redes sociais. Mais fácil falar do que fazer. No futuro, provavelmente teremos alguns fios na cabeça conectados à nuvem comercial. Então, as corporações vão poder enviar a você algumas ideias estranhas, como qual cor de calça comprar, por exemplo. Com certeza as mídias sociais são a nova plataforma para anunciar sua arte, mas eu prefiro outras maneiras.
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