"Máquinas de escrever"; é assim que soam muitos guitarristas atuais para Uli Jon Roth
Por Bruce William
Postado em 06 de abril de 2026
Em tempos de vídeos curtos, demonstrações relâmpago e guitarrista querendo provar em 20 segundos que consegue tocar mais do que o vizinho da internet, Uli Jon Roth resolveu ir na direção oposta. Numa entrevista ao canal North Coast Music Beat, com transcrição do Blabbermouth, o alemão disse que muito músico novo está colocando energia demais na busca pela perfeição técnica e deixando para trás algo que, para ele, vale mais: som pessoal, toque pessoal e expressão.

"Hoje em dia há muito talento por aí. No entanto, acho que a jornada neste momento talvez esteja um pouco focada demais na busca pelo brilho técnico, e o som pessoal, o toque pessoal e a expressão estão em falta. Gente demais começa a soar como máquinas de escrever." Foi aí que ele soltou a imagem mais curiosa da conversa. A crítica não é um desdém aos músicos habilidosos. Ele mesmo fez questão de dizer que existem instrumentistas incríveis por aí. O problema, para ele, é quando a técnica passa a ocupar o lugar daquilo que deveria carregar a música.
Uli foi além e deu um conselho que bate de frente com boa parte da cultura de guitarra de hoje: "Faça o contrário. Não toque todas as notas rápidas. Toque as notas que vão direto ao coração - e não muitas", afirmou. Depois, comparou esse excesso a alguém que "fala muito rápido" e, quando se presta atenção, não está dizendo nada que tenha peso. A velocidade, por si só, não garante sentido. O ponto central da fala dele era esse: tocar muito não é a mesma coisa que comunicar alguma coisa.
Essa bronca não apareceu do nada. Em outras entrevistas recentes, Uli já vinha reclamando de uma perda de identidade no jeito de tocar guitarra hoje. Em 2023, por exemplo, durante conversa com a Guitar ele falou em músicos que soam "fabricados" e com pouca consciência de timbre; no ano seguinte, voltou a usar a imagem da "máquina de escrever" para falar de excesso de notas e falta de lógica musical. Ou seja: não foi uma frase solta para render manchete. É uma implicância antiga dele com o culto ao exibicionismo instrumental.
Ao mesmo tempo, Uli não defendeu ignorância técnica nem romantismo antiescola. Ele disse que o jovem guitarrista precisa, sim, aprender o ofício, estudar escalas, arpejos, harmonias, ritmos e entender música de dentro para fora. Mas esse aprendizado, na visão dele, deveria servir para construir uma voz própria, não para produzir mais um clone impecável de internet. Em resumo: virar bom artesão, sem deixar a alma para trás.
É uma fala que pode soar conservadora para alguns, sobretudo num momento em que a técnica virou espetáculo em si. Ainda assim, há uma provocação válida ali. Num cenário cheio de gente capaz de tocar tudo, talvez o mais raro tenha virado outra coisa: tocar pouco, tocar certo e fazer alguém lembrar de você depois que a música acaba.
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