Kiko Loureiro: como ser um grande guitarrista, vendedor, etc
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Fonte: Daniel Tavares
Postado em 17 de maio de 2014
Além das atividades com o ANGRA e com o KIKO LOUREIRO TRIO, o guitarrista Kiko Loureiro ainda escreve colunas para revistas especializadas em guitarra, ministra workshops em que demonstra suas técnicas nas seis cordas (veja a resenha de um deles no link abaixo) e palestras focando o mundo empresarial, como a que ele ministrou nesta noite de terça-feira, 13 de maio, a convite do CDL Jovem de Fortaleza, no interior da Faculdade CDL (do Clube de Diretores Logistas de Fortaleza).
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Após a palestra tivemos uma rápida entrevista com Kiko (que se mostrou bastante atencioso e até elogiou a camisa do Whiplash.net).
Quais os próximos planos para o ANGRA?
Kiko Loureiro: Após a turnê comemorativa de 20 anos de lançamento do "Angels Cry", se apresentando em cidades onde eles não passaram no ano passado (estão repetindo apenas Fortaleza e BH) e divulgando o DVD gravado em São Paulo no ano passado, eles se apresentarão no Hellfest, na Europa, e entrarão em estúdio para iniciar os trabalhos no novo álbum (o primeiro com os dois novos membros, o paulistano Bruno Valverde e o italiano Fabio Leone).
A substituição do Ricardo Confessori pelo Bruno Valverde na posição de baterista parece ter sido bem mais tranquila que a do vocalista ano passado. O que você poderia dizer sobre isto?
Kiko Loureiro: O Rafael está passando por mudanças da vida, com filho, talvez abra uma escola de música, algo para o qual não precise viajar tanto. O Bruno já toca comigo e com o Felipe Andreoli há um ano, no KIKO LOUREIRO TRIO, já conhecemos o trabalho dele e temos um bom relacionamento. Então foi bem menos complicado.
E sobre os shows de Fortaleza (em 24/05, no Complexo Armazém), Natal (em 25/05, no Armazém Hall) e outras cidades do Nordeste com a banda pernambucana TERRA PRIMA, o que você pode adiantar?
O show continuará focando no DVD "Angels Cry 20th Anniversary Tour", mas teremos alterações no repertório em relação ao show do ano passado. Estes shows serão ainda melhores. Naquele show eu estava com febre. E ainda tivemos o problema com o atraso da companhia aérea. Esperamos rever todos lá.
Além disso, durante a palestra, Kiko, entre outras estórias curiosas, contou sobre como foi o lançamento da demo "Reaching Horizons" (1992) e do disco "Angels Cry". "Quando você tem uma visão e uma estratégia, só falta agir. A gente queria tocar heavy metal, no país do forró e ainda queria ser sofisticado. A gente também achava que é fundamental dentro de um time respeitar as diferenças e usá-las a favor do todo". Foi assim que a demo chegou em fita cassete ao Japão, atraindo o interesse de um produtor de lá que financiou a gravação do CD. Os então componentes da banda, resolveram investir todo o dinheiro recebido (80 mil dólares) gravando em um estúdio na Alemanha. "Poderíamos ter feito menos, mas usamos todo esse dinheiro, além do dinheiro que a gente tinha, porque a gente acreditava que você nunca tem uma segunda oportunidade pra primeira impressão". O produtor alemão, no entanto, teria vetado a participação do baterista Marco Antunes, que foi substituído, na gravação, por Alex Holzwarth (RHAPSODY OF FIRE). No fim, tudo deu certo. Com a visão, o propósito que nós tínhamos, apesar de todos os problemas (ter gasto todo o dinheiro, o produtor alemão, o baterista), conseguimos ser disco de ouro no Japão, vender cem mil cópias num mercado super exigente como o japonês, competindo com as melhores bandas do mundo.
Ele também contou como conseguiu a carteirinha de músico da OMB (requisito para integrar a banda de apoio do grupo vocal DOMINÓ, que fez sucesso nos anos 80). Teve que vestir um terno para tirar a fotografia, mas ao chegar no local onde haveria a audição, a senhora que o atendeu exigiu-lhe que tocasse apenas o primeiro acorde de uma música na guitarra. Seu colega baterista do DOMINÓ foi atendido pela mesma senhora e, na falta de uma bateria na sala, ouviu: "pois batuque alguma coisa aí na mesa que está bom".
Sobre como se tornar um grande guitarrista ele disse: "Talento não existe. Eu sabia que não tinha talento. Tive muita dificuldade para fazer um fá maior. A mão doía e eu tinha vontade de desistir. Tinha 11 anos. Mas para tudo é preciso dedicação. Então, com o passar dos anos eu fui me organizando para estudar igual fazia no colégio. Assim como numa quarta temos aula de matemática, numa quinta de geografia eu fazia tabelas, com acordes, ritmos, etc. E treinava, treinava. Os grandes esportistas sempre ficaram depois do treino. Você não perde peso sem fazer dieta e exercício.
Ele adicionou: "Existe uma coisa chamada 'Hora da verdade', em que é preciso ter confiança no que você sabe fazer e fazer aquilo para o qual você treinou muito. Quando abrimos para o AC/DC (acho que todo mundo conhece essa banda), éramos uns moleques, mas estávamos confiantes, treinamos muito. Pra piorar, o show estava atrasado, entramos na hora em que a banda principal já deveria estar no palco. Tinha cara com o dedo médio em riste na plateia, mas a gente não olhava pro cara. Chegou a hora de tocar e a gente foi lá e fez o que sabia. Quanto mais você estuda, quanto mais confiante está, mais fácil fica ligar os pontos daquilo que você está estudando e ficar mais criativo, encontrar soluções que ninguém mais achou.
Na música tem uma coisa muito importante. Erre. Não erre por displicência, por que não treinou, senão você está fora da jogada. Erre porque tentou algo novo, porque está experimentando. Como disse MILES DAVIS: qualquer um que não tenha cometido um erro, nunca tentou algo novo".
Ele continuou: "é preciso buscar soar diferente, ao invés de ser o melhor. Quando eu comecei, meu professor era melhor do que eu, afinal ele era mais velho, tocava há muito mais tempo. Hoje, tem menino chinês que de cinco anos que é bem melhor do que você. Então, você tem que ter algo que te diferencie. Jimmy Page usava um arco de violino pra tocar guitarra (e quem toca sabe que isso não adianta nada, não sai nada), mas o diferenciava. Bob Marley criou um estilo que ninguém conhecia. O meu diferencial era a influência de música brasileira no rock e vice-versa".
Kiko ainda falou sobre diversos outros assuntos, como consistência de mensagem e sobre como tratar os fãs como clientes, atendê-los ao invés de atraí-los, o tema principal da palestra e que obviamente não transcreveremos aqui (não importa a sua profissão, quando o homem estiver dando uma palestra sobre esse tema, vale a pena conferir). Ao final da palestra, a própria produção endereçou uma pergunta a Kiko:
Como será o Kiko daqui a 20 anos?
Você tem que estar sempre estudando, sempre ensinando. Mantendo a ética (faça o que você fala). Eu me enxergo na cena do Titanic (barco afundando... os caras tocando...).
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