"Vale a pena gastar salário mínimo no show?": Andre Barcinski critica preço do AC/DC em SP
Por Gustavo Maiato
Postado em 05 de dezembro de 2025
Pagar um salário mínimo para ver um show de rock virou, aos poucos, algo normal no Brasil - e isso está incomodando muita gente. Em vídeo recente publicado em seu canal, o jornalista e produtor cultural Andre Barcinski levantou a pergunta que muitos fãs fazem na surdina: "Vale a pena gastar um salário mínimo para ver um show de uma banda, mesmo que essa banda seja o AC/DC?". A provocação veio a partir dos valores da turnê "Power Up" no Estádio do MorumBIS, em São Paulo, marcada para 2026, cuja faixa de preços já vinha gerando debate entre os fãs.
Barcinski pegou como exemplo o show do AC/DC no MorumBIS: arquibancada a R$ 850 (sem taxas), pista a R$ 1.350 e cadeiras superiores e inferiores a R$ 1.490 e R$ 1.590, respectivamente. Com taxa de conveniência e parcelamento, o valor facilmente encosta em R$ 1.600 na pista e se aproxima dos R$ 2.000 nas cadeiras mais caras. "O ingresso mais caro para ver o AC/DC no Morumbi vai sair, com taxa e tal, por volta de dois mil reais por ingresso", resumiu. Em paralelo, o salário mínimo em 2025 está em R$ 1.518, o que torna inevitável a comparação entre um mês de trabalho formal e uma noite de show.

Para fugir da impressão de que o problema é exclusivo do AC/DC, Barcinski citou outras atrações de estádio: Oasis, Limp Bizkit, Linkin Park, My Chemical Romance e afins, todos orbitando valores parecidos de pista, geralmente na casa dos R$ 1.000 com taxas. Ele contou, por exemplo, que pagou "algo perto de mil reais, parcelado no cartão" para que a filha pudesse ver o My Chemical Romance no Allianz Parque. "Hoje é normal você gastar perto de um salário mínimo para comprar um ingresso de pista para qualquer desses grandes shows", comentou, reforçando que a crítica não é a uma banda ou produtora específica, mas a um modelo inteiro.
O jornalista fez então um exercício de comparação histórica. A última passagem do AC/DC pelo Morumbi havia sido em 2009, na turnê do álbum Black Ice. Na época, o ingresso de pista custava R$ 250. Atualizando esse valor pelo IPCA, Barcinski calculou que o mesmo tíquete deveria hoje estar em torno de R$ 617 - menos da metade dos R$ 1.350 cobrados para a pista em 2026. "Ou seja, um ingresso dobrou de valor real", concluiu, destacando que o aumento vai muito além da simples correção inflacionária.
A conta fica ainda mais pesada quando entra o salário mínimo na equação. Barcinski lembrou que, em 2009, o mínimo era de R$ 465. Com esse valor, era possível comprar quase dois ingressos de pista (R$ 250 cada). Hoje, com o mínimo em R$ 1.518, o mesmo trabalhador mal consegue comprar um ingresso inteiro para a pista, sem incluir taxas. "Antes, com um salário mínimo você comprava quase dois ingressos pro AC/DC. Hoje, compra um só", sintetizou, usando o exemplo como símbolo de como o show de estádio foi se tornando um luxo progressivamente mais inacessível para boa parte do público.
Ingressos do AC/DC muito caros?
Na segunda metade do vídeo, Barcinski olha para as causas estruturais do fenômeno. Ele cita a disparada do dólar - que saiu da casa de R$ 1,80 em 2009 para mais de R$ 5,00 nos últimos anos - como um dos principais fatores para o encarecimento de turnês internacionais. Soma-se a isso a transformação da indústria fonográfica com a digitalização e o streaming: "Antigamente, bandas excursionavam para vender disco. Hoje, os shows representam uma fatia muito maior do faturamento dos artistas", lembra. Com a queda brutal da receita de venda física, o palco virou a principal fonte de renda, e os ingressos acompanharam essa virada.
Outro ponto levantado é a concentração de poder nas mãos de gigantes como a Live Nation e a Ticketmaster, que controlam simultaneamente produção, casas de show e venda de ingressos em vários países. "Poucas empresas controlam uma fatia gigantesca do mercado", observa Barcinski, o que, na visão dele, contribui tanto para a elevação de custos quanto para a falta de alternativas ao modelo atual. Ele também menciona o efeito da pandemia: passagens mais caras, fretes elevados, mais restrições de bagagem e logística geral de turnê muito mais dispendiosa do que há cinco ou seis anos, cenário que afeta diretamente qualquer banda que precise cruzar fronteiras para tocar.
Diante desse quadro, Barcinski se mostra pessimista quanto a uma mudança estrutural a curto prazo. "A tendência é que as coisas só piorem", diz, prevendo cachês cada vez mais altos em megafestivais turbinados por patrocínios e, consequentemente, ingressos ainda mais caros. A "solução", segundo ele, é muito menos um plano macro e muito mais uma postura individual de cada fã: "Incentivar e ir a pequenos clubes, parar de ir nesses mega festivais que cobram salário mínimo, incentivar as cenas locais e tentar fugir um pouco dessa grandiosidade, dessa coisa monopolista…". Para o jornalista, apoiar a base - bandas menores, casas pequenas, cenas alternativas - pode ser uma maneira concreta de continuar vivendo música ao vivo sem transformar cada show em uma decisão financeira traumática.
Confira o vídeo completo abaixo.
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