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Por Paulo Faria
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DESOLATE WAYS
Tearful
(2007, Erpland Records)

Como eu já disse anteriormente, acredito que as bandas de gothic/doom metal brasileiras, numa imensa maioria, estão na vanguarda, e particularmente, sou um grande entusiasta da cena metal brasileira num todo, mais especificamente da cena gótica. Sendo assim, eu não poderia abrir esta quarta parte sem apresentar, claro, mais uma banda brasileira. E o problema aqui em apresentar o DESOLATE WAYS para vocês foi "qual disco escolher". Exatamente, meus caros. Esta banda de Torres, Rio Grande do Sul, gravou três álbuns com uma qualidade (em todos os aspectos) tão acima da média que é de deixar muita banda gringa envergonhada. Então, por motivos pessoais, resolvi vos apresentar este "Tearful" – segundo disco do DESOLATE WAYS, lançado em 2007.

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Para começar, eu vou repetir aqui algumas palavras da própria banda em seu release oficial: "O primeiro álbum possui nuances góticas e sombrias, sem comprometer a proposta da DESOLATE WAYS em ser uma banda de heavy metal, criando uma sonoridade que poderia ser classificada como metal introspectivo". Exatamente, caras-pálidas! O DESOLATE WAYS ao longo de sua carreira fez heavy metal com nuances góticas e sombrias, e isso não se aplica só ao primeiro álbum como a própria banda afirma: no segundo, "Tearful", isto fica ainda mais explícito. Peso e melodia sempre lado a lado, solos e riffs inspiradíssimos e uma aura soturna permeia todo o disco numa produção riquíssima.

A proposta da banda é fazer um metal com inspiração nítida em PARADISE LOST ("Draconian Times") e METALLICA. Mas não se trata de cópia. O DESOLATE WAYS conseguiu pegar a inspiração e transformar em algo próprio. A comparação mais evidente está no fato de o timbre do vocalista Max Lima se assemelhar muito ao de Nick Holmes e, por vezes, ao de James Hetfield.

Aqui você está diante de um álbum perfeito em todos os sentidos, e assim como o "Draconian Times", do PARADISE LOST, é impossível saltar alguma faixa durante a audição.

A banda lançou três álbuns: "Eternal Dreams (2003) ", "Tearful" (2007) e "Last Moons" (2009), e logo em seguida encerrou suas atividades o que foi uma grande perda para o metal. Se por acaso você não conhece o DESOLATE WAYS, recomendo a você que está lendo este texto não ouvir apenas "Tearful", mas toda a discografia do grupo.

DRACONIAN
Under a Godless Veil
(2020, Hellion Records)

"Under a Godless Veil" é o sétimo álbum oficial do DRACONIAN, lançado em outubro de 2020, portanto, um lançamento recente.

Este lançamento foi muito esperado pelos fãs dada a repercussão da música "Sorrow of Sophia" quando o grupo (ou a gravadora Napalm Records) decidiu soltá-la ao público pelo YouTube há mais ou menos seis meses. Mas por que a repercussão? Porque a música é muito, mas muito bonita! Eu cravo aqui que "Sorrow of Sophia" está entre as canções mais comovente do doom metal de todos os tempos. (Deixe eu abrir um parêntese rápido aqui: Há pelo menos 10 anos, nenhum lançamento de doom/gothic me impressionou. Há pelo menos uma década eu esperava por um lançamento realmente, digamos, profundo. E por acaso, um dia no meu trabalho, eu estava ouvindo músicas pelo YouTube aleatoriamente quando de repente "caiu" na faixa "Sorrow of Sophia". Minimizei a página do Word e fui conferir "de que banda se tratava". Para minha surpresa era uma canção nova do DRACONIAN. Confesso que aquilo me causou bastante expectativa quanto ao lançamento do CD. Veja bem: eu conheço toda a discografia da banda, e para mim, os lançamentos após "The Burning Halo", de 2006, não me causaram grandes impressões. "Turning Season Within" (2008), "A Rose for the Apocalypse" (2011) e "Sovran" (2015) me pareceram lançamentos irregulares, com alguns bons momentos e só. Parecia que a banda tinha perdido a inspiração. Por isso eu divido o DRACONIAN na minha vida da seguinte forma: amo os três primeiros e passei a não me interessar muito pela banda a partir do quarto lançamento, até o surgimento de "Under Godless the Veil"...)

Voltando. Eu fui um dos que entoaram o coro dos contentes e fiquei muito ansioso quanto ao lançamento do novo disco à medida em que a banda divulgava músicas pela internet, a capa, enfim... até que no dia 30 de outubro de 2020 a ansiedade acabou. Encomendei o disco e quando o mesmo chegou, aquele jejum de 10 anos sem ver uma verdadeira obra-prima do doom/gothic foi quebrado. Avaliando todas as nuances das músicas e toda parte gráfica é possível dizer: é mais um álbum que nasceu clássico.

As músicas: o disco abre com a dolorosa "Sorrow of Sophia", lenta e progressiva. Esta música além de me deixar com o sentimento de tristeza, me deixa também com uma nostalgia inexplicável (aliás, todas, mas especificamente essa). Em seguida, vem a soturna "Sacrificial Flame" e daí até a faixa 10, "Ascend into Darkness", o que se tem são faixas extremamente inspiradas, melancólicas, belas e nostálgicas. A produção do disco está perfeita, deixando o disco extremamente pesado. Os riffs de guitarras estão monstruosos e os vocais de Anders Jacobsson brutais. Heike Langhans canta com uma dor e um sentimento inexplicáveis. Neste lançamento, as vozes estão muito bem contrastadas e dosadas, diferente dos últimos lançamentos no qual Anders é o protagonista. Enfim, dor, nostalgia, melancolia e peso, tudo milimetricamente bem feito. Além disso, é o disco mais pesado e arrastado da discografia do grupo.

Na parte gráfica a banda também não desapontou: a capa é uma das mais belas do estilo de todos os tempos: romanticamente mórbida. No encarte a banda se valeu do tom escuro com o verde e o amarelo.

A versão nacional lançada pela Hellion vem numa linda slipcase com a logomarca da banda escrita em alto-relevo dourada e um pôster 24x24. Definitivamente, a banda pensou nos mínimos detalhes e acertou em cheio: "Under Godless the Veil" possivelmente vai ser aclamado pelos fãs como o "melhor" trabalho do DRACONIAN. Eu acredito que também seja. A banda evoluiu muito em todos os aspectos para entregar um disco primoroso e acredito que o tempo vai se encarregar de colocá-lo na estante junto aos "maiores" do doom/gothic.

Antes de terminar vale dizer três coisas aqui: a primeira é que "Under Godless the Veil" é um álbum conceitual, baseado na corrente filosófica "Gnoticismo"; segundo, a banda insiste em não usar teclados. Exatamente. Neste disco não há teclados em nenhuma faixa; apenas em "Sorrow of Sophia" que há instrumentos de corda para dar aquele ar neoclássico e atmosférico; a terceira: fiz uma análise deste álbum na "parte 2" desta série aqui para o Whiplash, porém, em formato de vídeo. Achei que ficou muito longo a resenha (cerca de 14 minutos) e não tão explicativa, portanto, voltei na terceira parte da forma clássica (com a escrita), e percebi que eu deveria tratar deste álbum de forma mais analítica, por isso ele está aqui, na "parte 4". Mas se por acaso o leitor tiver curiosidade quanto minha análise em vídeo.

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DARK SANCTUARY
De Lumière et d’ Obscurité
(2000, Wounder Love Records)

Depressão é o nome disso aqui. Se você está procurando uma extensa marcha fúnebre para viajar, este disco do DARK SANCTUARY é a melhor escolha para você.

Vinda da França, o tema central desta banda (que canta em sua língua materna) é a morte. "De Lumière et d’ Obscurité" é o seu segundo álbum e é o mais triste e melancólico de toda a sua discografia (e eu o considero o mais melancólico entre todos que já ouvi...)

A banda passeia com desenvoltura pelo "dark atmospheric", o "neoclassical" e o "folk", e neste "De Lumière et d’ Obscurité", o que ouvimos é exatamente canções que fazem uma verdadeira ode à morte envoltas de uma atmosfera obscura e depressiva. Não há guitarras com distorção ou chorus ou delay... a atmosfera sombria é construída por teclados (muitos!), violinos (muitos!), vozes murmuradas, barulhos de chuva e gaita de foles. Também não há bateria, que em seu lugar, entra instrumentos de percussão e o contrabaixo existe ora ou outra apenas para "marcar" a mudança do lento andamento das canções.

A atmosfera sorumbática que este sexteto francês conseguiu criar é angustiante (no bom sentido). Apesar das músicas serem longas e com acordes repetitivos, a banda conseguiu recriar em estúdio melodias extremante obscuras, e elas fluem como um belo convite à eternidade. O doloroso vocal feminino reforça este conceito misturado aos instrumentos que citei acima. Ouça "Au Milieu des Sépultures" (No Meio das Sepulturas), faixa oito do CD, e veja se não parece um coral de anjos "te chamando" envolto a melodias que parecem ter sido oriundas do "além". De fato, é sim, um disco muito depressivo.

Numa das edições da revista Rock Brigade de 2000, saiu uma resenha feita pelo jornalista Ricardo Franzin que deu a este disco a nota 1, a menor nota, e de forma bastante engraçada encerrou a resenha dizendo "que a melhor coisa que estes franceses deveriam fazer é subir na torre Eiffel e se jogarem de lá". Exagero do jornalista. É evidente que não se trata de um disco de metal; o negócio aqui é outra proposta: é um disco extremante melancólico para pessoas que gostam de discos extremante melancólicos.

THEATRE OF TRAGEDY
Velvet Darkness They Fear
(1996, Massacre Records)

É aqui o "começo de tudo". Não, na verdade, o "começo de tudo" foi com CANDLEMASS. Ou terá sido com BLACK SABBATH? Brincadeiras à parte, precisar com total certeza quando surgiu o ‘doom’ é coisa para "críticos". Já li que a primeira banda a fazer doom foi o BLACK SABBATH, mas a quase unanimidade dos "críticos" cravam que foi o CANDLEMASS, mas isto é assunto para outra hora.

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O PARADISE LOST já havia, timidamente, dado amostras de como unir vozes guturais com vozes femininas. Mas foi com o THEATRE OF TRAGEDY que isto foi elevado à categoria de arte suprema.

"Velvet Darkness they Fear" é uma obra tão perfeita que é difícil descrevê-la. Este disco simplesmente dividiu o doom/gothic metal em "antes" e "depois", e muitos dos seus pares que vieram após, apenas repetiram o expediente "a bela e a fera" com muito menos categoria.

E por que "Velvet Darkness they Fear" é tão "diferente" assim? Este álbum é extremante lírico, romântico. O conceito "a bela e a fera" aqui se casa com perfeição, pois não é só uma mina cantando e um sujeito urrando. Ambas as coisas se dialogam. Quando você põe o disco para rodar faixa a faixa, a impressão que dá é que a banda está interpretando uma peça teatral. As vozes masculinas e femininas se unem numa perfeição única. A faixa "And When the Falleth" é um bom exemplo do que estou dizendo aqui; é uma música em que os "personagens", no caso o cantor Raymond István Rohonyi e a soprano Liv Kristine Espenæs dialogam literalmente entre si como se tivessem interpretando de fato uma peça. Além disso, o disco é cantado em inglês arcaico, o que dá um charme erudito à obra.

Erudito, romântico, lírico, teatral... não importa o adjetivo que se escolha para definir o segundo álbum do THEATRE OF TRAGEDY. Talvez sejam todos os adjetivos citados juntos e mais. A verdade absoluta é que "Velvet Darkness they Fear" é uma obra-prima irretocável e que mudou os paradigmas do doom/gothic para sempre. É um trabalho definitivo.


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Sobre Paulo Faria

Paulo Faria tem um montão de anos; é um amante do cinema de horror, literatura e rock 'n' roll. É professor por formação, humorista por conveniência, músico por obsessão e escritor por aspiração.

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