Iron Maiden: rótulo de grunge e indiferença a "Skunkworks" arrasaram Bruce
Por Mário Pescada
Postado em 12 de janeiro de 2022
Bruce Dickinson construiu uma carreira solo brilhante fora do IRON MAIDEN. Porém, por conta de "Skunkworks" (1996), ele acabou vivenciando momentos de frustações na carreira.
O disco, seu terceiro trabalho solo, foi produzido por Jack Endino (o papa do grunge, produziu MUDHONEY, SOUNDGARDEN, NIRVANA e outros), trazia um Bruce com visual diferente do que o público estava acostumado (depois de décadas, abriria mão da cabeleira) apoiado por uma banda de desconhecidos do grande público e com uma sonoridade longe do heavy metal que o fez famoso, rotulado a época como alternativo/grunge. Pronto, era a tempestade perfeita para que Bruce fosse massacrado pela mídia dita especializada, aquela mesma que o idolatrava até pouco tempo atrás, só por querer fazer algo "diferente".
Bruce nunca guardou sua insatisfação e incompreensão pela forma com que a mídia e sua própria gravadora trataram "Skunkworks" (1996). Um disco apreciado por muitos (me incluo nesse grupo), mas relegado por tantos outros fãs.
Os trechos a seguir estão no livro "Holy Smoke: IRON MAIDEN nos anos 90" (2021), segundo livro da trilogia sobre a história da colossal banda escrito por Martin Popoff que também cobre sua carreira solo. Lançado no Brasil pela Editora Denfire (o primeiro foi "Where Eagles Dare - IRON MAIDEN nos Anos 80"), Popoff resgata um Bruce que fala de grunge, conservadorismo no metal e da indiferença da mídia com "Skunkworks" (1996).
"Sim, eu sei, eu sei. Imagine por um segundo que fosse um álbum grunge. E daí?! Um disco do SOUNDGARDEN é um álbum grunge? E se eles disserem que sim, eu digo: ‘Bem, estou muito orgulhoso então, porque SOUNDGARDEN é uma banda foda’. Se as pessoas querem chamar isso de grunge, então é grunge, porra. Foi muito empolgante. Foi muito mais empolgante do que a merda que estava surgindo no final dos anos 80 (risos) com os cabelões armados de Los Angeles! Eu também não aceito que o heavy metal acabou porque tudo o que é empolgante sobre essa música grunge é a influência que ela tirou do heavy metal. Todas aquelas bandas em Seattle deram uma festança do caralho na véspera de Ano Novo, Jack (Endino) me disse, e tudo o que tocaram a noite toda foi AC/DC, THIN LIZZY, DEEP PURPLE e a porra do IRON MAIDEN.
Portanto, em algum lugar, o que envenenou todo esse clima foi a mídia. A mídia optou por jogar as pessoas umas contra as outras, em termos de fãs, e isso afeta a psicologia de alguns fãs de metal. Você sabe, não é o segredo mais bem guardado do mundo que muitos fãs de metal são bastante conservadores, musicalmente. Eles não têm a mente muito aberta para diferentes tipos de música. Tudo que você precisa fazer é ter alguém dizendo, ‘Argh, ele está negando o metal’ e todo mundo entra no embalo. É muito triste porque não deveria ser sobre rótulos e tribalismo, deveria ser sobre música. Nos anos 70, tudo girava em torno da música. Você poderia ter um álbum do MOTÖRHEAD e um álbum do FLEETWOOD MAC lado a lado na mesma prateleira de discos e não ter problemas. E ter JACO PASTORIUS convivendo com ZZ TOP, ou B.B. KING e DEEP PURPLE.
É música, não marketing. Quero dizer, um dos meus álbuns favoritos é "Blackmore’s Night" do RITCHIE BLACKMORE, um álbum acústico medieval (na hora do bate-papo de Bruce com Mattias e Henrick, Ritchie e Candice tinham acabado de lançar seu primeiro álbum, "Shadow Of The Moon"). Acontece que eu adoro esse álbum. Fiquei sabendo dele através de um monte de pessoas que eram fãs de metal que amaram o álbum, e elas gravaram fitas para mim. Conheço um alemão que também adora o disco, e ele disse que todos os seus amigos ficavam tipo, ‘Argh, Blackmore, que traidor! Está fazendo coisas com alaúdes e flautas e outras coisas’. E o que é tão triste é que quando fez aquele álbum, fez o que tocava e queria tocar por vinte anos. Pode-se ouvir isso em todas as coisas antigas do RAINBOW. Você pode ouvir em "Temple Of The King". É exatamente a mesma coisa, mas eles nunca ouviram isso. Passaram a vida inteira ouvindo os discos e nunca ouviram além de... E isso me faz... Se eu não tivesse pessoas que entendessem o que eu fiz, então ficaria tentado a meter um lança-chamas na porra do mundo inteiro. Eu pararia de fazer música.
Fiquei arrasado pelo lance de "Skunkworks", continua Bruce, referindo-se à indiferença crítica e comercial ao disco. Fiquei mal pra caralho! Eu estava prestes a dizer, ‘Esse negócio está tão podre, que simplesmente não me importo mais’. Skunkworks foi um disco que eu fiz das tripas coração para gravar e ninguém parecia dar a mínima. Não acho que alguém na gravadora realmente entendeu o que estava acontecendo, porque do contrário não estaríamos em turnê com o HELLOWEEN. Eles eram a banda totalmente errada com quem a Skunkworks (referindo-se agora à banda) fosse sair em turnê".
"Holy Smoke: IRON MAIDEN nos anos 90" (2021) tem o tradicional relato jornalístico de Popoff com juntada de entrevistas, bastidores, testemunhos de membros da banda, além de analisar, faixa a faixa, disco a disco, TODOS os lançamentos do período, de "No Prayer For The Dying" (1990) a "Virtual XI" (1998) pelo IRON MAIDEN e de "Tattooed Millionaire" (1990) a "Scream For Me Brazil" (1999) pelo lado de Bruce.
O livro pode ser pedido através do e-mail [email protected], no site da Editora Denfire ou direto nos pontos de venda indicados no site.
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