A canção que virou uma despedida assustadoramente apropriada de Janis Joplin
Por Bruce William
Postado em 23 de agosto de 2026
"Get It While You Can" já existia antes de Janis Joplin chegar perto dela. A composição de Jerry Ragovoy e Mort Shuman havia sido gravada por Howard Tate em 1966 e teve repercussão modesta. Quatro anos depois, Janis decidiu levá-la para "Pearl" - sem imaginar que aquela interpretação acabaria funcionando como uma espécie de despedida involuntária.
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A música fala sobre uma ideia simples e nada confortável: ninguém tem garantia de amanhã, então vale a pena aceitar amor e afeto enquanto eles aparecem. Um dos versos centrais resume isso de maneira quase brutal: "Mas quem se importa, baby? Talvez a gente nem esteja aqui amanhã."
Janis gravou "Get It While You Can" em 1970 com a Full Tilt Boogie Band. Uma tomada de estúdio datada de 27 de julho daquele ano aparece nas sessões de "Pearl", e ela já vinha apresentando a música ao vivo alguns meses antes, inclusive no programa de Dick Cavett em junho.
Pouco mais de dois meses depois daquela sessão, em 4 de outubro de 1970, Janis morreu aos 27 anos. "Pearl" só seria lançado em janeiro de 1971, já sem sua autora-intérprete por perto para acompanhar a repercussão. O álbum termina justamente com "Get It While You Can".
A coincidência é forte o suficiente para alimentar aquela sensação de "premonição", mas vale separar as coisas. A canção não foi escrita por Janis, e não há evidência de que ela a tenha escolhido por acreditar que sua própria morte estava próxima. O peso profético apareceu depois, quando a letra passou a ser ouvida à luz do que aconteceu. A própria Time, ao resenhar "Pearl" em 1971, já chamava atenção para a ironia melancólica de o disco terminar com aqueles versos.
Janis, porém, falava com frequência sobre urgência, intensidade e conexão. Em uma declaração lembrada pela Far Out, explicou: "Meu propósito inteiro é me comunicar. O que canto é a minha realidade." Para ela, perceber que outras pessoas reconheciam aquela realidade era justamente a prova de que não estava falando apenas de si mesma.
Talvez por isso "Get It While You Can" tenha sobrevivido tão bem à coincidência macabra que veio depois. A música não precisa ser tratada como profecia para soar inquietante. Basta saber que Janis Joplin encerrou seu último álbum cantando sobre não virar as costas para o amor porque amanhã talvez não exista.
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