Caetano Veloso e o astro que seria "novo Bob Dylan" , mas "nunca estourou no Brasil"
Por Gustavo Maiato
Postado em 16 de maio de 2025
Em uma entrevista concedida à revista Bizz em 1985, Caetano Veloso comentou sobre os principais nomes do pop e rock internacional daquele ano. Entre críticas afiadas e elogios inesperados, chamou atenção sua visão sobre Bruce Springsteen, então celebrado pela mídia norte-americana como o novo grande nome da música. Para Caetano, no entanto, o "Boss" era mais ruído que alcance.
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"O Bruce vem explodindo há anos, capa da Time e Newsweek há dez anos", comentou o cantor. "Eu perguntava: ‘Quem é esse homem tão importante?’ Diziam que era o novo Bob Dylan. Mas a coisa nunca chegava no Brasil", disse, com um misto de estranhamento e distanciamento.
O comentário revela a distância entre o sucesso internacional de Springsteen e sua recepção no mercado brasileiro. Embora respeitado por um público mais especializado, Bruce nunca teve a mesma penetração entre os ouvintes daqui como outros astros norte-americanos da época.
Ao ser provocado pela repórter da Bizz sobre o contraste entre Bruce e Madonna — que naquele ano já dominava as paradas com hits dançantes e uma estética visual arrojada — Caetano foi direto. "Eu não estou muito interessado em nenhum dos dois", disse. "Pode ser mesmo que não haja mais nenhum espírito de aventura."
Ele comentou também sobre a ausência de risco nas grandes performances pop. "Um pouco chato no show do Prince era a impressão de que não havia nenhum risco ali, ninguém está correndo nenhum risco", observou, ainda que tenha feito questão de elogiar o talento do artista. "Mas gosto do estilo dele, ele tem soul, é sexy, tem talento e swing."
Quanto à Madonna, sua análise foi ainda mais cortante. "Madonna é meio neutra, um sorvete, tudo certinho e careta, com aqueles pandeirinhos", ironizou. Já sobre Bruce, demonstrou certa curiosidade — ainda que com reservas. "Eu não conheço bem, dizem que ele é importante pelas letras. O visual dele é de garoto americano, forte, másculo. Eu gosto do visual dele, mas precisava conhecer as letras."
A crítica, no entanto, vinha acompanhada de uma percepção do ritmo acelerado da indústria pop. "Mas tudo passa tão rápido...", lamentou. "Eu acho que o Michael Jackson ainda está aí, daqui a pouco sai um trabalho dele e todo mundo fica ligado e apaixonado."
Caetano reconhecia a força da cultura pop norte-americana, mas também revelava certa frustração com a pasteurização dos artistas. O impacto visual, segundo ele, ganhava cada vez mais espaço em relação ao conteúdo. "Madonna é como uma Broadway para adolescentes", comparou. "Enquanto o Bruce já vem gravando há muito tempo."
Por fim, sua crítica parecia menos direcionada a artistas específicos e mais a um momento da música pop em que, para ele, a ousadia parecia rarear. "Pode ser que não haja mais nenhum espírito de aventura", concluiu, em tom melancólico, mas sempre atento ao que estava por vir.
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