Hazamat: entrevista com a banda paraibana

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Por Ben Ami Scopinho
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O Hazamat é fruto da cena musical de um Brasil que sempre se mostrou em efervescência criativa. Natural da Paraíba, o quarteto se propõe a executar um rock´n´roll cheio de energia, mesclando-o à nossa rica musicalidade regional e com letras muito bem estruturadas. O pessoal acabou de lançar seu primeiro álbum auto-intitulado, cujo resultado tão peculiar motivou o Whiplash.net a conhecer mais a banda. Confiram aí!

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Whiplash.Net: Olá pessoal! Antes de mais nada, minhas felicitações pelo seu debut, as canções são muito bonitas! Mas vamos lá, o que os levou a terminar com o Molestrike e começar o Hazamat? Os músicos são os mesmos! Conta a história aí...

Hazamat: Primeiramente, muito obrigado pelos elogios! Costumamos dizer que o Hazamat é a nova fase de uma velha ideia, que era o Molestrike. Apesar de contar com os mesmos integrantes, a identidade musical foi ampliada. O maior diferencial, provavelmente, foi o desejo de lapidar a proposta, trazendo mais consistência e um melhor direcionamento para o nosso som. É como se muitas das referências do Molestrike permanecessem no Hazamat, porém de uma forma mais pensada, com as arestas devidamente aparadas e objetivos mais bem definidos.

Hazamat: Há uma maior maturidade e consciência em termos de música e de carreira. A definição da figura de um vocalista principal - o baixista Diogo - é parte deste processo. A mudança de nome terminou sendo, no final das contas, a melhor forma de simbolizar essas transformações e sinalizar o começo de uma nova trajetória.

Hazamat: Já a escolha do novo nome foi algo bem peculiar... Optamos por criar uma palavra nova, de sonoridade interessante e sem significado prévio. Queríamos, com esse nome, algo como uma tela em branco, na qual pudéssemos pintar a nossa história como banda. O que é Hazamat? O que significa Hazamat? São os personagens das nossas letras, o nome do cavalo presente na capa do disco, “minha casa” em húngaro! Melhor talvez seja apenas ouvir o som e tirar as suas próprias conclusões.

Whiplash.Net: E musicalmente, como fica? Quais as distinções entre o Molestrike e o Hazamat?

Hazamat: Muito do que havia no Molestrike permanece, de alguma maneira, no Hazamat: a sonoridade predominantemente pesada, pedal duplo, muitos licks e riffs nas guitarras, solos, as performances intensas, o diálogo constante entre várias vertentes do rock e a música popular brasileira. As composições estão mais bem acabadas, as letras mais consistentes, nós assumimos uma nova postura com relação ao nosso nível de dedicação ao projeto, investimento em equipamento e ensaios, envolvimento com o circuito de produção independente através do ‘Circuito Fora do Eixo’.

Whiplash.Net: E até onde a mão do produtor Edy Gonzaga influenciou nas tantas vertentes musicais do álbum “Hazamat”?

Hazamat: Nas vertentes em si, pouco, pois o processo criativo das músicas como um todo já estava finalizado quando ele entrou na pré produção do disco. Ele contribuiu muito para que nós trabalhássemos melhor as músicas. Deu dicas de como usarmos instrumentos complementares no arranjo do disco: vocais, violão, efeitos do Kaos Pad, violão de 12 cordas, teclado. O Edy é um cara experiente, excelente músico e uma referência para nós.

Hazamat: Nesse processo, acabou também se tornando um grande amigo. Ele foi um cara muito importante no sentido de organizar essas referências tão diversas - algumas até (aparentemente) antagônicas -, eliminar os excessos e tornar tudo mais direto e acessível. Foram várias dicas de como enxugar as músicas, deixando-as de fato muito mais dinâmicas e interessantes. Através dele, embarcamos nesse processo de auto crítica e desapego que resultou em um trabalho melhor.


Whiplash.Net: Sente-se forte influência de ritmos regionais de nossa música popular brasileira, tanto que “Danado”, “Sobre a Terra” e até mesmo “Memórias e Correntes” até poderiam fazer parte de alguns trabalhos do Zé Ramalho. Como rolou a criação destas canções?


Hazamat: É até uma honra a comparação com o Mestre Zé. Ele andou fazendo umas versões meio esquisitas dos Beatles, quem sabe não cairia melhor umas versões do Hazamat? (risos) Todos nascemos de famílias paraibanas, ouvimos muito Belchior, Geraldo Azevedo, Raimundo Fagner, Zé Ramalho, etc. O processo de introduzir pinceladas do nosso contexto regional nordestino nas músicas, seja nas letras ou no instrumental, é bastante natural, de certa forma.


Hazamat: Temos orgulho da nossa regionalidade. O diálogo que estabelecemos com a música popular brasileira, e em particular com os ritmos tipicamente nordestinos, é reflexo direto da nossa criação, da herança cultural que recebemos ao longo desses anos e com a qual mantemos contato até hoje. Entendemos que agregar esses valores às composições é uma maneira de apresentar um pouco do nordeste para os que pouco conhecem dele. É uma cultura muito rica, cheia de personagens míticos, ritmos característicos e de um apelo histórico muito forte. Acaba transparecendo no som, seja consciente ou inconscientemente.


Whiplash.Net: Em termos de underground nacional, o nordeste é famoso pelas bandas de metal extremo. E como fica recepção ao Hazamat, que possui uma veia mais alternativa?


Hazamat: Nós não nos enxergamos como parte do metal, ou do punk, apesar de, no instrumental, utilizarmos vários recursos característicos de ambos os estilos. Fazemos um rock progressivo. Já tocamos em eventos com outras bandas de metal ou hardcore, e normalmente os comentários são do tipo “ah, é
legal, mas não é pesado o suficiente”. O público do extremo tem uma certa vergonha de ouvir bandas que não contemplam todos os “cacoetes” do estilo.

Hazamat: Com as letras variadas, vocais melódicos na linha popular, acabamos fugindo bastante do perfil do extremo. Já nos circuitos mais populares, nós parecemos pesados demais. Por outro lado, nosso som é tão variado que uma ou outra canção acaba agradando a todos os gostos. Algumas músicas abrem rodas de pogo, outras levam o público a dançar, pular, bater cabeça. De qualquer forma, a qualidade do trabalho parece transparecer, pois somos respeitados em qualquer palco, e isso é o que importa pra nós.

Whiplash.Net: Um dos grandes pontos fortes do disco “Hazamat” é a singularidade de suas letras. São histórias de um povo, quase poéticas. Como rola sua concepção e quem os inspira neste sentido?

Hazamat: Nos inspiramos em tudo o que nos cerca: literatura, cinema, noticiários, experiências pessoais, tudo vira insumo para as letras. Não há uma fórmula secreta. As colaborações não são frequentes, embora se façam presentes - como em “Astrolábios” e “Danado”. O que não gostamos é de jogar palavras no papel ou frases de efeito só para complementar a música. Para nós, as letras são um elemento precioso, no qual investimos tempo e dedicação. Afinal de contas, um som como o nosso poderia ser cantado em inglês, talvez fosse mais fácil, soasse “melhor”, mais fluido. Mas cantar em português é uma escolha consciente, feita por acreditarmos no poder de comunicação das letras, de sensibilização. Queremos compartilhar a nossa mensagem cantando em português, com sotaque paraibano, para todo brasileiro ouvir e entender.

Whiplash.Net: O projeto gráfico é caprichado e com uma diagramação simples, mas de muito bom gosto. Quem cuidou desta parte?

Hazamat: Esse processo foi interessante. Não queríamos ter o controle dele. O nosso desejo era de que o artista gráfico pudesse “engolir” as nossas músicas e “cuspir” de volta algo que refletisse o disco. Na verdade, queríamos ver a nossa arte através dos olhos do artista, e não ficar sugerindo nada. Demos muita liberdade - e parece ter dado certo, já que o projeto gráfico vem sendo bastante elogiado. O artista responsável é Bruno Lima (essebruno@gmail.com), publicitário, designer e baixista da banda instrumental Monstro, também aqui de João Pessoa-PB. Queríamos alguém que se comprometesse em ouvir as músicas e, a partir de sua relação com elas, usasse a criatividade na arte. E foi o que ele fez, em uma roupagem moderna, intensa, simples e elegante.

Hazamat: A ideia do cavalo veio completamente dele. Não havia qualquer relação com animal nenhum. Ele surgiu com esse conceito e os seus argumentos para defendê-lo foram muito surpreendentes pra nós. Segundo Bruno, a nossa música é como um cavalo - um animal selvagem, mas que também pode ser domesticado; pode correr solto, ou podemos puxar as rédeas e direcionar para um lado ou para o outro, imprimir um ritmo suave ou levar ao galope. Num primeiro momento, a ideia não foi um consenso entre a banda, mas acabamos fazendo essa aposta e hoje estamos imensamente satisfeitos com o resultado.

Whiplash.Net: Considerando toda a versatilidade e possibilidades de sua música, até onde o Hazamat se permitiria ir, artisticamente falando?

Hazamat: “Ao infinito e além!” (risos). Acreditamos na música como um reflexo de nossa criatividade, e qualquer resultado sincero é válido. Nunca tivemos a intenção ou o interesse de rotular o nosso trabalho, muito menos de estabelecer limites. Pretendemos seguir dessa forma, bebendo de várias vertentes, misturando várias influências. Já estamos começando a incorporar alguns instrumentos diferentes nas apresentações ao vivo, como a escaleta e o ukulele. O teclado também começa a aparecer sutilmente nas novas composições. Certamente tudo isso terá impacto nos próximos trabalhos. Já vislumbramos algumas ideias do que estará no próximo disco, mas hoje a nossa preocupação é a afirmação do nosso debut, o “Hazamat”. O que podemos garantir é que o nosso objetivo com relação aos discos será sempre o de superar o anterior.

Whiplash.Net: O disco foi gravado com verbas obtidas através de lei de incentivo à cultura. Como vocês vêem a utilização dessa ferramenta? É muita burocracia ou a coisa flui bem?

Hazamat: Hoje temos no Brasil um momento favorável com relação aos editais de cultura. Acreditamos ser uma ótima iniciativa, burocrática sim, mas que traz muitos benefícios para os artistas. Foi graças a este incentivo que pudemos concluir a produção do nosso disco. Participamos de um edital anual que contempla vários artistas do município de João Pessoa, o Fundo Municipal de Cultura, que valoriza a cultura paraibana, ajudando a manter acesa a produção local. A burocracia existe em qualquer edital, mas é necessária. Poderia ser reduzida aumentando a agilidade e ainda assim manter a organização, claro. Entretanto, é um preço razoável a se pagar. No caso do Fundo Municipal de Cultura, ficamos felizes em ser contemplados e foi parte muito importante do nosso projeto. Somos gratos à FUNJOPE pelo apoio ao nosso trabalho.

Whiplash.Net: Certo, pessoal, o Whiplash.Net agradece pela entrevista e deseja boa sorte a todos! Fiquem à vontade para os comentários finais, ok?

Hazamat: Whiplash.Net, é um prazer ter vocês acompanhando e incentivando o nosso trabalho. Entendemos como muito importante o trabalho de vocês e desejamos sucesso e longevidade. Ainda com o Molestrike, tivemos uma resenha do “Cinza”. Agora, uma resenha do “Hazamat”, que nos rende uma deliciosa entrevista. Tudo isso, para nós, é espaço conquistado, são leitores curiosos, novos fãs em potencial e uma certeza de que estamos no caminho certo. Esperamos ainda aparecer muito por aqui, sempre com boas surpresas.

Hazamat: Você, que ainda não conhece o nosso trabalho, não perca tempo e venha trazer mais significado ao Hazamat! Baixe o disco gratuitamente em http://www.hazamat.com. O disco está licenciado sob Creative Commons, com o máximo de liberdade para a obra. Baixe, compartilhe! No site, há também cifras e letras das músicas, links para as nossas redes sociais, vídeos e muito mais! Whiplash.Net, muito obrigado pelo espaço, um forte abraço e até a próxima!

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Post de 13 de março de 2012

Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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