Angra: entrevista com Kiko Loureiro no My Guitar

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Por Junior Frascá, Fonte: My Guitar
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O guitarrista Kiko Loureiro, do ANGRA, um dos nomes mais influentes das seis cordas no mundo atualmente, concedeu uma completa entrevista para Diego Pena e Junior Frascá, do My Guitar, durante sua passagem pelos EUA, especificamente em Los Angeles. Na referida entrevista, Kiko aborda temas como quem é a sua maior influência, os percalços de se estar em uma banda e, mesmo assim, seguir em frente, processo de composição, a nova fase do ANGRA com Fabio Lione, carreira e muito mais. Seguem alguns trechos da entrevista:

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My Guitar: Atualmente, qual sua opinião sobre os discos “Aurora Consurgens” e “Aqua”? Eles corresponderam às expectativas da banda em termos de vendas e reconhecimento pelos fãs?

Kiko: Em termos de venda hoje em dia é complicado falar, porque as vendas de discos estão em declínio desde o começo dos anos 2000, pois houve uma mudança no mercado fonográfico que afeta todos; houve uma mudança de comportamento de todos, inclusive meu, em relação a como ouvir música, como comprar. Passou para o itunes, que hoje também parece estar com os dias contados, e agora é o streaming, e a gente já sabia que isso ia acontecer há pelo menos uns 10 anos atrás, quem acompanha o mercado já sabia. O que é novidade mesmo é o youtube se tornando rádio e coisas assim. Por isso, em termos de venda, não me interessa muito, eu acho que o reconhecimento dos fãs é importante, e a sensação em relação aos álbuns, como eles se comportam na história da banda quando você enxerga o álbum com uma visão mais longa temporal. Esses dois álbuns citados, assim como o próprio “Fireworks”, refletem momentos conturbados de relação pessoal dentro da banda. Eu gosto de muitas músicas nesse álbuns, e do próprio conceito, eu acho muito legal. Mas sinto assim que, para se ter um bom álbum, aquele que fica marcante, como um “Black Album” do Metallica, um “Painkiller”, um “Back in Black”, um “Powerslave”, um “Dark Side of the Moon”, toda banda tem os seus álbuns fantásticos nos quais acontece uma grande congruência de coisas que é muito difícil saber o que rola, porque os álbuns ficam incríveis. É uma vontade de fazer um som melhor, misturado com o momento do mercado, com o clima pessoal de cada, apoio de gravadora, maneger, momento de família do cara, criatividade no momentos dos membros, sei lá o que que é. O tempo de conclusão do material. Alguns álbuns que gostamos muito, como o “Holy Land”, por exemplo, que foi muito bom, a gente se fechou em um sítio, e foi criando coisas diferentes. A gente tentou fazer isso no Aqua, mas foi em um tempo muito mais curto, e muitos preocupados com outras coisas de família. Eu acho que muda muito. São várias coisas, é difícil entender. Em todo disco você busca fazer o seu melhor, mas nem sempre a banda está afinada, o momento está afinado, e várias outras coisas em volta estão a favor. As vezes você acaba de sair de uma tour longa, e já marcou o lançamento do novo disco, e tem que voltar pras gravações sem estar totalmente preparado e no clima. Ou seja, há uma série de coisas que podem afetar. Eu acredito que esses dois álbuns, além de outros do Angra, também tem suas músicas boas. Eu sinto que quando uma álbum tem mais músicas que chamam a atenção, é porque você teve mais tempo para trabalhar as músicas, teve mais tempo para um colaborar com o outro, dando uma riqueza no final das contas. Também com o produtor tendo mais tempo para opinar, a música amadurece mais. Acredito que tem muitas músicas boas que acabam não se tornando hits para os fãs, mas que tem melodias muito boas, mas as estruturas não ficaram tão definidas, alguma parte meio que se perde, alguns riffs poderiam ser mais aprimorados; coisas assim que na hora você acha que está legal, mas depois você observa de outra maneira. Mas isso até em músicas que os fãs gostam muito, tem vezes que eu ouço e penso “puxa, poderia melhorar aqui, melhorar ali”, poderia ser um pouco mais lapidado. Eu acho que o grande trabalho do artista é muitas vezes você conseguir lapidar sua boa idéia, tirando os excessos, e deixando a estrutura bem montada, as tonalidades e passagens perfeitas. Isso as vezes acontece de forma natural, as vezes você tem que ficar batalhando muito. Tem pessoas que tem um talento mais fácil de chegar nessa lapidação, outros não. Por isso digo que tem muito a ver com a congruência de todos da banda para chegar nesse ponto.

My Guitar: Após estes álbuns, o ANGRA passou por um período turbulento no final de 2011, que culminaram com a saída do vocalista Edu Falaschi, tendo a banda passado por um período de pausa até o retorno no final de 2012, com o vocalista convidado Fabio Lione. Conte-nos um pouco sobre como foi esse período da carreira da banda. Vocês realmente chegaram a pensar em encerrar a banda, como alguns boatos davam conta no início deste período?

Kiko: Esses períodos turbulentos na verdade acontecem em todos os momentos da banda. Eles variam com outros de calmaria e bonança. Isso acontece sempre. Não tem essa de um período que sempre foi uma maravilha. Sempre tem uma dinâmica, como se fosse uma família, com pessoas colocadas em situações muito extremas muitas vezes, com viagens longas, longe da família, se alimentando mal, dormindo em lugares diferentes. Tem o lance legal de viajar, mas tudo é muito cansativo. Então você tem que viajar, já chegar e já tocar; as vezes o equipamento não chegou, ta ruim o som, você ta cansado e tem várias entrevistas e autógrafos para fazer, e você tem que correr pra ir para o show. Há várias coisas extremas que estressam. E tem a parte legal do show, que você se desgasta, mais é há uma relação muito emotiva com os fãs, muito legal. Assim, há muitos ápices emocionais, as coisas boas e as ruins do dia a dia. De repente você tem no dia um show muito legal, lotado, com a galera animada, e no outro dia você tem que acorda muito cedo, com aquela cara de zumbi, para pegar o vôo e ir para outro lugar para outro show. Então, tudo isso te deixa vulnerável a situações cansaço, “saco cheio”, e outros muito legais, de banda em si, de amizade, de risadas, de estar junto ali; mas em outros você queria estar em casa, com a família, mas tem que ficar sempre junto com as mesmas pessoas por um longo período de tempo.

Portanto, os momentos turbulentos sempre existem. Esse negócio de achar que quando tem a saída de um membro, quando alguma coisa vaza, na verdade o período turbulento já passou, ficam algumas mágoas, mas na realidade isso já foi, ficou em um período anterior que os fãs achavam que estava tudo rolando nas mil maravilhas. É que vai tudo acontecendo, vai ficando algumas mágoas, e chega uma hora que acumula e alguém fala que quer sair, ou a banda decide tirar o cara. Eu vejo bem diferente essa relação, pois quem está dentro vê a coisa totalmente diferente do que aparenta para quem está de fora.

My Guitar: Podemos afirmar que Fabio Lione ó o vocalista efetivo da banda, ou ele ainda é um músico convidado?

Kiko: O Fabio está com a gente efetivamente. Foi algo que aconteceu naturalmente, ele começou como convidado, e ficou aquela coisa “fica ou não fica”, e nós até chegamos a cotar alguns músicos brasileiros para cantar na banda. Mas na época teve tanto pedido de show, o pessoal querendo contratar o Angra com o Fabio Lione, fizemos várias turnês, e acabamos decidindo meio rápido de fazer o DVD em SP, no HSBC, e dai a coisa deslanchou, e vimos que estava tudo dando muito certo, e seguimos a máxima do “time que está ganhando não se muda”. E temos curtido muito estar ai com o Fabio do lado, que tem sido muito bom.

My Guitar: Embora você e Rafael continuem sendo os principais compositores da banda, você acredita que os novos integrantes trouxeram algo a mais na sonoridade de “Secret Garden”?

Kiko: Todos ajudam muito. O Felipe é super participativo, o Fabio trouxe muitas melodias. Nós sempre fomos abertos. Algumas bandas gringas você vê que são sempre os mesmos caras né. Isso vem desde os Beatles, a maioria era tudo Lennon/McCartney. O Ringo até compunha uma ou duas coisas, e o George também. E desde essa época várias bandas seguem essa regra né. Mas dentro do Angra a gente sempre está aberto para quem traz música, quem compõe. O Edu, por exemplo, era um super compositor, sempre trouxe muita coisa boa para a banda, inclusive algumas ótimas parcerias. O Felipe também está cada vez mais a vontade compondo, e participou bastante com letras, riffs, melodias e tudo mais. E o Fabio também é um cara mais empírico, improvisa umas melodias legais em cima dos riffs que estamos fazendo. Então deixamos bem aberto para ele participar. O Bruno, como entrou depois, não chegou a participar dessa fase mais embrionária das composições, participou mais dos arranjos finais. Mas também estamos abertos para o caso se ele trouxer novas músicas.

My Guitar: Esse lado mais intimista e emotivo do novo álbum é reflexo dessa fase turbulenta que a banda passou nos últimos anos?

Kiko: Eu não sei se ele é mais intimista e emotivo cara. Ele tem que ser emotivo pois as músicas sempre são emotivas. Por exemplo, mais emotivo que o “Rebirth” não tem como. A gente querendo fazer música para mostrar que era capaz e tal, provar para nós mesmos que podíamos seguir. Mais emotivo que “Angel’s Cry”, no qual era um monte de moleques querendo mostrar para o mundo que também era capaz. O próprio “Holy Land”, no qual a gente queria mostrar um certa brasilidade, inclusive para o próprio produtor, que era o mesmo do disco anterior, que a gente tinha umas idéias malucas e diferentes. Sempre muito emotivo. E lado mais intimista até pode ser, mas eu acho que isso é uma percepção bem pessoal. Até porque em discos como “Rebirth”, “Temple of Shadows”, estávamos também com partes turbulentas. Alias, gravar um disco é um parto, e é tudo muito turbulento. Se um dia escrever um livro, uma biografia, dá pra escrever várias coisas turbulentas de cada período de produção e pré-gravação dos nossos discos.

My Guitar: Há uma diferença nítida de produção ente o “Aqua” e o “Secret Garden”. Como isso acaba influenciando no processo de composição das músicas?

Kiko: Realmente, a produção do “Aqua” tem uma nítida diferença, sem dúvida. O “Aqua” foi gravado no Brasil, com um orçamento bem menor, e o “Secret Garden” tinha um orçamento bem maior. Resolvemos também gravar 2 clips, inclusive um vai ler lançado agora, foi gravado no Museu da TAM. O álbum é uma super produção, foi gravado na Suécia, chamamos o Roy Z para participar. Nós fizemos um planejamento pra isso acontecer, apesar de o mercado ditar completamente o contrário: que você gasta muita grana e esse dinheiro não volta. Mas nós achamos importante deixar um disco bem gravado, assim como o último DVD gravado em São Paulo no HSBC Brasil. A produção não influencia no processo de composição, mas os arranjos e a sonoridade final importam bastante, dá uma outra cara pra música, dá um impacto. A pessoa ouve melhor, se emociona mais, porque o som também conta. O arranjo, os teclados, as vozes, a coisa bem afinada, bem conduzida, com profundidade. Profundidade no sentido de que a pessoa ouve o disco várias vezes e consegue reparar em uma série de detalhes que fazem com que a pessoa “entre mais” na viagem sonora, não só da música e da harmonia, mas também dos arranjos, dos sons, delays, efeitos. No nosso estilo, isso conta muito. A produção não influencia na composição em si mas, com certeza, faz com que as composições cresçam.

My Guitar: Sua capacidade de improviso e construir belas melodias e solos melhora a cada trabalho lançado. O que você tem estudado nos últimos anos para aperfeiçoar sua sonoridade?

Kiko: Eu não tenho estudado nos últimos anos. Eu tinha que estudar mais, eu estudei mais quando era moleque. Eu toco mais, reparo mais, seleciono mais, e busco alguns detalhes que possam fazer o estilo, que possam fazer uma identidade. Existem ótimas melodias e ótimas coisas em outros trabalhos. Com o passar do tempo a gente tem mais facilidade e mais experiência. Mas facilidade de entrar e não ter medo de arriscar, de mostrar as ideias. E quanto menos medo você tem de arriscar, mais a criatividade flui. É bem simples, você trava menos. Cada vez mais você tem discernimento do que você já fez, pra onde tem que ir para não se repetir.

My Guitar: Os fãs do Angra, e do seu trabalho solo também, com certeza tem uma lista de músicas/solos que você fez como as favoritas. E pra você, quais são seus solos ou músicas favoritos, daquelas que quando ficaram prontas você pensou “essa ficou do ca…”?

Kiko: Cara, é assim: tem as músicas que a gente curte, tem as músicas que a gente curte e sabe que a galera curte, tem as músicas que a gente curte porque faz tempo que não toca. Por exemplo, se alguém pedir assim “Kiko, toca Streets of Tomorrow”, eu vou curtir porque eu vou lembrar, porque faz tanto tempo que eu não toco essa música que eu vou curtir. Toda vez que a gente “resgata” uma música que faz tempo que não toca, vai tocar “Running Alone”, a gente lembra daquela época, lembra do momento, então você curte mais pelo fato de estar tocando uma música que fazia tempo que não tocava. Aí tem músicas muito boas, pelo fato de terem nascido muito espontaneamente, de uma forma rápida, tipo “Rebirth”, “Angels and Demons”, músicas que saem em uma tarde, o que é impressionante, saem quase prontas. São músicas que eu gosto não por serem melhores que as outras, mas pela forma que elas nasceram. Eu gosto de músicas que eu fiz como “Sprout of Time”, “Morning Star”, músicas diferentes assim. E gosto bastante de músicas que os outros caras da banda fizeram, como a “Gentle Change” que o Rafa fez, “Holy Land” que o André fez, “Lease of Life” que o Edu fez, “Whishing Well”. Curto muito essas músicas porque são músicas que eu não conseguiria ter feito, entende. É muito bom estar rodeado de compositores tão talentosos. E solo é a mesma coisa. Eu curto muito os solos do disco “Fireworks”, que são solos muito improvisados. O produtor deixava a gente gravar e não ficava em cima “faz de novo aqui, corrige ali…”. São solos longos que ficaram muito naturais. Não que os outros não sejam, mas não tinha o produtor do lado deixando a coisa super perfeita, como no “Temple of Shadows” por exemplo, que tem uma dobras que a gene fez à exaustão até o negócio ficar mega perfeito.

A entrevista completa pode ser lida no site My Guitar, no seguinte link:

http://myguitar.com.br/entrevistas/kiko-loureiro-entrevista-...

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Post de 21 de março de 2015


Sobre Junior Frascá

Junior Frascá, casado, é advogado, e apaixonado por heavy metal em todas as suas vertentes (em especial thrash, stoner, doom e power metal) desde seus 15 anos. Também é fã de filmes de terror e séries americanas, faz parte da equipe da revista digital Hell Divine e do site My Guitar, e é guitarrista da banda de metal tradicional MUD LAKE.

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