A música que Robert Smith fez para deixar de ser gótico, e afastar parte dos fãs do The Cure
Por Bruce William
Postado em 28 de março de 2026
No começo dos anos 1980, o The Cure já tinha construído uma reputação muito ligada ao lado mais sombrio do pós-punk. Discos como "Seventeen Seconds, Faith" e, principalmente, "Pornography" empurraram a banda para um lugar em que melancolia, tensão e desespero pareciam fazer parte do pacote. Era um caminho que rendia prestígio, criava devoção e ajudava a consolidar aquela imagem soturna que muita gente passou a associar de vez a Robert Smith.
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Só que "Pornography" também nasceu de um período muito pesado. Entre abuso de álcool, LSD e desgaste interno, a banda mergulhou fundo demais naquele universo. Anos depois, Smith resumiu o impacto da experiência ao dizer que ele e os colegas se chocaram com "como as pessoas podiam ser vis, como as pessoas podiam ser malignas". Ele também admitiu que considera o disco uma das melhores coisas que o grupo fez, mas acrescentou uma observação reveladora: "Não acho que você possa fazer muitos álbuns assim, porque você não estaria vivo."
Foi nesse contexto que surgiu a vontade de romper com tudo aquilo, relembra a Far Out. Durante a pausa da banda no início da década, Smith gravou com Lol Tolhurst algumas músicas que seguiriam caminho bem diferente. A principal delas foi "Let's Go to Bed", lançada em 1982. Em vez da densidade sufocante de "Pornography", a faixa vinha com um espírito mais leve, mais pop e até provocador. E essa mudança não foi acidente nem desvio involuntário. Foi decisão calculada.
O próprio Smith contou depois que, quando apresentou a música para a gravadora Fiction, o clima foi de puro silêncio. A reação era de espanto, quase como se ele tivesse enlouquecido de vez. E ele entendeu por quê. "Eles disseram: 'Você não pode estar falando sério. Seus fãs vão odiar isso.' Eu entendia, mas queria me livrar de tudo aquilo. Eu não queria mais aquele lado da vida; queria fazer algo realmente alegre." Não era só mudar o som. Era tentar escapar de uma identidade que já começava a prendê-lo.
Isso explica por que "Let's Go to Bed" incomodou parte do público mais apegado à fase escura da banda. Havia um tipo de fã do Cure que colocava "Pornography" num pedestal e esperava que o grupo continuasse cavando cada vez mais fundo naquele buraco. Smith resolveu fazer justamente o contrário. Em vez de alimentar o personagem gótico até a exaustão, preferiu virar a mesa e apostar num caminho que, para muitos, soava quase como suicídio artístico.
O curioso é que essa guinada acabou sendo uma das decisões mais importantes da história do The Cure. Sem abandonar completamente a melancolia que sempre esteve em sua música, a banda abriu espaço para outra paleta de cores e ganhou fôlego para seguir adiante. O público mudou, parte torceu o nariz, outra embarcou, e Robert Smith saiu daquele beco sem precisar passar o resto da vida repetindo a mesma sombra.
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