Kiko Loureiro: "Músico não aguenta um mês de namoro e acha que vai ter banda 5 anos?"
Por Emanuel Seagal
Postado em 15 de julho de 2021
O guitarrista Kiko Loureiro (Megadeth, ex-Angra) participou de um bate-papo com Marcelo Emerson, no Metal Musikast, do Diário de São Paulo, onde falou sobre seu livro "Negócios Para Criativos", o início do Angra, sua entrada no Megadeth e também a falta de profissionalismo que ele via no Brasil se comparado a outros países onde o Angra se apresentou. Confira alguns trechos transcritos pelo Whiplash.Net.
Ao ser questionado se ele já foi visto como arrogante ou soberbo.
"A gente viajava pra fora, Europa, Japão, e via como as coisas funcionavam, e aí voltava pro Brasil pra fazer a mesma coisa, os shows e tal, e eu tinha uma coisa meio 'por que esses caras não tem o mesmo nível que eu vejo na Europa' e aí você começa a falar 'por que o negócio não tá na hora', 'por que ele não se preocupou com um negócio mínimo como colocar uma barricada pro povo não se matar lá na frente' e aí o cara 'pô, o cara é mó metido'.
A gente já era meio nerd, o Angra numa forma geral, e vivia um profissionalismo fora que a gente queria que tivesse no Brasil. Em outros estilos até tem um profissionalismo maior mas no heavy metal não tinha. Você tinha que ajudar a fazer a coisa acontecer, e foi melhorando, mas ainda é, em comparação com o que vivo hoje, chega até a ser ridículo, pois você vê como os caras funcionam. Um show do Megadeth, vai ter a turnê agora com o Lamb of God. Aquelas carretas de caminhão, eles montam um palco do zero numa arena, do zero, e todo dia começa as 9 da noite o show. Se atrasar cinco minutos um cara avisa uma hora antes 'hoje vai ser as 9:05', o cara monta do zero, o negócio funciona. Não é difícil, aliás, é difícil fazer, mas são coisas normais, como começar a montar as dez da manhã e começar as dez da manhã e não as onze. Se falar que vai levar um equipamento, levar o equipamento. Colocar a folha com os horários em tudo que é lugar, e tem um cara checando se tá fazendo o negócio, pois o público vai entrar naquela hora, e também porque tem que fechar a 1h a casa. Ninguém tá pagando hora extra, já no Brasil o cara fica trabalhando uma hora a mais e tal."
Se ele enxerga a possibilidade do underground ser sustentável.
"Sempre vi. Acho que hoje é muito mais fácil. O Angra quando começou, não tinha Internet, tinha uma banda aqui e ali fazendo. Bandas fantásticas, Korzus, Salário Mínimo, Abutres, Sepultura, Azul Limão, Sarcófago. Quando teve o Rock In Rio em 1985, quando teve o AC/DC em 1996, quando tinha shows de heavy metal, Iron Maiden, teve um do Metallica em 1989 que eu fui, lotado. Todos esses locais lotados, e aí você fala 'tem 40.000 pessoas vendo AC/DC aqui. Por que se eu fizer uma banda legal de rock 'n roll a la AC/DC não vai ter 10% disso? Não vai ter 1% disso, 400 caras pra lotar um bar, pra curtir meu som.
Hoje em dia é a mesma coisa na Internet, só que na Internet ninguém precisa te escolher, você vai lá e faz e cresce teu público. Qualquer cara que fala que não dá, tá querendo que outros façam por ele. Sempre pensei assim, tem que fazer, só que não é todo mundo que quer fazer. Ele só vê o cara no palco, não vê tudo que o cara fez pra estar lá, ou se perguntou como faz pra entrar na porta de trás pra subir no palco, nem sabe com quem ele fala. Acha que alguém vai pegar ele, com uma mão divina e colocar ele no palco? Não. São vários conhecimentos, da música, do seu instrumento, da banda, do relacionamento entre a banda. Quantas bandas que começam e já terminam? O Angra mudou de formação, mas ficou lá, 7, 8 anos com uma formação. Pô, tem banda que não dura nem 15 dias. É difícil pra caramba. O cara não consegue namorar com a namorada que com mais de um mês já quer trocar de namorada (risos), imagina 4, 5 anos com uma banda. Você abre mão de muita coisa.
Tem que achar o equilíbrio, você tem que abrir mão de umas coisas pro outro, aí o outro vence aqui, que brigas você compra, saber que batalhas você quer brigar. Tudo isso ao longo da vida, entendendo como funciona, você chega lá, tranquilo, porque a maioria das pessoas não estão dispostas."
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