Pete Townshend acha que "Tommy" tem mais a ver com os dias de hoje do que tinha quando lançado
Por Bruce William
Postado em 24 de março de 2026
Pete Townshend voltou a falar de Tommy como uma obra que, na visão dele, conversa ainda mais com o presente do que conversava em 1969. A ideia apareceu quando a montagem de The Who's Tommy retornou à Broadway e também no embalo da reapresentação do musical no Tony Awards de 2024. Para Townshend, a história do garoto que se fecha diante do trauma ganhou um paralelo moderno bastante claro.
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Ao comentar essa leitura para a Guitar Player, ele ligou diretamente o universo da obra ao modo como crianças e adolescentes vivem hoje diante das redes sociais. "Tantos problemas com que lidamos hoje, especialmente com nossos filhos vivendo nas redes sociais. Os iPhones que todos nós olhamos agora são como o espelho em 'Tommy'. É um reflexo muito preciso, muito sucinto, do que sinto que estamos enfrentando hoje, com crianças crescendo com tremenda ansiedade, com questões de suicídio, e às vezes encenando isso."
A comparação faz sentido dentro da própria trama. Em "Tommy", o personagem central fica preso a um estado de desligamento depois de testemunhar um episódio traumático, e o espelho vira um elemento decisivo naquela narrativa. Na releitura atual, Townshend enxerga a tela do celular como esse novo espelho: um objeto diante do qual muita gente cresce se observando, se medindo e se perdendo. A CBS resumiu essa leitura dizendo que, num mundo "obcecado em olhar para si mesmo", Townshend e o diretor Des McAnuff passaram a enxergar "Tommy" como mais atual do que nunca.
Townshend também puxou a origem da obra para a própria infância no pós-guerra. Segundo ele, a história foi escrita quando olhava para trás e pensava no estrago deixado pela geração dos pais. "A história de 'Tommy' foi escrita quando eu olhava para minha infância no pós-guerra, pensando: 'Nossos pais ferraram tudo', e seria trágico permitir que isso acontecesse de novo." Em seguida, ele atualizou o raciocínio: "Não tivemos guerra, mas temos mudança climática, temos grandes questões. Não vamos deixar nossas crianças fazerem o que quiserem; elas precisam ser guiadas e cuidadas."
Esse raciocínio ajuda a explicar por que Tommy continua reaparecendo em novos formatos. O disco de 1969 virou filme, espetáculo de palco e voltou em tempos recentes à Broadway, agora numa montagem que tenta falar também com gente que não viveu nem a explosão do The Who nem a primeira era das óperas-rock. A produção de 2024, por exemplo, foi apresentada como uma releitura moderna da obra e recolocou Townshend no centro dessa conversa sobre o que o álbum ainda diz para uma nova geração.
O ponto de Townshend não é dizer que o mundo de hoje é igual ao de 1969. É quase o contrário. O que ele sugere é que a forma do trauma mudou, o cenário mudou, os objetos mudaram, mas a fragilidade de quem cresce no meio disso continua ali. Se antes o espelho de Tommy parecia um símbolo estranho e quase abstrato, agora ele acha que basta olhar para a tela acesa na mão de qualquer adolescente para entender por que essa história voltou a bater tão forte.
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