Machinage: tocando como músico, e não como capacho

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Por Ben Ami Scopinho
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Como não tecer elogios às bandas que estão conquistando seu espaço seguindo seus próprios termos, e não cedendo à pressão de pessoas inescrupulosas? O Machinage é um exemplo vivo desse fato, debutando agora com "It Makes Us Hate", um petardo Thrash Metal que está permitindo que encarem pela segunda vez os palcos dos EUA. Na entrevista a seguir, os paulistas de Jundiaí traçaram paralelos entre a cena norte-americana e a brasileira, suas conquistas e muito mais. Sem dúvida, um exemplo para a nossa cena underground!

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Whiplash.Net: Olá pessoal! Ainda que com pouco tempo de estrada, o nome Machinage já conseguiu uma considerável repercussão por aí. Que tal começarmos com uma breve biografia da banda?

Fábio Delibo: Tudo bem! A banda foi formada em 2007 por mim e pelo Fernando Kump em uma fase que estávamos de saco cheio de tocar músicas dos outros, todos tínhamos outras bandas e as coisas nunca andavam como queríamos, apesar de ser divertido. É aquela coisa, estávamos de saco cheio de "gozar com o p... dos outros" e eu já tinha muitas músicas escritas, o Fernando também, então sentamos e formamos o Machinage e tem sido uma das melhores coisas que fizemos!!!


Whiplash.Net: Seu primeiro álbum, "It Makes Us Hate", já estava todo gravado e até com a arte de capa definida. O que motivou a decisão em regravarem todo o material, afinal?


Fábio: Existem dois motivos principais, o primeiro foi o fato de termos mudado a formação da banda e as músicas estavam soando bem diferentes ao vivo, e o CD ainda não havia sido lançado. O segundo é que nesse meio tempo apareceu a oportunidade de fazer a mixagem com o Tim Laud, que trabalhou com o Cavalera Conspiracy e o Soulfly; aí não havia outra escolha senão gravar novamente. Ouvindo as duas versões, é notória a mudança nos arranjos das músicas, além da qualidade do trabalho do Tim Laud nas músicas. Acredito que tenha sido interessante o passo que tomamos regravando o "It Makes Us Hate".

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Whiplash.Net: Mesmo sem um disco lançado, o Machinage fez uma turnê pelos EUA em 2011. Como aconteceram as negociações e a logística das apresentações por lá? Quais as características mais marcantes da cena norte-americana?


Fábio: As negociações começaram quando enviei as músicas para um DJ (Dave Softee) da Metal Messiah Radio, e ele amou nossos sons. Ele começou a espalhar as músicas pelas rádios das quais ele tinha contato e a banda foi crescendo por lá, até que, por meio do dono da rádio, surgiu o convite para tocarmos em um festival de uns dos DJs, e que acabou agendando os outros shows, foi maravilhoso.

Fábio: As apresentações eram excelentes, a energia que sentimos lá foi demais, no ínicio havia um certo medo de como seríamos recebidos, porque haviam muitos boatos de que não gostavam de brasileiros, que teríamos problemas com o público, mas tudo bobagem. Fomos, pela primeira vez, tratados como músicos, todos os promoters nos respeitaram e nos "PAGARAM".

Fábio: A coisa por lá foi frenética, pois não tínhamos muito tempo de descanso em função de estarmos viajando de carro. Então a logística seguia da seguinte forma: dormir, dirigir, tocar, comer, tomar banho, descanso era impossível, mas tudo válido. Viajamos mais de 8000 km! Foi demais!

Fábio: Eu, na verdade, acho que umas das características mais marcantes da cena norte americana é o respeito com o artista no geral, tanto dos promoters quanto do público. Quando qualquer banda sobe ao palco, o público vai para frente e prestigia a banda, diferente daqui que, por muitas vezes, as pessoas preferem ficar fora do bar escutando o som, e quando acaba o show as pessoas vem dizer que escutaram e curtiram seu som, mas não estavam nem na frente para dar força para a banda.

Fábio: Lá a coisa é bem diferente nesse sentido, se tem 10 ou 1000 pessoas, elas vão ao bar para ver as bandas tocando, e ainda ajudam o bar a sobreviver, porque consomem lá dentro, isso faz com que o bar continue, pague as contas incluindo as bandas que eles contratam.

Fábio: Outra coisa que achei demais foi o fato dos promotores sempre nos perguntarem se iríamos tocar cover, porque eles não querem, eles querem bandas que toquem seus sons, isso é demais. Aqui, por outro lado, é o contrário também.

Whiplash.Net: O Machinage é a primeira banda de Heavy Metal no cast da gravadora Mildisc, que é focada em artistas populares. Como é trabalhar com esse pessoal, há uma correta compreensão das características do público headbanger para a divulgação de "It Makes Us Hate"?

Fábio: Tem sido interessante o apoio que eles nos têm dado dentro do limite de nossa realidade. Enfim, o CD que estava na gaveta porque estava difícil de bancarmos, saiu graças à ajuda deles. Eles ainda não compreendem bem como funciona a cena underground em geral, pois eles trabalham com alguns músicos renomados do sertanejo, mas temos feito um trabalho árduo e mostrando a eles como tudo funciona e eles vêm aceitando e se posicionando no mercado.

Fábio: Outra coisa que nos vem ajudando também é nosso selo nos EUA, a Romulus X Records. É interessante porque eles trabalham em uma frente um pouco diferente, eles focam bastante no trabalho virtual, levando as músicas às rádios universitárias nos EUA, que são muito fortes para o mercado. Com isso, a divulgação da banda por lá acaba sendo bem forte também, nos ajudando bastante a viabilizar a tour americana.

Adriano Bauer: Como nós sabíamos da dificuldade que a Mildisc teria no trabalho de distribuição do nosso material no meio underground, resolvemos criar um selo, a GEAR INC RECORDS para trabalhar esse aspecto e também entramos em contato com o Silvio Golfetti da Voice Music para ajudar nesse processo. Todo material de apoio ao disco, como pôsteres, postais e merch está sendo desenvolvido pela Gear Inc.Records. A intenção é estabelecer a Gear Inc. Records e futuramente trabalhar com mais bandas, à medida que o trabalho for se desenvolvendo.


Whiplash.Net: O vídeo para "Envy" é bastante simples, mas reflete bem o heavy/thrash do Machinery. De que conceito partiu a idéia e como foram os três dias de filmagens?

Adriano: Para falar a verdade, gravar o clip foi bem cansativo, é divertido, mas cansa demais. No final, ainda bem que tivemos um resultado ótimo! Há algum tempo já tínhamos a idéia na cabeça, e o Ricardo Kump, irmão do Fernando, veio com o complemento dessa idéia e filmamos. O trabalho do Ricardo Kump foi genial e fundamental, usamos somente uma câmera, foi gravado a céu aberto, e a iluminação foi feita com faróis de carros que nos rodeavam. O fato de ser em local aberto acabou sendo um problema, pois quando chovia não dava pra gravar, e tínhamos a intenção de lançar o clip uma semana antes do disco! No fim deu tudo certo, confiram e vejam o resultado! Se tudo correr bem enquanto estivermos na segunda turnê nos EUA, mais um clip será lançado!

Whiplash.Net: Algo muito legal é que vocês fecharam um contrato de 'endorse' com a Washburn e a Randall, fabricantes de guitarras e amplificadores que tem em seu time Paul Stanley, Vince Neil, Kirk Hammett, Scott Ian, etc. Como rolou o contato desta parceria?

Adriano: Acredito que esse foi o momento mais animal que tivemos! Rolou de uma forma jamais esperada, sem clip, sem disco, nenhum material de fato para correr atrás. Fizemos um show em MG e filmamos, estava vazio, já era 5h da manhã, mas nós sempre mantemos a idéia de que temos que tocar pra uma pessoa ou mil, da mesma maneira, e acabou sendo um puta show!

Adriano: Subimos o vídeo no youtube e tivemos a felicidade de o vídeo cair na mão do chefão da Washburn, que é a mesma empresa da Randall, me lembro abrindo o e-mail com a notícia que eles gostariam que fizéssemos parte da família Randall e Washburn!!! Li umas 10 vezes para acreditar no que estava acontecendo. Isso nos deu força para pensar que todo esse trabalho tem sido valoroso, espero que mais parcerias venham logo, shuauhsahusha.

Adriano: Nós temos endorse total das duas marcas, no começo ainda existia distribuição da Randall no Brasil, quando a representante parou de distribuir, achamos que perderíamos nosso apoio, mas o 'patrão' falou que, daquele momento em diante, seríamos parte cast de artistas internacionais da Randall!!!

Whiplash.Net: Muitas produtoras aqui do Brasil simplesmente não permitem que uma banda nacional faça a abertura de um grupo gringo famoso. Tem que pagar para tocar. A consequência é toda uma cena aprisionada e amordaçada por tal prática. Como sair deste lamaçal?

Adriano: Bom, isso é uma questão muito complexa e que vem acontecendo com muita freqüência aqui no Brasil e, na minha opinião, as bandas tem sua parcela de culpa. As bandas que querem ser vistas, pagam acreditando na visibilidade e acabam gerando esse mercado negro do rock.

Adriano: As bandas enxergam isso como investimento, mas na realidade não funciona desse jeito. Posso dizer por que uma vez pagamos, na verdade entramos na roubada da 'cota de ingresso' e acabamos tomando na cabeça, depois disso nunca mais aceitamos tal forma de negociação. O triste disso tudo é que nem todos os promotores agiam dessa forma, mas como muitas bandas aceitaram essa situação de pagar, hoje é difícil achar algum que não cobre. As bandas precisam parar de pagar, não adianta apenas ficar com conversinha no facebook de que as bandas precisam se unir. Quando acontece, tem que denunciar o promotor que cobra de bandas, mas não aparece ninguém, com medo de se queimar com esse mesmo produtor.

Adriano: Aí eu me pergunto: como se queimar com um cara que nem sequer escutou sua música e não vai te convidar para tocar novamente, a menos que você pague? É igual droga, onde tem consumidor tem o traficante, basta as bandas terem consciência que o 'corre' é outro, é tocar para todos os públicos, mostrar quem a banda é, e esperar o convite real, de tocar como músico e não como capacho.

Whiplash.Net: Após sua experiência no exterior, qual o sentimento em fazer parte de uma cena musical com tantos talentos, mas que rema contra a maré em uma estrutura nada empreendedora e com uma mentalidade tão arcaica? Que mudanças melhorariam esse quadro?

Adriano: Olha, é difícil comentar sobre isso, mas é tudo muito diferente. Lá nos EUA existe uma estrutura magnífica, é impressionante a qualidade dos equipamentos, a logística por trás dos shows, tudo é muito organizado, não há atrasos nos shows, tudo flui muito bem. Por outro lado, as bandas de lá são muito acomodadas, não sabem das facilidades e da qualidade das coisas que tem nas mãos.

Adriano: Por isso que dizemos que depende muito das bandas, não adianta achar que as coisas vão cair do céu, tem que ir atrás, não adianta pagar para tocar, tem que fazer acontecer apoiando os bares, entrando para assistir as bandas, comparecer nos eventos, isso tudo faz com que o mercado cresça. Ficar em casa curtindo página da banda e nunca ir ao show dela, não ajuda o negócio, temos que ser mais ativos nesse sentido.

Adriano: Temos como exemplo recente o fracasso do MOA, onde houve a intenção (quero acreditar) de fazer um grande evento, mas foi colocado nas mãos de pessoas medíocres que pouco se importaram com as bandas daqui e todos viram o final dessa história.

Adriano: Mas também posso afirmar que algumas bandas receberam a oferta de pagar para tocar no MOA, agora resta saber: pagaram? Se pagaram, acabaram contribuindo para a patifaria que foi o evento, pois isso torna o produtor irresponsável, uma vez que a grana dele foi garantida pelas bandas e não por esforço dele, com patrocínios ou venda de ingresso.

Whiplash.Net: Com "It Makes Us Hate" lançado, quais os próximos passos? Aliás, o Machinage está prestes a tocar novamente nos Estados Unidos. Como será agora, melhores condições de turnê?

Adriano: Primeiro, divulgá-lo o máximo possível e tocar o quanto mais pudermos. Depois temos como meta para meados do ano que vem lançarmos o segundo CD que já esta sendo escrito, e algumas coisas interessantes para o próximo CD estão bem perto de acontecer. Ainda é cedo para falar, mas assim que formos confirmando as novidades, vamos postando.

Adriano: Para 2013, pretendemos também fazer uma turnê na Europa. Para a turnê norte-americana desse ano, as condições são parecidas, mas com uma visibilidade bem melhor do Machinage por lá, iremos tocar em alguns lugares que tocamos no ano passado, então as chances de um show melhor existem. Outros bares que acabamos não indo, mas agora nos chamaram por ouvir falar da banda devido a primeira tour! Dessa vez também iremos dividir o palco com algumas bandas conhecidas como Lazarus AD, The Iron Maidens e por aí vai!

Whiplash.Net: Pessoal, o Whiplash.Net agradece pela entrevista desejando boa sorte a todos. O espaço é do Machinage para os comentários finais, ok?

Adriano: Queremos agradecer a oportunidade para mostrar nossa cara, quem quiser nos conhecer melhor, visite o site www.machinage.net, escutem nossos sons, mas não deixem de ir aos shows e comprar material da banda!!! Abraço a todos e muito obrigado!!!! IN THRASH WE TRUST!!!!




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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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