O baterista do prog que Neil Peart achava estar acima dos outros; "tudo o que eu queria"
Por Bruce William
Postado em 05 de julho de 2026
Neil Peart virou referência para gerações de bateristas por um motivo simples e assustador: ele parecia pensar o instrumento como arquitetura. No Rush, cada virada, cada acento e cada mudança de compasso pareciam fazer parte de uma construção maior. Não era apenas força, nem apenas velocidade. Era bateria como composição.
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Mas Peart também teve seus próprios heróis. Antes de virar o nome que outros músicos estudariam com reverência, ele ouviu bateristas que mostraram caminhos possíveis. Entre nomes óbvios como John Bonham e Keith Moon, havia um músico menos popular fora do círculo progressivo que marcou profundamente sua cabeça: Michael Giles, do King Crimson.
Peart tinha enorme admiração pelo trabalho de Giles no álbum "In the Court of the Crimson King", lançado em 1969. O disco é uma das pedras fundamentais do rock progressivo, e a bateria de Giles ajuda a explicar por quê. Ele não tocava apenas para manter a música andando. Tocava como alguém que desenhava tensão, drama e movimento dentro das faixas.
Peart explicou isso em entrevista à revista Rhythm, em fala resgatada pela Far Out. Para ele, a bateria de Giles tinha "tudo o que eu queria". O elogio veio acompanhado de uma descrição precisa: "Era disciplinada e empolgante ao mesmo tempo. Ele estava incendiado pelo que fazia, mas tudo estava contido dentro de uma estrutura."
A frase poderia servir também para o próprio Peart. O que o fascinava em Giles era justamente essa combinação rara entre controle e risco. Muitos bateristas conseguem soar técnicos. Outros conseguem soar explosivos. Giles, na visão de Peart, fazia as duas coisas sem quebrar a música ao meio. "Sua construção de viradas, senso de tocar em conjunto e de orquestrar uma parte eram incomparáveis e muito subestimados", afirmou.
Esse ponto é essencial. Giles não era apenas um baterista cheio de recursos. Ele entendia a banda como conjunto. Em vez de despejar viradas por cima das músicas, parecia montar peças que conversavam com guitarra, baixo, vocais e clima. Em "21st Century Schizoid Man", por exemplo, a bateria participa do caos. Em outras passagens do álbum, ela respira com a música, segura a tensão e aparece no momento certo.
Não é difícil entender por que isso mexeu com Peart. O Rush também construiria sua identidade em cima de precisão, ousadia e partes cuidadosamente encaixadas. A diferença é que Peart levou essa lógica a uma escala própria, com suítes longas, mudanças bruscas e um kit usado quase como laboratório. Ainda assim, a semente estava em bateristas como Giles.
Michael Giles talvez nunca tenha recebido do grande público o mesmo reconhecimento dado a outros gigantes do rock. Mas, para Neil Peart, ele estava em um patamar especial. E quando um baterista como Peart diz que alguém tinha "tudo" o que ele procurava, a homenagem dispensa medalha.
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