Paul Stanley e David Coverdale saíram no braço durante show conjunto de Kiss e Whitesnake
Por João Renato Alves
Postado em 09 de novembro de 2024
Sabotagens e restrições da atração principal fizeram com que o clima esquentasse a ponto de rolar uma "troca de gentilezas" nos bastidores.
Em 1990 o Kiss excursionava pela América do Norte promovendo o álbum "Hot in the Shade", lançado no ano anterior. O trabalho buscava reconectar a banda com suas raízes sonoras, após passar os anos anteriores tentando se adaptar ao que estava em alta na cena hard rock.
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Os músicos também adotaram um visual mais sóbrio, deixando as roupas coloridas espalhafatosas e a maquiagem excessiva (quem diz que eles deixaram de pintar a cara em 1983 não sabe nada) de lado. No repertório, resgates de clássicos dos anos 1970 uniam forças ao material à época novo. Para completar, Slaughter e Faster Pussycat faziam parte do pacote de atrações.
No dia 15 de junho de 1990, a excursão tinha uma parada agendada em Toronto, Canadá. Na mesma data, o Whitesnake se apresentaria na cidade, promovendo o álbum "Slip of the Tongue". À época, David Coverdale ostentava um supergrupo, com Steve Vai e Adrian Vandenberg nas guitarras, Rudy Sarzo no baixo e Tommy Aldridge na bateria.
Evitando um conflito de interesses do público, que poderia se dividir e resultar em prejuízo para todos, os produtores uniram forças e colocaram as atrações para se apresentar juntas no CNE Stadium, diante de 13.262 pessoas.
Tendo lançado seu disco mais bem-sucedido comercialmente três anos antes, coube ao Whitesnake o posto de atração principal. E como headliner, David Coverdale fez valer suas exigências.
A principal delas era que o Kiss não poderia usar seu tradicional aparato de lasers e pirotecnia. Obviamente, a situação não foi bem aceita pelo quarteto americano, que não se furtou de dar uma explicação aos fãs.
Em artigo no blog Decibel Geek Show, um usuário conhecido pelo pseudônimo Wallygator comentou o momento que relatou ter presenciado in loco.
"Paul começou a falar para os fãs: ‘Toronto! Quando acertamos esse show, queríamos trazer bombas para vocês! Queríamos trazer lasers’. A multidão estava ficando louca. Ele completou: ‘O que não percebemos era que um certo membro de uma certa banda não iria permitir que trouxéssemos nosso show para vocês. Está tudo bem, Toronto, hoje à noite vamos deixar a música falar e logo estaremos de volta com as bombas e os lasers’."
Mas a troca de gentilezas não parou por aí.
"Neste momento, David Coverdale se aproximou da lateral do palco e mostrou o dedo do meio para Paul Stanley. A maioria do público não conseguiu ver isso, mas no centro da terceira fila enxergamos, assim como o olhar zangado que Paul disparou de volta.
Novamente a multidão explodiu cantando: ‘Kiss! Kiss! Kiss!’. Eles tocaram um ótimo set, com direito ao bis. Pareciam estar dando um tapa de luva cravejada de couro. Sem os efeitos, fogos e muito do que torna um show do Kiss tão especial, eles subiram no palco e simplesmente destruíram! Pode ter sido o melhor show do Kiss musicalmente que eu já vi."
As coisas não se acalmaram ao final do concerto do Kiss. Admitidamente já tendo trocado sopapos com figuras como Ritchie Blackmore, David Coverdale não arregou para os colegas americanos na saída do palco.
"Após o set, eles saíram do palco e pudemos ver alguma comoção acontecendo. Ouvimos relatos não confirmados de que Paul Stanley e David Coverdale trocaram palavras que logo evoluíram para alguns breves socos com membros da equipe separando os dois cantores. Não tenho certeza se isso era exatamente o que estávamos vendo, mas algo definitivamente aconteceu."
De acordo com Wallygator, o feitiço acabou virando contra o feiticeiro com o passar da noite. Apesar de ter chamado o Kiss de "chorões" no microfone, Coverdale experimentou o dissabor de desafiar o Kiss Army.
"Quando o palco estava sendo trocado para a atração principal da noite, meu amigo me disse para virar para trás. Quando olhei, não pude acreditar, pois milhares de pessoas estavam se dirigindo para a saída. Fiquei muito surpreso, mas como fã do Kiss, também um pouco orgulhoso. Os fãs estavam enviando uma mensagem muito clara ao Sr. Coverdale.
O Whitesnake subiu ao palco e fez um show decente. Não há dúvida de que eles são uma grande e lendária banda. A formação do ‘Slip of the Tongue’ transbordava talento e, sempre que Steve Vai atacar as seis cordas (ou às vezes sete cordas), vale a pena ouvir. A banda era sólida e eu estava curtindo o som.
Então, em vez de apenas sair e fazer o melhor show que podia, o sr. Coverdale decidiu abrir a boca e piorar as coisas. Ele resolveu deixar a plateia saber que considerava a banda de abertura um ‘bando de chorões’. Eu vou te dizer, você poderia ter ouvido um alfinete cair por alguns instantes. Meu queixo estava no chão quando os insultos começaram a ser gritados para ele, seguidos por uma onda de vaias.
E as pessoas novamente começaram a sair do estádio. Tive que sorrir porque depois daquela declaração, toda vez que ele ia ao microfone dizer algo, as vaias podiam ser ouvidas. Quando encerraram a apresentação, o estádio estava apenas pela metade. Deve ter sido uma noite e tanto para David com uma lição aprendida da maneira mais difícil. Não é aconselhável mexer com o Kiss Army."
Se o relato parece um tanto passional e parcial, como esperado de um fã, a imprensa local também teceu maiores elogios ao Kiss. Em resenha publicada dois dias após o evento, o jornal Toronto Star registrou:
"Assim, as linhas de batalha foram traçadas. E enquanto o Whitesnake tinha os melhores brinquedos (e tropas mais habilidosas musicalmente), foi o Kiss quem, no final, ganhou a noite. Na verdade, o Kiss era bem mais suportável, senão tão espetacular, sem todas essas coisas explodindo.
Talvez, preocupado com a rixa, Paul Stanley tenha se esquecido de fazer seu costumeiro relato sexista de suas façanhas românticas. O baixista Gene Simmons manteve a língua na boca. Em vez disso, o Kiss apenas tocou… como uma boa banda de bar, o Kiss aprendeu a se conectar com seu público, para criar uma experiência coletiva, por mais simples que seja."
Curiosamente, décadas após o ocorrido, Paul Stanley e David Coverdale mantém uma relação bastante amistosa. Os dois já declararam ter saído para jantar juntos e foram clicados em camarins de shows.
O ocorrido nunca foi comentado por nenhum dos lados e há raros registros da imprensa especializada sobre o tema. Apenas fóruns e espaços de fãs realmente abordaram o tema até hoje.
Eis os setlists executados pelas bandas naquela noite:
Slaughter
Mad About You
Burnin’ Bridges
Eye to Eye
Fly to the Angels
Up All Night
Loaded Gun
Faster Pussycat
Where There’s a Whip There’s a Way
Slip of the Tongue
Cathouse
Poison Ivy
Little Dove
House of Pain
A Poem
Bathroom Wall
Babylon
Kiss
I Stole Your Love
Deuce
Heaven’s on Fire
Crazy Crazy Nights
Black Diamond
Shout It Out Loud
Strutter
Calling Dr. Love
Rise to It
Fits Like a Glove
Lick It Up
Forever
Hide Your Heart
Cold Gin
Tears Are Falling
I Love It Loud
Detroit Rock City
I Want You
Rock and Roll All Nite
Whitesnake
Slip of the Tongue
Slide It In
Judgement Day
Slow an’ Easy
Is This Love
Kittens Got Claws
Guitar Solo
The Deeper the Love
Cheap an’ Nasty
Crying in the Rain
Here I Go Again
Bad Boys / Children of the Night
Still of the Night
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