"Nocturnal" - o disco (quase) perdido do Shaman
Por Gleiner Ambrosio
Postado em 07 de agosto de 2026
A segunda formação do Shaman, composta pelo baterista e membro fundador Ricardo Confessori juntamente aos então novos integrantes "pós-debandada" Thiago Bianchi (vocais), Léo Mancini (guitarra) e Fernando Quesada (baixo) – para além da fundamental participação de Fabrizio Di Sarno, tecladista e orquestrador nos dois álbuns da formação e em shows –, apesar de ter sofrido duras represálias pelos fãs da banda insatisfeitos com o desmanche da formação clássica, alcançou, no histórico mais recente, uma reapreciação um tanto quanto tardia, mas muitíssimo bem-vinda: os álbuns Immortal (2007) e Origins (2010), além de seguirem uma construção atmosférica mais próxima do álbum de lançamento, Ritual (2002), em comparação ao subestimado Reason (2005), dispõem de composições bastante técnicas, melódicas, potentes e até experimentais em determinados momentos, mostrando que os músicos tinham criatividade e performance de sobra para manter o Shaman em alto nível.
Todavia, o surpreendente retorno de Confessori ao Angra trouxe um balde de água fria aos demais integrantes, haja vista que, em existindo algum tipo de conflito de datas, shows, gravações e lançamentos, o baterista haveria de priorizar o Angra – e é justamente neste ponto em que o Shaman começa a enfrentar problemas na presente formação.
Passados alguns anos após o lançamento e promoção do Origins, a banda já começaria a se reunir novamente para compor e gravar o próximo álbum. Ou melhor, quase toda: Confessori, devido aos seus compromissos com o Angra, não participaria da composição do disco – ato este um tanto quanto surpreendente, haja vista que o baterista era o único membro remanescente da primeira formação, além de um dos principais compositores da banda desde o início. Inclusive, a gravação de suas linhas de bateria ocorreria de forma separada dos demais integrantes – curiosamente, nos estúdios de Marcelo Pompeu, companheiro de Ricardo na época de Korzus.
Produzido por Russel Allen, lendário vocalista do Symphony X, "Nocturnal", como seria chamado o álbum perdido – que também contaria com Junior Carelli como tecladista efetivo da formação –, almejava uma sonoridade menos multiétnica e tribal em prol de uma abordagem de "Heavy/Progressive Metal" mais tradicional e agressiva, com timbragens de guitarra mais graves e vocais rasgados. A produção ser encabeçada pelo vocalista da banda progressiva americana é um grande indicativo dessa mudança.

Inclusive, de acordo com Ricardo, a banda havia gravado uma demo contendo cinco faixas (Nocturnal Human Side, Hate, Last Wish, Sugar Pill e Zombies) e enviado para várias gravadoras, de forma que boa parte delas recusou o financiamento do disco com a justificativa de que aquilo simplesmente não parecia Shaman, tamanha a diferença da nova abordagem.
Thiago Bianchi explica que tal mudança ocorreu, para além da evidente ausência do baterista na composição, devido à vontade dos demais integrantes em buscar um som menos amarrado aos elementos tradicionais dos discos anteriores, de forma que representasse aquilo que se comunicava mais com o que pretendiam apresentar, do ponto de vista sonoro, à época. Lembrando que Bianchi, antes de entrar no Shaman, integrou a banda "Karma", de vertente mais progressiva – o que não quer dizer que o Shaman não seja progressivo também (sempre defendi que Angra e Shaman são bandas de metal progressivo com elementos de power metal e música brasileira).
Em entrevista ao site "Road to Metal" em 2014 – já no contexto de lançamento do álbum do Noturnall (será detalhado mais adiante) –, o vocalista detalhou essa abordagem mais livre por meio da qual o álbum almejava em comparação ao Shaman nos dois primeiros álbuns:
"E o Shaman foi uma consequência disso, porque tive que me adaptar a uma realidade diferente: a realidade de uma banda que já existia e que já havia alcançado o sucesso. E eu simplesmente segui os passos de uma pessoa que já havia alcançado esse sucesso dessa forma: o cara (Confessori) trilhou um caminho, encontrou um caminho, e eu, a princípio, segui por esse caminho e depois encontrei o meu próprio caminho, como as coisas têm que ser no mundo natural (…) No nosso caso, sentimos que o Shaman nos fez ter uma identidade como banda, do ponto de vista de quatro indivíduos que se encontraram em uma realidade diferente, que era um certo tipo de música para alguém que esperávamos (...) porque não devíamos nada a ninguém, não queríamos agradar a ninguém e não queríamos ter nenhum vínculo, só queríamos fazer música para aqueles que precisavam ouvir música do jeito que gostamos de fazer."
Terminada a gravação do "Nocturnal", o álbum, de acordo com declarações de Fernando Quesada ao canal "Heavy Talk", já estava totalmente gravado e mixado, apenas aguardando a definição de uma data de lançamento (que ocorreria em 2013). Porém, provavelmente com vias de não conflitar com um "lançamento do Angra" (provavelmente o "Angels Cry 20th Anniversary", DVD ao vivo da banda em comemoração aos 20 anos do debut da banda paulistana), Confessori teria determinado que o álbum só poderia ser lançado no ano seguinte, em 2014, o que teria causado a insatisfação dos demais integrantes, que teriam proposto levar o álbum para um novo baterista e como parte de uma nova banda. E, assim, surgiu o "Noturnall" e seu álbum autointitulado no ano de 2014, que passaria a contar com Aquiles Priester em sua primeira formação.
Passados alguns anos desde tais eventos e inserida a discussão em todo este cenário de reapreciação da "Era Immortal" do Shaman, comecei a levantar todas as informações possíveis a respeito do "álbum perdido" da banda, perguntando aos integrantes sobre todo e qualquer fragmento possível dele, a começar pelo fundador da banda, Ricardo Confessori.
O baterista disponibilizou em seu canal para assinantes no Instagram importantes registros, quais sejam: o clipe da Nocturnal Human Side e as faixas da já mencionada demo do disco. E os comentários não poderiam ser mais do que elogiosos.
As faixas da demo possuem diferenças bem grandes em relação às faixas finais no álbum do Noturnall (com exceção da Nocturnal Human Side), chegando a ter letras bem diferentes em alguns casos (como em Hate e Zombies). Todavia, até o momento, é impossível de saber como ficaram as faixas na versão final de estúdio – com exceção, mais uma vez, da Nocturnal Human Side, cujo clipe corresponde à gravação final.
Nesta faixa – cujo clipe foi lançado oficialmente pela banda (ainda como "Shaman") em 2012 no Music Hall da Expomusic –, é possível identificar que a faixa é praticamente a mesma daquela lançada pelo Noturnall, com duas incríveis exceções: os elementos percussivos de Guga Machado estão mais presentes (inclusive com inserções inéditas) e, claro, a bateria de Ricardo Confessori, que traz uma abordagem completamente diferente daquela trazida pelo também genial Aquiles Priester.
Enquanto as linhas de bateria de Aquiles utilizam de um som mais acentuado dos bumbos (provavelmente devido ao uso de triggers) e emprega várias viradas "mais retas" nos tons e no surdo, Ricardo se utiliza, ainda que de um andamento igualmente veloz nos bumbos, de viradas e ghost notes entre os pratos e tambores mais "abrasileiradas" e, claro, de suas tradicionais polirritmias. A experiência é extremamente curiosa: é como se o Noturnall tivesse feito um álbum pesado, agressivo e moderno, mas com uma percussão com pitadas de Holy Land (1996). Provavelmente, tais elementos correspondiam à "cola" que preservava os elementos característicos do Shaman no álbum.
Ainda que, infelizmente, não seja possível estender tais comentários ao resto do álbum apenas pela faixa supra analisada, é possível identificar diferenças bastante interessantes. Além disso, ter um álbum tocado por dois dos maiores bateristas do metal nacional – e, vou além, dos mais criativos a nível mundial – é um fenômeno extremamente curioso e raro, cuja curiosidade comparativa daria uma aula de concepção de bateria em todos os sentidos!
Nesse sentido, em outra entrevista concedida ao canal "Thales Música Virtuose", Fernando Quesada compara a abordagem completamente diferente dos dois bateristas no álbum entre as versões do Shaman e do Noturnall, ressaltando as principais características de estilo entre eles:
"(...) ele (Aquiles Priester) entrou e colocou as bateras em cima. Claro, tem uma característica completamente diferente: o Confessori tinha mais essa "questão" Holy Land, de ser solto pra caramba, ter umas levadas meio com polirritmias (enquanto) o Aquiles é uma máquina de precisão e rapidez. Então são características bem diferentes."
Seja como for, ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de perguntar a quase todos os membros da banda a respeito do paradeiro deste disco. Até o momento, quem teve mais registros do álbum foi Ricardo Confessori, que disponibilizou de seu acervo pessoal, no já mencionado clube de membros do Instagram, o clipe da Nocturnal Human Side e a demo com cinco faixas do álbum.
Thiago Bianchi, em entrevista ao canal "Ibagenscast", ao ser questionado sobre o paradeiro do Nocturnal, disse que "está em algum lugar" e que talvez Marcelo Pompeu o tenha, já que gravou a bateria de Ricardo Confessori à época.
Seja como for, trata-se de um pedaço da história do metal nacional que merece ser encontrada em sua integridade e preservada, afinal de contas, não só o álbum lançado pelo Noturnall é simplesmente um dos grandes álbuns de metal nacional no séc. XXI e uma das peças "perdidas" do Shaman como, também, não é todo dia que aparece um álbum gravado por Aquiles Priester e Ricardo Confessori!
No heavy metal como um todo, a questão da preservação é uma das tônicas de maior importância possíveis. A título de exemplo, durante anos, circulavam bootlegs lendários de Eternal Idol (1987), polêmico álbum do Black Sabbath, com os vocais de Ray Gillen, porém, com péssima qualidade e em escassez. Em 2009, décadas depois, a banda britânica lançou uma deluxe edition do álbum contendo não apenas a gravação oficial como, também, um disco 2 com os vocais de Ray Gillen, agora com o devido tratamento de som.

Ainda mais, em se tratando de heavy metal nacional, o Brasil é referência em todos os tipos de segmento (do Thrash ao Progressivo), de forma que todo tipo de registro histórico de suas principais bandas é uma necessidade fundamental, algo que os fãs, em especial, sempre valorizaram. Logo, espero que, um dia, algum dos membros consiga localizar o álbum completo.
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