A única música do Queen gravada na frente das câmeras, mas Brian May se arrependeu
Por Bruce William
Postado em 26 de maio de 2026
Depois do Live Aid, o Queen saiu com uma energia que precisava ser aproveitada de algum jeito. A apresentação em Wembley, em 13 de julho de 1985, havia recolocado a banda no centro da conversa, com Freddie Mercury comandando uma multidão em poucos minutos e transformando um set curto em um dos momentos mais lembrados da história do rock. Era natural que eles quisessem levar aquele impulso para o estúdio antes que esfriasse.
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"One Vision" nasceu nesse clima. A música foi gravada em setembro de 1985, no Musicland Studios, em Munique, e lançada como single em novembro do mesmo ano, antes de aparecer no álbum "A Kind of Magic", de 1986. Embora tenha crédito coletivo dos quatro integrantes, sua criação partiu de uma ideia de Roger Taylor e ganhou forma com participação forte de Brian May e Freddie Mercury. O próprio material oficial da série Queen The Greatest diz que a música começou com um riff de Brian e algumas ideias de letra de Roger.
A proposta combinava com aquele momento do Queen: uma faixa de abertura grandiosa, com clima de união, guitarras fortes, bateria marcada e uma mensagem suficientemente ampla para funcionar como hino. A canção também virou a abertura dos shows da Magic Tour, em 1986, o que reforça seu papel como cartão de entrada daquela fase. Não era uma música qualquer jogada no repertório; era uma declaração de retomada.
Só que havia um elemento incomum no estúdio: câmeras. Os diretores austríacos Rudi Dolezal e Hannes Rossacher, conhecidos como DoRo, acompanharam o processo de gravação, e parte do material virou o videoclipe de "One Vision". O vídeo mostra a banda trabalhando em estúdio e ainda usa uma espécie de transformação visual da pose clássica de "Queen II" e de "Bohemian Rhapsody" para o Queen de 1985.
À primeira vista, parecia uma boa ideia. O Queen queria registrar a criação de uma música que carregava o efeito Live Aid, e os fãs ganhariam a chance rara de ver a banda montando algo por dentro. Mas Brian May depois avaliou a decisão com menos entusiasmo. Em entrevista para a Ultimate Guitar, ele disse que a presença das câmeras "mudou a química" do grupo, porque todos estavam conscientes de que estavam sendo filmados e, por isso, não se sentiam tão relaxados e normais quanto estariam em uma sessão comum.
É um detalhe inesperado porque o vídeo passa uma sensação de espontaneidade, mas a própria espontaneidade fica contaminada quando todo mundo sabe que está sendo observado. Em uma banda como o Queen, em que cada integrante tinha personalidade forte e as ideias podiam se chocar no estúdio, uma câmera não era apenas uma testemunha neutra. Ela também virava mais uma presença na sala.
Mesmo assim, o registro deixou momentos preciosos. Há Freddie mexendo em frases, brincadeiras com letras absurdas e o famoso final com "fried chicken", que entrou como piada no lugar de "one vision". Essa graça meio boba combina com a banda: por trás da produção enorme, da imagem majestosa e do perfeccionismo, ainda havia quatro músicos tentando fazer uma música funcionar e rindo de uma bobagem no meio do processo.
"One Vision" acabou carregando duas coisas ao mesmo tempo. Como música, marcou o Queen pós-Live Aid, pronto para entrar em sua última grande fase de turnê com Freddie. Como documento visual, mostrou uma banda em criação, mas também revelou o preço de filmar algo que normalmente depende de liberdade, erro e privacidade. Brian May talvez tenha razão ao dizer que as câmeras mudaram a química. Ainda assim, foi justamente essa intromissão que deixou para o público um raro flagrante do Queen tentando transformar energia de palco em canção.
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