Ensaio do novo livro de Bob Dylan reflete sobre Pete Townshend e "My Generation"
Por André Garcia
Postado em 27 de outubro de 2022
Bob Dylan surgiu em 1960 na emergente cena folk novaiorquina, no Greenwich Village, interpretando clássicos do gênero. Não demorou para que ele começasse a compor as próprias músicas, e quando isso aconteceu, enfileirou hinos, como "Blowin' in the Wind", "The Times They Are A-Changin'" e "It Ain't Me Babe".
Cada vez mais dedicado a canções de protesto, o trovador americano foi aclamado como mais que um herói da contracultura — o porta-voz de sua geração. Décadas se passaram desde então, e Dylan sempre observou atentamente aos movimentos cíclicos das sucessões de gerações e seu eterno conflito.
Em 2022, o vencedor do Nobel de Literatura Bob Dylan lançou seu novo livro The Philosophy of Modern Song. Ao longo de 65 ensaios (e um poema), ele aborda temas como advogados gananciosos e a indústria do divórcio. Em um dos momentos mais voltados para a música, o autor reflete "My Generation", onde Pete Townshend, do alto de seus 20 anos, disse que a velha guarda não podia impedir sua geração e cravou: "Espero morrer antes de ficar velho".
O New York Times publicou esse trecho do livro, que pode ser encontrado abaixo traduzido pelo autor desta matéria:
"Hoje é lugar-comum assistir a um filme diretamente de seu telefone. Então, quando assisto Gloria Swanson como a estrela decadente Norma Desmond declarar 'Eu sou grande, os filmes é que encolheram', aquilo contém camadas de ironia que o roteirista/diretor Billy Wilder jamais poderia ter imaginado. Claro que quem assiste coisas no celular está mais interessado em coisas curtas e rápidas no TikTok, certamente não algo preto-e-branco com 110 minutos de duração."
"Toda geração decide o que quer manter daquelas que vieram antes, e com a mesma arrogância e autoimportância alimentada pelo ego das que vieram antes, quando elas deram seus primeiros passos. Pete Townshend nasceu em 1945, o que o coloca na primeira leva da geração baby boomer, logo depois do fim da Segunda Guerra. A geração que antecedeu Pete e o resto dos boomers é chamada de A Grande Geração — um termo totalmente desprovido de autoadulação."
"Ajuda tirar um momento para definir os termos. O que exatamente é uma geração? Atualmente, a definição popular é o período que estatisticamente a maior parte da população nascida em 30 anos está no comando do zeitgeist. Recentemente, nós entramos em uma nova fase, onde qualquer um com 22 anos em 2019 agora é da Geração Z. Enquanto as pessoas faziam piada com os millenials, eles agora são águas passadas, tão obsoletos quanto todas as outras gerações."
"Marlon Brando, como Elvis Presley, Little Richard e a primeira leva de roqueiros, ficaram em algum lugar entre a grande geração e os baby boomers — novos demais para enfrentar os nazistas, velhos demais para ir ao Woodstock. Ainda assim, Brando ao responder "Whaddya got?" quando uma garota perguntou contra o que ele estava se rebelando no filme Rebelde Sem Causa, aquilo abriu o palco para os anos 60 e a rebelião contra a perfeição cinematográfica e comunidades pré-fabricadas que os garotos voltaram da guerra para construir."
"Assim como muitos boomers, Pete parece ter um certo recalque nesta música, mas não está totalmente confiante, está com um certo pé atrás. Há uma certa postura defensiva. Ele sabe que gente bota ele para baixo porque ele é vivido. Talvez ele sentisse como se jamais fosse se equiparar, ou sabe que eles se ressentem pelo abundante tempo livre como um recente advento de sua geração. Ele queria que eles simplesmente sumissem, desaparecessem. Ele esperava morrer antes de envelhecer e ser substituído, assim como estava substituindo. Pete nem sequer apontou o dedo ele mesmo, ele dependeu da boca de Roger Daltrey para lançar a injúria. Aquele medo talvez seja a coisa mais honesta na música. Todos nós rompemos com a geração anterior, mas, de alguma forma, é apenas questão de tempo até nos tornarmos eles."
"Pete provavelmente seria o primeiro a dizer. Ele estava sentado da primeira fileira da história de sua geração. Ele conseguia ler os sinais entre o ódio e a guerra. Bem, aquilo certamente já passou, muito obrigado por seu serviço. Cada geração parece ter a arrogância da ignorância de jogar o passado fora em vez de construir sobre ele. E, para eles, de nada serve alguém como Pete oferecendo a sabedoria de sua experiência, os dizendo o que ele aprendeu quando passou por algo parecido nos seus tempos. E, se ele tiver essa audácia, é capaz de as pessoas dizerem que não conseguem ver ele, não conseguem ouvir ele."
"E isso deu a Pete outra ideia."

Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A música sem riff de guitarra nem refrão forte que virou um dos maiores clássicos do rock
Veja a estreia da nova formação do Rush durante o Juno Awards 2026
Guns N' Roses estreia músicas novas na abertura da turnê mundial; confira setlist
Banda de rock dos anos 70 ganha indenização do Estado brasileiro por ter sido censurada
A banda que impressionou Eddie Van Halen: "A coisa mais insana que já ouvi ao vivo"
Por que Geddy Lee achou que Anika Nilles não seria melhor opção para substituir Neil Peart?
Geddy e Lifeson contam o momento em que quase desistiram de Anika Nilles para o Rush
Os 20 maiores riffs de guitarra da história, segundo o Loudwire
Joe Bonamassa lançará show em tributo a Rory Gallagher
Para Gary Holt, Exodus é melhor que Metallica, mas ele sabe ser minoria
Dani Filth promete Cradle of Filth mais pesado em novo disco
Manowar se manifesta após anúncio da morte de Ross the Boss
A opinião de Slash sobre o anúncio da volta do Rush em 2026
Kip Winger admite não se identificar mais com a música da banda que leva seu nome


O dueto que envolve Bob Dylan e acabou sendo lembrado como um desastre
O compositor com "duas das melhores músicas do mundo", segundo Bob Dylan
O guitarrista que é um "gênio da matemática", segundo Bob Dylan
O hit de Neil Young que Bob Dylan não suportava: "Eu odiava quando tocava no rádio"
A lição que Bob Dylan deu para Frejat e ele colocou em álbum: "Ele é o meu norte"
Raul Seixas: O clássico inspirado em Dylan que driblou censura e criticou Roberto Carlos
Vinil: quais são os dez discos mais valiosos do mundo?


