Alissa White-Gluz diz que influenciadores distorceram a questão central do veganismo
Por Bruce William
Postado em 30 de março de 2026
Alissa White-Gluz voltou a falar com clareza sobre um tema que, para ela, vem antes até da música: os direitos dos animais. Em entrevista ao programa She's With The Band, do Knotfest (com transcrição do Blabbermouth, a ex-vocalista do Arch Enemy disse que acompanha há anos os avanços e recuos da causa, e observou como o assunto costuma ser tratado de forma contraditória. Para explicar isso, ela citou um exemplo bem direto: quando ativistas resgatam cães de laboratórios, costumam ser vistos como heróis; mas, se estivessem saindo de lá com porcos, a reação provavelmente seria outra.

"Eu vi os direitos dos animais, nem digo só o veganismo, mas os direitos dos animais em geral, passarem por uma montanha-russa de vitórias e derrotas. É sempre muito curioso ver isso. Se alguém resgata um beagle de um centro de testes em animais, como aconteceu agora há pouco, essas pessoas são aplaudidas como heroínas, porque salvaram cães. Mas, se essas mesmas pessoas estivessem saindo com outro animal, digamos um animal muito parecido, até mais inteligente e com mais DNA em comum com os humanos, um porco, provavelmente não seriam aplaudidas. As pessoas só comentariam 'bacon'. E podem comentar isso o quanto quiserem. Eu sei de onde vem o bacon. Isso não vai explodir minha cabeça."
Na conversa, Alissa também reclamou da forma como o veganismo foi absorvido pela cultura de influenciadores e tratado de forma a distorcer completamente a questão central. "Acho que, infelizmente, chegamos a um ponto em que há tanta saturação na cultura de influenciadores que o veganismo acabou sendo sugado para dentro de uma moda de dieta, e ele não é isso. Para deixar perfeitamente claro para alguém que nunca conheceu um vegano: você provavelmente nem vai saber que a pessoa é vegana até sair para comer com ela em algum lugar e vê-la fazer o pedido. E ainda assim talvez nem saiba, a menos que pergunte. Não é uma coisa que fica surgindo em conversa."
Ela também debochou do velho clichê de que veganos saem por aí tentando converter qualquer um no grito. "As pessoas têm essa ideia esquisita porque talvez nunca tenham conhecido um vegano. Ficam: 'Ah, veganos chegam em você dizendo: "Eu sou vegano e você deveria ser também".' Isso nunca aconteceu. Isso não acontece. Tenho amigos que conheço há anos e eu nem sabia que eram veganos. Aí um dia a gente descobre: 'Ah, eu também.' Pronto, legal."
A fala mais direta da entrevista veio quando Alissa resumiu por que fez sua escolha. "Eu virei vegana porque amo os animais e não quero machucá-los. É só isso." A partir daí, ela puxou a discussão para o presente e argumentou que hoje, ao contrário do que muita gente tenta vender, já é perfeitamente possível evitar produtos de origem animal sem transformar isso numa missão impossível. "Se outras pessoas sentem a mesma coisa e não querem machucar os animais, nós estamos num ponto da história em que é realmente muito fácil evitar machucá-los. Dá para pensar: 'Achei uma forma de parar de machucar animais. É muito fácil. Não custa nada. Tudo o que envolve é eu escolher comer isso em vez daquilo. Mesmo preço, mesmo valor nutricional. Uma coisa é feita de plantas, a outra é feita de animais mortos.' É muito fácil agora."
A cantora também disse que houve um momento recente em que a causa avançou bastante, especialmente entre 2018 e 2019, mas que depois veio uma reação forte. Segundo ela, documentários como The Game Changers ajudaram muita gente a se interessar pelo assunto, mas em seguida o pêndulo voltou para o outro lado. "Eu vejo isso o tempo todo. Se eu posto qualquer coisa sobre animais que não seja cachorro ou gato, começam a aparecer pessoas com todo tipo de argumento, blá-blá-blá. Eu deixo os comentários lá ou respondo alguns, porque quero que as pessoas vejam e percebam: 'Na verdade isso não faz sentido, porque ela respondeu e desmontou aquilo.'"
Foi nesse ponto que Alissa entrou numa crítica mais ampla ao marketing contra o veganismo. Ela afirmou que a indústria da carne reagiu quando começou a sentir o impacto da mudança de comportamento do público. "A dieta carnívora cresceu, e de forma bem transparente a indústria da carne pagou influenciadores para dizer que eram veganos e deixaram de ser. Isso é fato. É documentado. A indústria da carne é uma das maiores, mais bem-sucedidas e mais valiosas do mundo. Está lá em cima, junto com o petróleo, é gigantesca. E eles começaram a ver o negócio deles sofrer de verdade por causa de pessoas que queriam ser mais saudáveis ou ajudar os animais, especialmente no caso dos laticínios, porque a maioria das pessoas é alérgica a leite de qualquer forma."
Ela continuou: "Então eles começaram a fazer coisas para empurrar o pêndulo de volta, e parte disso funcionou. Existem influenciadores veganos que nunca foram realmente veganos, mas foram pagos para dizer que eram e depois aparecer com vídeo de 'Eis por que deixei de ser vegano', só para gerar raiva e engajamento. Isso é marketing. Na verdade, é um marketing bem inteligente." Na mesma linha, ela mencionou leis em discussão em alguns lugares para impedir o uso de termos como "leite de soja" ou "leite de aveia". "Tem lugares onde querem proibir que você chame de leite de soja ou leite de aveia. Tem que ser 'bebida de soja', porque eles morrem de medo da palavra 'leite' ser usada para algo que não saiu do peito de uma vaca. Então eu vejo que eles estão lutando, e isso até me dá uma satisfação, porque significa que estamos causando algum impacto. Mas eles conseguiram fazer marketing contra o veganismo com bastante sucesso, e isso é uma pena, porque, no fim das contas, somos só pessoas que não querem machucar animais."
Alissa também deixou claro que, para ela, a lógica vale para outras escolhas da vida. "Eu não me importo com o que você faz. Faça o que quiser. Dirija o que quiser, durma com quem quiser, coma o que quiser, vista o que quiser, desde que você não esteja machucando ninguém. Todas essas coisas, quando são feitas sem machucar ninguém, não me dizem respeito. Você tem livre-arbítrio. Vá aproveitar. Mas, se você escolhe usar um casaco de pele de verdade, aí você está machucando alguém. Então já não é mais só sobre você. Você está envolvendo outra pessoa e tirando a vida dela. Na verdade, de muitas vidas, no caso de um casaco."
Mesmo mantendo uma posição firme, ela também tentou tirar o peso da ideia de perfeição absoluta para quem está começando. "Na minha cabeça é tudo tão fácil que eu penso: 'Por que isso seria um problema?' Mas acho que, se as pessoas amam os animais, se se importam com os animais, ou com a própria saúde, ou com o meio ambiente, mesmo que consigam fazer isso só um pouco, já ajuda. Porque, veja, se existem pessoas que são veganas metade do tempo, isso é o mesmo que ter metade da quantidade de pessoas veganas o tempo todo. O impacto é o mesmo. Então, se alguém diz: 'Sou quase vegano', mas ainda gosta de queijo de vez em quando, essa pessoa ainda está fazendo um ótimo trabalho."
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