Dá para separar o CPF do CNPJ e curtir bandas com membros contrários à sua visão política?
Por Gustavo Maiato
Postado em 29 de junho de 2024
O brasileiro descobriu a necessidade de discutir sobre política nos últimos anos. O problema é que nem sempre discordar da visão alheia é sinônimo de conviver de forma pacífica. O que se sucedeu na prática? A criação de bolhas de convivência que – de mãos dadas com os algoritmos – nos desconectam da realidade de pensamentos diversificados que há.
Mas o que isso tem a ver com a música e o simples fato de se tornar fã e apreciar o trabalho de um artista? O X da questão é que essa minguada paciência que se passou a nutrir pela discordância de ideologias fez com que muito admirador deixasse de curtir o som de um artista cuja bolha é formada de outra água.

Trocando em miúdos: Como ser de direita e continuar gostando do Pink Floyd mesmo com Roger Waters sendo uma das vozes mais fortes da esquerda roqueira? E ser de esquerda e continuar sorrindo aos acordes de "Cat Scratch Fever", clássico imortal do direitista Ted Nugent?
A resposta não é simples. No caso das bandas – como o exemplo do Floyd – o antídoto para curtir sem medo de ser feliz é compreender que se trata da opinião de apenas um integrante. É o CPF que omite a opinião, então por que culpar o CNPJ? A instituição/empresa está sã e salva – a não ser que todos os membros se enquadrem no mesmo espectro.
Já no caso dos artistas solo – como Nugent – o buraco é mais embaixo. Tem gente que não vai conseguir engolir certos posicionamentos. E está tudo bem. Não dá para agradar a todos. Para bandas novas, que já nasceram imersas nessa polarização, a saída pode ser se aliar ao inimigo. Desde sempre se posicionar (caso assim deseje) e assim abocanhar a parte do bolo de fãs que lhe cabe.
O maior problema dessa história toda é o caso de artistas já consagrados que – de uma hora para outra – passaram a se dedicar a defender certas causas por meio de suas redes sociais. Essa surpresa pode causar náuseas nos fãs. É claro que muitos se dizem indignados: "Como assim você não sabia que o Rage Against The Machine é contra o sistema?" ou "Não entendi a surpresa com o posicionamento político do Roger do Ultaje".
O que ocorre é que as pessoas dão a interpretação que quiserem para as letras. E puxam a sardinha para sua brasa ideológica. Se o artista não diz literalmente qual candidato tem seu apoio o fã pode criar seu próprio entendimento. Com Instagram e Facebook se tornando rotina, vira prato cheio para que os músicos digam com todas as letras para quem suas metralhadoras cheias de mágoas são apontadas.
Mas afinal, dá para separar CPF do CNPJ? Dá para curtir uma banda que defende algo que você não concorda? A resposta é que depende. Esse posicionamento é contra um valor muito forte dentro de você? Ou não é tão inegociável assim? A música em si declama contra algo que você é contra ou são músicas de amor normais e o pensamento do artista é que é contrário ao seu?
São perguntas que merecem ser respondidas antes de tomar qualquer decisão. Nesse meio tempo, ao passo que músicos se posicionam e se tornam ímã para certos fã, muitos preferem se abster e conquistar – pelo menos em tese – admiradores de direita e esquerda. E para complicar ainda mais, não há certo ou errado.
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