Raul Seixas e Paulo Coelho: polêmicas sobre prisão e tortura durante a ditadura
Por Igor Miranda
Fonte: Folha de S. Paulo
Postado em 23 de outubro de 2019
"Raul Seixas - Não Diga que a Canção está Perdida" (Todavia), livro escrito por Jotabê Medeiros sobre a vida do cantor Raul Seixas, será lançado no próximo dia 1° de novembro, mas já está causando polêmica. A obra cita a suspeita de que o artista teria entregue o escritor Paulo Coelho, parceiro de composições, à ditadura militar, conforme apontado pelo jornal "Folha de S. Paulo".
O livro escrito por Jotabê Medeiros aponta que a situação aconteceu em 1974, um ano após Raul Seixas lançar o bem-sucedido álbum "Krig-ha, Bandolo!" (1973), que conta com colaborações de Paulo Coelho.
De acordo com a obra, Raul Seixas foi intimado a dar um depoimento no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e chamou Paulo Coelho para acompanhá-lo. A ideia era que os dois prestassem esclarecimentos sobre as músicas que fizeram juntos.
Porém, não era a primeira vez que Raul Seixas visitava o Dops. Segundo o biógrafo, a distância entre as datas das duas visitas era bem pequena.
Raul Seixas ficou no local por meia hora e voltou "tentando dar algum recado cifrado ao amigo, que o esperava". A reportagem da "Folha" aponta que, segundo o livro, Paulo Coelho acabou não entendendo a mensagem e foi ao interrogatório, que "incluiu perguntas sobre o livreto que acompanha o disco 'Krig-ha, Bandolo!' e a Sociedade Alternativa cantada por Raul".
Paulo Coelho acabou detido na ocasião. A polícia prendeu, ainda, a namorada do escritor, Adalgisa Rios. "No dia seguinte, quando liberado, Coelho pegou um táxi com Raul, mas foi capturado novamente e levado para um lugar desconhecido, onde sofreu torturas por duas semanas", afirma a reportagem.
A situação sempre foi tratada como suspeita, já que os documentos oficiais são inconclusivos. Os papéis dizem que seria possível chegar a Paulo e Adalgisa "por intermédio do referido cantor" (Raul Seixas). Alguém, de fato, "dedurou" o casal, mas não se sabe se foi o "Maluco Beleza".
Raul evitou contato com Paulo por um ano, mas eles se reaproximaram e trabalharam em outras músicas juntos entre 1975 e 1978. O afastamento definitivo aconteceu após a entrada de ambos para a seita do sacerdote Marcelo Motta, influenciada por Aleister Crowley.
Embora o mergulho aos ideais ocultistas tenha gerado clássicos como "Tente Outra Vez", Paulo Coelho entrou em conflito com Raul Seixas porque o cantor "mergulhou fundo demais naquele ideário", segundo Jotabê Medeiros à "Folha".
Leia a reportagem completa sobre o caso no site do jornal "Folha de S. Paulo".
Paulo Coelho se manifesta
Pelo Twitter, Paulo Coelho se manifestou brevemente sobre a reportagem. "Fiquei quieto por 45 anos. Achei que levava segredo para o túmulo", afirmou. Em outra mensagem, declarou: "Não confirmei e não confirmo nada. Eu apenas vi o documento e me senti abandonado na época. Por isso que não quis dar entrevista".
"O cara perigoso era o letrista"
Durante entrevista concedida à "BBC Brasil" em setembro, Paulo Coelho relembrou a prisão e a tortura que sofreu em 1974, sem mencionar que teria sido "dedurado" por Raul Seixas. "Os militares não entendiam as minhas músicas. Eles diziam 'Quem são esses caras aí? Raul Seixas e Paulo Coelho. Alguma coisa está errada porque a gente não entende o que eles estão falando'. Então, chamaram o Raul para depor. O Raul era o cantor. Como diz o Elton John, 'Don't Shoot Me, I'm Only the Piano Player' (Não atire em mim, eu sou apenas o pianista). Mas a eminência parda, o cara perigoso, o ideólogo era o letrista. Então eles me prenderam. Agora, tem que justificar uma prisão. Não acharam nada", afirmou.
Ele completou: "Quando eu estava preso oficialmente, fichado, com impressão digital, meus pais conseguiram mandar um advogado. Aí, me soltaram no mesmo dia e me sequestraram em frente ao aterro do Flamengo. Me arrancaram do táxi, me jogaram na grama, me botaram a arma. Eu estava entregue. Aí eu fui torturado, apanhei, essas coisas todas."
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