O músico que tocava demais e por isso foi cortado de álbum de Roger Waters
Por Bruce William
Postado em 22 de maio de 2026
Roger Waters nunca foi exatamente conhecido por deixar as coisas ao acaso. Quando uma música entrava em um de seus discos, ela precisava servir ao conceito, ao clima e ao peso dramático que ele tinha em mente. Isso valeu no Pink Floyd e continuou valendo em sua carreira solo. Por isso, mesmo um músico do naipe de Flea poderia acabar ficando de fora se a gravação não encaixasse no desenho geral.
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O caso aconteceu durante as sessões de "Amused to Death", lançado em 1992. O disco é um dos trabalhos mais ambiciosos de Waters fora do Pink Floyd, com participações de Jeff Beck em várias faixas, Don Henley dividindo os vocais em "Watching TV" e uma produção cheia de detalhes, efeitos e vozes espalhadas pelo campo estéreo. A ideia era construir uma crítica ao consumo de guerra, televisão, entretenimento e anestesia coletiva - não exatamente o tipo de álbum em que qualquer entrada mais "acesa" caberia sem risco.
Flea, naquele momento, vinha de outro universo. O Red Hot Chili Peppers já havia estourado com "Blood Sugar Sex Magik", de 1991, e ele era reconhecido por um jeito de tocar cheio de ataque, síncope, funk, energia punk e influência de baixistas como Larry Graham e Bootsy Collins. Mas também não era um músico limitado a esse papel. Flea sempre teve vocabulário amplo, ouvido para jazz e capacidade de se adaptar a contextos diferentes. Ainda assim, no disco de Waters, o problema não foi falta de habilidade.
Waters contou que "It's a Miracle" foi gravada três vezes. Na segunda tentativa, a faixa ganhou uma versão mais rápida, com Flea no baixo. O ex-Pink Floyd elogiou o resultado, conforme relatado na Louder: "Nós gravamos 'It's a Miracle' três vezes e, na segunda vez que gravamos, fizemos uma versão bem acelerada dela e Flea veio tocar baixo. E ele tocou maravilhosamente também. Ele foi ótimo. Eu adorei."
A questão veio depois, quando o álbum começou a tomar sua forma definitiva. A versão com Flea simplesmente não combinava com o restante do disco. Waters explicou que, ao montar o álbum, percebeu que aquela leitura mais acelerada "não se encaixava no contexto dinâmico do resto do disco". A solução foi voltar ao básico: ele e Patrick Leonard sentaram ao piano em uma tarde e regravaram a faixa de maneira mais contida. Em vez de aproveitar o prestígio de ter Flea no crédito, Waters preferiu cortar o que não servia ao tom final.
Essa decisão faz sentido quando se ouve "It's a Miracle" dentro de "Amused to Death", coloca a Far Out. A música aparece perto do encerramento, em um ponto em que o disco já está mergulhado em desencanto, ironia e cansaço moral. Uma versão mais viva, com baixo mais presente e andamento mais animado, poderia chamar atenção pelo motivo errado. Flea talvez fizesse uma grande participação, mas a música precisava de menos brilho e mais peso interno.
Também há uma pequena crueldade bonita nesse episódio: Flea tocou bem demais para uma versão que deixou de existir. Em outro disco, ou em outra música, aquilo talvez virasse destaque. No universo de Waters, porém, a pergunta não era "quem tocou melhor?", mas "o que mantém a arquitetura do álbum em pé?". E "Amused to Death" é justamente esse tipo de trabalho: mais preocupado com clima, narrativa e tensão do que com momentos isolados de virtuosismo.
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