O clássico dos Beatles gravado enquanto choravam a morte de seu empresário Brian Epstein
Por André Garcia
Postado em 06 de dezembro de 2024
O maior responsável pelo sucesso inicial dos Beatles foi o empresário Brian Epstein. Dono de uma loja discos e com um tino natural para lidar com papelada e contabilidade, ele descobriu nos Beatles e, ao ver como as meninas reagiam àquilo, enxergou no quarteto a oportunidade de faturar com o mercado fonográfico que ele já conhecia tão bem.
Foi pelas mãos e autoridade de Epstein que a banda trocou as jaquetas de couro pelos ternos, os topetes pelas franjinhas e a arruaça por ares de bons-moços. Nesse novo formato mais palatável eles em questões de meses dominaram a Inglaterra, dando início assim à beatlemania.
Ele morreu em 1967 de overdose por conta de seus conflitos internos (por não se aceitar homossexual) e as pressões de gerir uma banda maior que a vida sem a devida estrutura de suporte. Quando isso aconteceu, os Fab Four estavam gravando "I am the Walrus".
Conforme publicado pela Far Out Magazine, quando John Lennon mostrou a George Martin seu esboço de "I am the Walrus", o produtor não ficou nem um pouco impressionado — e nem o engenheiro de som Geoff Emerick.

Tanto que no livro Here There and Everywhere conta que certa vez Geoff confessou: "A melodia consistia basicamente em apenas duas notas, e a letra era praticamente sem sentido — por alguma razão, John parecia estar cantando sobre uma morsa e um homem-ovo. Houve um momento de silêncio quando ele terminou [de tocar], aí então Lennon olhou para George Martin na expectativa [de um retorno positivo]."
Para sua decepção, entretanto, Martin observou que o minimalismo da melodia vocal de "I am The Walrus" soava decepcionante após as melodias cantados por Lennon cantadas em "A Day in the Life" e "Strawberry Fields Forever".
O produtor aconselhou o descarte da faixa, mas o quarteto insistiu nela por conta própria mesmo assim. Quando chegou finalmente a hora deles gravarem, a banda passou por uma de suas maiores tragédias: a morte de Brian Epstein.
Inicialmente quem tocava piano em "I am the Walrus" era Paul McCartney, mas a partir da morte de Epstein, John Lennon, que o tinha como uma figura paterna, fez questão de tocar piano. Mesmo "dando uns deslizes", segundo Geoff. O engenheiro chegou até a questionar Lennon sobre ele deixar que McCartney tocasse, mas não obteve resposta; e supôs que aquilo era a forma que ele encontrou de extravasar seu luto.
Durante toda a gravação da faixa a banda estava "distraída, visivelmente atordoada pelo baque.
"Lembro claramente do semblante vazio no rosto de todos eles enquanto gravavam 'I am the Walrus'", acrescentou o engenheiro. "É uma das lembranças mais tristes que tenho do tempo que trabalhei com os Beatles."
Foi até bom que George Martin e Geoff Emerick terem achado a melodia de "I am the Walrus" sem-graça, porque aquilo acabou levando eles a pesarem mais a mão na produção para compensar. A música foi recebendo camadas e mais camadas de uma colagem sonora de efeitos sonoros e samples, somados a toda sorte de efeitos e instrumentos utilizados em "Sgt. Pepper's". Tudo isso no clímax se soma em um vórtex de sons rodopiantes — com direitos a trechos de Shakespeare ali no meio.
Assim como em "Tomorrow Never Knows", em "I am the Walrus" o estúdio pode ser considerado um instrumento — e George Martin o quinto beatle. Na minha opinião, ela só ficou tão boa quanto é em muito por mérito da produção. Quem duvida é só ouvir ela em dolby atmos com um fone bom.
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