Andre Matos: a voz que orgulhava um país que não a merecia
Por Victor de Andrade Lopes
Fonte: Sinfonia de Ideias
Postado em 18 de junho de 2019
O segundo sábado de junho de 2019 reservou uma desagradável surpresa para a comunidade heavy metal: a morte do cantor e pianista Andre Coelho Matos, mais conhecido pelo primeiro e último nomes. As notícias sempre o resumirão como "ex-vocalista do Angra", mas nós todos sabemos que ele foi muito mais do que isso.
Andre era uma referência no metal internacional, e isso ficou óbvio pela quantidade de músicos e bandas das mais diversas vertentes do heavy metal e dos mais diversos países que manifestaram pesar pela sua morte. Todos unânimes em reconhecer seu talento, seu profissionalismo e sua relevância.
Pioneirismo, Iron Maiden e múltiplas bandas
Ainda adolescente, Andre Matos fundou o Viper, um dos grupos mais importantes do metal nacional. Dois álbuns e alguns anos depois, conforme a banda se aventurava no thrash metal, ele foi se aventurar em música clássica e conquistou uma graduação no ramo. No início dos anos 1990, formou o Angra, que viria a ser a segunda banda mais relevante do heavy metal brasileiro, e pôde dar vazão simultânea aos dois gêneros musicais aparentemente antagônicos que ele tanto apreciava.
Poucas pessoas percebem, mas a mistura de heavy metal com música erudita que o Angra fazia já em sua estreia, Angels Cry (1993), ainda podia ser considerada revolucionária para a época, e certamente ninguém esperava que uma banda fora da Europa empreendesse isso. Mas o Angra o fez - e não recebe o devido crédito por seu pioneirismo, devo adicionar.
Já com o disco seguinte, o Angra lançou um grande clássico: Holy Land (1996), em que o heavy metal colidia não apenas com o erudito, mas também com a própria música brasileira. Novamente, temos aqui Andre Matos em cada nota musical. O único grande defeito do álbum foi ter sido lançado pouco depois de Roots, a revolucionária joia musical com a qual o Sepultura abalou as estruturas do thrash metal e eclipsou totalmente o trabalho do grupo paulista.
Do Brasil para o outro lado do Atlântico agora. Quando Bruce Dickinson deixou o Iron Maiden em 1993, Andre foi um dos mais cotados para substituí-lo. Na verdade, ele só não entrou por ser latino-americano. O então quarteto britânico optou pelo conterrâneo Blaze Bayley, com quem ficariam por meia década. De qualquer forma, fica o exemplo do quanto Andre já era consagrado fora do Brasil em tão pouco tempo de carreira. Isso mais de 20 anos antes de Kiko Loureiro entrar para o Megadeth e deixar toda a comunidade headbanger nacional cheia de orgulho - gostando dele ou não.
As aventuras musicais no Angra renderam apenas mais um lançamento: Fireworks (1998). Conflitos com outros membros e principalmente com o empresário da banda levaram o cantor a largar o grupo e ainda levar junto o baixista Luis Mariutti e o baterista Ricardo Confessori, com quem ele formou o Shaman - outra banda de grande relevância no metal nacional. Sua história no grupo rendeu dois álbuns, sendo o primeiro deles (Ritual, 2002) quase tão fora da caixa quanto Angels Cry foi.
Foi nessa época também que ele iniciou sua participação no Avantasia, metal opera encabeçada pelo amigo Tobias Sammet, do Edguy. Andre deixou sua marca em algumas faixas de The Metal Opera I e II (os dois primeiros álbuns do projeto) e depois apareceu em apenas mais uma música: "Blizzard on a Broken Mirror", do The Wicked Symphony (2010). Por outro lado, ele fez diversas aparições ao vivo com o projeto. Um de seus últimos shows foi justamente na etapa brasileira da turnê do Moonglow (2019), poucos dias antes de sua morte.
Com seu falecimento, apaga-se também o sonho de um dia vê-lo no Ayreon, outra grande metal opera, cujo líder (Arjen Anthony Lucassen) já havia declarado que tanto ele quanto Edu Falaschi (seu sucessor no Angra) estavam na "wish list" de vocalistas para o projeto - juntamente a centenas de outros nomes.
Outras parcerias notórias incluem "Prince with a 1000 Enemies", em Rabbits' Hill, Pt. 1 (2012), do Trick or Treat, grata surpresa do power metal italiano na última década; e sua participação no coral de Consign to Oblivion (2005), do Epica.
No início de sua última década de vida, Andre formou com Timo Tolkki (ex-Stratovarius) o Symfonia, supergrupo de power metal que contava ainda com Mikko Härkin, Jari Kainulainen e Uli Kusch. O que era para ser um álbum estupendo acabou sendo um lançamento genérico que não agradou a crítica e empolgou apenas um punhado de fãs mais apaixonados. A banda encerrou suas atividades em cerca de um ano após mais um surto do instável Timo.
Como artista solo, Andre lançou três discos. Apesar da qualidade da banda de apoio e de faixas memoráveis como "How Long (Unleashed Away)" e "Endeavour", sua carreira solo nunca realmente alcançou o mesmo nível de relevância e sucesso que sua história em outras bandas, mas não deixa de ser parada obrigatória para quem quer conhecer a obra dessa lenda.
Vegetariano, corintiano, discreto... ignorado
Andre era vegano convicto e falava orgulhosamente de sua opção de vida, que o levou a um calendário especial ilustrado com imagens de outras personalidades veganas ao lado de animais.
Uma qualidade ainda maior sua é a de corintiano. Quando o Timão foi em busca do bicampeonato mundial em 2012, Andre foi flagrado cantando uma versão em japonês do hino do clube paulistano. Certos privilégios, só quem faz parte do bando de loucos tem.
Andre era um sujeito discreto e, logicamente, seu velório foi reservado, longe das lentes das câmeras e do assédio dos fãs. Seus parentes demoraram a falar com a imprensa sobre sua morte e só o fizeram em consideração aos fãs. Pouco se sabia de sua família, exceto que ele tinha um filho na Suécia.
Apesar disso, fiquei surpreso negativamente que o Jornal Nacional, telejornal mais assistido do Brasil, não se dignou a sequer mencioná-lo na edição do dia de sua morte. Não que eu esperasse cobertura ao vivo do funeral, uma longa reportagem biográfica ou algum outro privilégio normalmente reservado apenas aos enlatados promovidos pela emissora.
Mas simplesmente ignorar a morte de um músico tão reconhecido lá fora pode não ser mero desdém pela cultura não-hegemônica. É talvez sintoma de algo mais grave, como o repertório cultural deficiente dos novos jornalistas. Quer dizer, muitos naquela redação talvez nem soubessem quem Andre Matos era, ou talvez não tivessem discernimento suficiente para determinar a importância de noticiar sua morte.
A maneira fria ou meramente nula com que a morte de Andre Matos foi recebida pela imprensa em geral, bem como o fato de sua música ser negligenciada em favor das bobajadas costumazes, são motivos mais que suficientes para dizermos que ele era um talento que o Brasil não merecia - como tantos outros, de tantas áreas diferentes. Mesmo cantando quase sempre em inglês, Andre contribuiu mais para a cultura brasileira (dentro e fora daqui) do que mil desses nomes efêmeros que poluem as rádios.
E só para justificar o "quase" usado no parágrafo anterior, encerremos este post com um registro dele cantando em português:
Morte de Andre Matos
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