A curiosa história do fã brasileiro que encontrou John Lennon pouco antes de sua morte
Por Gustavo Maiato
Postado em 12 de junho de 2025
Poucas semanas antes de ser assassinado, John Lennon recebeu na porta de casa um presente vindo do Brasil. O autor do gesto foi Marco Antônio Mallagoli, empresário paulistano e presidente do fã-clube Revolution, que viajou a Nova York em outubro de 1980 com um objetivo improvável: encontrar seu maior ídolo no dia em que completaria 40 anos.
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Fã dos Beatles desde 1963, Mallagoli ouviu que a missão era inútil. "Cara, ele odeia fã. Vai cuspir na sua cara!", alertaram amigos, segundo contou em entrevista à BBC News Brasil. Mesmo assim, embarcou e se hospedou na casa de um conhecido que morava a poucos metros do edifício Dakota, onde Lennon vivia com Yoko Ono.
Conforme detalhado pela Rolling Stone Brasil, o brasileiro levou como presente um exemplar da trilha sonora do filme A Hard Day’s Night (1964), em sua versão nacional, Os Reis do Iê-Iê-Iê, com uma dedicatória. Para tentar entregar o LP, aproximou-se de José Perdomo, porteiro cubano do Dakota, a quem presenteou com um maço de cigarros e uma garrafa de cachaça. O plano deu certo.
No dia 9 de outubro, aniversário de Lennon, uma pequena multidão se reuniu na porta do prédio. Segundo relembrou a BBC, o filho de Lennon, Sean, gritou da janela que havia "uma surpresinha na portaria". Eram fatias de bolo embrulhadas e balões autografados enviados pelo cantor aos fãs.
Enquanto outros se entretinham com o presente, Mallagoli puxou conversa com Frederic Seaman, secretário pessoal de Lennon. "John já ouviu umas três vezes. Há muito tempo ele não ouvia um disco dos Beatles", contou o assessor, como relatado pelo Estado de Minas.
No dia seguinte, Mallagoli voltou ao Dakota. Segundo reportagem da BBC News Brasil, uma limusine estacionada indicava que Lennon estava prestes a sair. E foi o que aconteceu. Atrás do fã, surgiu o ex-beatle com seus óculos de aro redondo. "Me apresentei como presidente do fã-clube Revolution. Ele agradeceu pelo presente e começamos a conversar", contou Mallagoli à Rolling Stone.
O brasileiro quis saber por que Lennon nunca havia visitado o Brasil. "Porque nunca me convidaram", respondeu o músico. "Então considere-se convidado", retrucou Mallagoli. Segundo relatou à BBC, Lennon contou estar trabalhando em Double Fantasy e planejava um novo álbum, Milk and Honey, com turnê por Japão, Europa, Estados Unidos e, como brincou o brasileiro, "no Brasil". Lennon completou: "Pois é, e Brasil".
Na mesma conversa, Lennon revelou planos de reunir os Beatles após a turnê. "Depois que eu terminar tudo isso, vou ligar para Paul, Ringo e George e ver o que vamos fazer da vida!", disse, segundo relatado por Mallagoli ao Estado de Minas. A ideia era retomar a parceria sem abandonar as carreiras solo.
Na despedida, Lennon perguntou: "De qual música dos Beatles você mais gosta?". Mallagoli respondeu "She Loves You". O músico reagiu com um sorriso e desconversou: "Por nada...". Depois disso, Lennon caminhou até a limusine e, por um momento, pareceu hesitar. "Ele virou, olhou para mim como se fosse falar algo, mas entrou no carro sem dizer", relatou o fã à Rolling Stone.
Dias depois, Mallagoli recebeu uma ligação de Seaman. Segundo a BBC, o assessor revelou que Lennon pensou em convidar o brasileiro para assistir às gravações do disco, mas decidiu não atrapalhar sua viagem. O reconhecimento veio logo depois: um pacote com o disco de ouro de She Loves You e um bilhete. "John disse que esse disco estaria melhor nas suas mãos do que nas dele", escreveu Seaman, conforme relatado pelo Estado de Minas.
A tragédia veio semanas depois. Na noite de 8 de dezembro de 1980, John Lennon foi baleado na porta do Dakota por Mark David Chapman. "Achei que fossem fogos de artifício", contou Osni Omena, amigo que hospedara Mallagoli, em entrevista à BBC News Brasil. Mais tarde, Perdomo relataria a Omena que ele mesmo desarmou Chapman, que confessou: "Sim, eu matei John Lennon".
Ao saber da notícia, Mallagoli ficou em choque. Conforme contou ao Estado de Minas, ele estava em sua loja, na Faria Lima, em São Paulo, quando amigos lhe mostraram a manchete: "Tiros. Lennon Cai. Um Beatle Vai Morrer". Voltou imediatamente para Nova York.
No dia seguinte, participou da homenagem silenciosa no Central Park, organizada por Yoko Ono. "Quando tocaram Imagine, não resisti. Nunca chorei tanto na vida", relembrou o brasileiro à Rolling Stone Brasil.
Mallagoli garante que nada na vida se compara àqueles instantes ao lado de seu ídolo. "Foram os 15 minutos mais mágicos da minha vida", afirmou à BBC News Brasil. O último grande encontro de um fã com John Lennon, semanas antes do fim trágico que abalaria o mundo da música.
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