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Apokalyptic Raids: Entrevista com Necromaniac

Por Marcos Garcia
Em 30/04/11

Falar em APOKALYPTIC RAIDS é, sem sombra de dúvidas, falar de um dos pioneiros mundiais do revival anos 80 que ocorre do final dos anos 90 para cá. Apesar dos famosos problemas que é seguir adiante na cena underground nacional, a banda já lançou quatro ótimos discos, sendo o mais recente o ‘Vol. IV Phonocopia’, acaba de fazer uma tour bem sucedida por pelo Brasil e exterior, na qual visitou seis países da América do Sul. Aproveitando tudo isso, fomos fazer uma entrevista com o vocalista/guitarrista Leon Manssur ‘Necromaniac’, que nos atendeu com muita educação e gentileza.

Como consegui viver de Rock e Heavy Metal

Whiplash! – Primeiro de tudo, é um prazer poder entrevistá-lo, já que o APOKALYPTIC RAIDS é um dos pioneiros da Old School por aqui. E é justamente esta a nossa primeira pergunta: como se sente sendo referência para muitas bandas hoje em dia, não só a termo de sonoridade, mas também na atitude?

Necromaniac: Obrigado a você e ao Whiplash pelo espaço! Em princípio, eu sou só um cara que curte som. Eu toco o que eu gostaria de ouvir. Não sou inexperiente, mas também não sou guru de ninguém. Não existe isso de "Old School". Na minha cabeça, "ser um pioneiro do Old School" se traduz como: "você está velho, cara!". Existe música boa e música ruim, cada um decide. Desculpe o festival de obviedades, mas se eu não disser isso fica parecendo que eu sou candidato a algum cargo. Se algumas bandas mais novas me tomam como referência, sim, agradeço. Mas há uma grande distância entre ser fã, ter uma banda profissionalmente, e levar como hobby.

Divulgue sua banda de Rock ou Heavy Metal

Whiplash! – Falando um pouco do Metal Old School, que está bastante evidente hoje em dia, como você vê esta enxurrada de bandas tentando buscar aquela sonoridade, aquela atitude que existia a pouco mais de 20 anos atrás, sendo que muitos até mesmo não entendem bem a coisa em si?

Necromaniac: Não há regras. Não é uma questão de datas, é uma questão de qualidade. E ainda assim, é pessoal. Tem gente que acha o 'At War With Satan' tosco, eu acho sensacional. A maioria não entende. Pra entender a música de 20 anos atrás, tem que entender o contexto das pessoas daquele tempo. Há 20 anos atrás erros crassos foram cometidos, como o Heavy tentar ser pop, o Thrash tentar ser engraçado, o Metal extremo perder o bom humor, etc... Por que e até onde repetir essa história?

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Necromaniac: Eu prefiro ficar com aquilo que resiste ao tempo e evitar as modas, as tendências, os últimos lançamentos. A maioria dos últimos lançamentos em qualquer estilo é uma colagem de clichês. Se eu tiver mesmo que virar guru de alguma coisa, eu só queria dizer uma coisa: estudem a história, não sejam ignorantes! O que eu mais vejo na cena é gente ignorante, com várias "certezas".

Whiplash! – Ainda falando de eventos da Old School, como encara o retorno de muitas bandas que eram ícones nos 80, tanto daqui do Brasil quanto de fora? E como vê as bandas que, depois de anos e anos na estrada, buscam atualizar sua música para as novas gerações?

Necromaniac: Antigamente as pessoas paravam para ouvir música, ouvia-se em casa. Hoje se ouve música em ônibus lotado, no engarrafamento. E a música tem que competir com esse ruído ambiente. Claro que a música será outra, e do meu ponto de vista, será ruim. Eu sei que sou minoria, mas não gosto de música de qualidade ruim feita para gente desinformada, que ouve em condições ruins em aparelhos ruins. Existe uma superficialidade maior hoje, no Metal e fora dele. Existem grandes e péssimas bandas, antigas e novas. Existem bandas que retornaram boas, como o Vulcano, e existem bandas que retornaram péssimas (a maioria, inclusive), na minha opinião.

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Necromaniac: As pessoas ficam 10, 15 anos fora da cena e acham que vão retornar e fazer o mesmo som que faziam antes, sem retomar aquele contexto. Conheço muito "veterano" que se impressiona com banda-produto feita para enganar a garotada mais nova. Ou então acham que vão fazer um som completamente diferente, e as pessoas vão curtir só pelo seu nome. Melhor seria começar do zero.

Whiplash! – Nesses 12 anos de estrada, a banda teve uma evolução sonora bem sensível, uma vez que, apesar da personalidade forte da banda, de um início mais cru, a banda foi ficando mais encorpada, até polida, como podemos apreciar no CD novo. Você atribui esta evolução à experiência ou ao background de cada músico que passou pela banda? E o que podemos esperar da sonoridade do APOKALYPTIC RAIDS no futuro? E por falar nos membros, poderia se dizer que esta formação da banda é a ideal?

Necromaniac: Não sei se mudou tanto assim. A nossa proposta nunca mudou. O que mudou foi nossa habilidade de fazer algumas coisas. Tanto que, nos nossos álbuns, músicas de vários anos se misturam, material composto há 20 anos, há 5, e coisas novas. A maior diferença talvez esteja nas letras, que se tornaram um pouco mais pessoais.

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Necromaniac: Claro que todo integrante novo na banda tem uma pegada diferente, e essa dinâmica tem que ser trabalhada pra somar com a proposta da banda. A formação do "The Return of The Satanic Rites" se tornou referência, em 2002/2003, por uma série de fatores. Muita coisa aconteceu desde então, e parecia difícil nos superarmos depois de tantos anos. Mas a formação atual vem trabalhando duro, desde 2007, é 1/3 da vida da banda. Finalizamos as músicas para o último álbum em 2008, gravamos em 2009, fazendo vários shows, e depois do lançamento fizemos uma turnê pela América do Sul. Nosso entrosamento está no auge, e acho que neste processo superamos sim as formações anteriores. Comprovem nos nossos shows!

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Whiplash! – E por falar em no CD novo, como tem sido a recepção de ‘Vol IV – Phonocopia’ por parte da imprensa e do público em geral? Há planos de lançamento dele fora do país? E haverá para ele prensagem em vinil, já que muitos fãs gostam de discos no formato LP?

Necromaniac: As pessoas tem curtido muito o novo álbum. Ele é uma espécie de síntese de tudo que fizemos até aqui, ele tem as melhores características de todos os anteriores. As resenhas até agora têm concordado com isto. As músicas novas têm se integrado ao nosso setlist, está até difícil escolher um set sem deixar nada importante de fora...

Como consegui viver de Rock e Heavy Metal

Necromaniac: Quanto a lançamentos, o formato CD está morrendo, mas no momento não se pode abrir mão dele. E mais, precisamos e queremos fazer com todo o capricho: nosso CD tem encarte com verniz UV, e vem acompanhando de um pôster. Gastamos 10 mil reais para botar este CD no mercado, sem abrir mão da qualidade, mas fazendo um planejamento de custos espartano. Quanto a lançamento no exterior, veja na contracapa do CD, além da Paranoid (SP) e da Urubuz (RJ) lá está o selo da Hell’s Headbangers. É a maior gravadora underground no nosso segmento nos USA, junto com a Nuclear War Now. Nós temos um acordo de distribuição com a Hell’s Headbangers, e nossa gravadora anterior, que ainda pegou algumas cópias deste CD, tem contato com a NWN. Melhor que isso só se eu for lá entregar em casa...

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Necromaniac: Cada álbum nosso vendeu até agora aproximadamente 3 mil cópias, somando todos os formatos, em todo o mundo. Nossa distribuição conta há quase 10 anos com selos como Barbarian Wrath (GER), Time Before Time (POL), Weird Truth e Obliteration (JAP), entre muitos outros. Nestes 12 anos, acumulei da ordem de 40 contatos no mundo todo, e nosso batera tem mais um tanto. Creio que com o Vol. 4 iremos superar estes números, pois em 6 meses já se foram mais de 1.000 CDs, espalhados por todos esses pontos de venda, e por onde passamos em turnê. E isto tudo num cenário de vendas muito fracas de CDs. No mesmo dia que nosso CD chegou nas lojas, ele foi copiado e colocado para download em mais de 20 blogs! Isto é insustentável. Tive que pedir gentilmente que retirassem. As vendas de CDs em geral continuam em queda livre. Eu vivi entre 2003 e 2008 de vendas de CDs. Desde 2008 isto não é mais possível, apesar de estarmos vendendo bem para o mercado atual. Estamos vendendo relativamente bem, mas há alguns anos seria o dobro.

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Necromaniac: Nossa popularidade está em alta, mas poucas pessoas estão dispostas a comprar um CD, o que basicamente inviabiliza o trabalho! Se eu não gostasse muito do que eu faço, seria adeus mesmo, há algum tempo! Mas temos outros planos. Não somos contra a modernidade, muito pelo contrário: nossas faixas estão disponíveis no nosso site em streaming, os CDs estão à venda na nossa loja virtual, o download está à venda no iTunes, e já vendemos um bocado assim, por incrível que pareça! Precisamos recuperar o que gastamos na confecção do disco, para poder fazer o próximo, é simples. Para conhecer nosso som, basta acessar nosso site www.apokalypticraids.com.

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Necromaniac: Neste contexto, o LP talvez seja hoje a principal possibilidade de sustentar a banda, mais que camisetas ou cachê. Isto não é uma especulação, é uma informação concreta trazida por bandas que fizeram turnê na Europa nos últimos 6 meses: na Europa, a maioria das pessoas quer LP, e quase não compra CD. Estamos no momento trabalhando no (re)lançamento de todos os nossos álbums em LP. O novo LP ainda não saiu, e os 3 LPs anteriores, que foram lançandos em 2001, 2003 e 2005, estão esgotados. Sempre lançaremos em LP, em se tratando de Apokalyptic Raids. Eu sou fã de LPs, e o CD já vai tarde. É o que eu sempre quis, afinal de contas.

Whiplash! – A banda acaba de retornar recentemente de uma tour extensa, com shows fora do Brasil, em outros países da América do Sul, o que parece ser uma tendência, já que várias bandas brasileiras andam fazendo shows e mais shows pelo continente. Como foi a tour em si, a receptividade do público de fora? Seriam tours por países sul-americanos um sinal de que, enfim, o Metal Nacional está dando passos para entrar de vez no mercado internacional, ou seja, para as bandas daqui enfim poderem se profissionalizar de vez? E há propostas para shows na Europa e Estados Unidos?

Necromaniac: Com a queda das vendas, fazer shows se tornou vital. Exceto por um detalhe: todos estão na estrada! Temos mais gente em cima do palco do que na platéia. Não há espaço para todos. Com isto, vai haver uma seleção dos melhores.

Necromaniac: Não sei se o Metal nacional vai entrar no mercado internacional, eles tem um componente cultural muito forte que nós não temos. Mas estamos fazendo a nossa parte. Fizemos shows por todo o Brasil, e mais Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. Estamos agendando mais alguns shows pelo Brasil, e talvez outra parte da América do Sul, e sim, estamos planejando ir para a Europa.

Necromaniac: Nosso baixista Vinícius Hellpreacher acaba de chegar de uma tour com sua outra banda, o ATOMIC ROAR, pelo circuito punk da Europa, e foram quase 30 shows em um mês. Ele nos trouxe boas notícias e experiência, portanto agora falta pouco para mais uma conquista...

Whiplash! – Não é desconhecido do público em geral que você possui uma formação acadêmica privilegiada, então, você acredita que este nível cultural acaba influenciando na sonoridade, até mesmo nas letras, do APOKALYPTIC RAIDS? E ainda falando sobre a questão educacional no Heavy Metal, você crê que a falta de profundidade dos fãs em relação à música e propostas das bandas está associada a este fator?

Necromaniac: É claro que pra escrever boa música e boas letras você precisa ter um bom conhecimento e um bom vocabulário musical e literário. Como deu pra notar, a gente investe pesado em qualidade. Pode-se dizer que nosso som é uma "tosqueira hi-end" hahahaha.

Necromaniac: Com certeza, eu comentei acima que estamos na era da superficialidade, então a maioria das pessoas tende a ser muito ignorante. Esse problema não é de modo algum exclusividade do Metal. O Metal sofre mais até de outros males, como os "falsos doutores" falando besteira e os incautos acreditando...

Whiplash! – E por falar nas letras, existe nelas alguma mensagem a qual queria deixar claro ao público ouvinte?

Necromaniac: Discorde, conteste, compare, se informe, PENSE.

Whiplash! – Atualmente, há muitos fãs que se identificam com os rótulos de tal forma que eles vivem-nos, ou seja, muitos são fãs apenas desta ou daquela subdivisão, em total detrimento as outras, e você é de um tempo onde os rótulos eram pura e simplesmente classificatórios. Como você vê este movimento em si? Acredita que isso chega a refletir no mercado? E na sua opinião, quais seriam os fatores que levam o Brasil a ter tantas disparidades em termos de cena, ou seja, eventos como Rock in Rio lotam, mas shows de bandas nativas, muitas vezes, estão vazios?

Necromaniac: O Brasil é muito atrasado culturalmente, e isto leva a todo o resto. É lamentável que as pessoas sejam assim tão fúteis e delirantes, mas muita banda-produto vai ser vendida aqui como "ideológica", antes que o brasileiro entenda o que se passa. Isso tira do Metal o seu caráter transformador e revolucionário, e o torna só um entretenimento, um escapismo fútil. As pessoas não conseguem ler nas entrelinhas.

Necromaniac: Tem que haver uma seleção natural mesmo. Tem certos shows que a banda é tão ruim que 4 ou 5 pagantes é muito público. O público não tem culpa de existir tanta banda ruim. Ninguém é obrigado a apoiar banda ruim.

Whiplash! – Agradecemos de coração a sua atenção, e pedimos que deixe suas considerações finais e mensagens para nossos leitores.

Necromaniac: Obrigado mais uma vez pelo espaço! E se você é fã de MOTÖRHEAD, VENOM, BATHORY, HELLHAMMER, ONSLAUGTH, etc, ouça nosso som e detone seu pescoço! O ponto de partida é www.apokalypticraids.com. Temos CDs, camisas e LPs disponíveis, entrem em contato! Produtores interessados, estamos agendando shows!

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Sobre Marcos Garcia

Marcos Garcia é Mestrando em Geofísica na área de Clima Espacial, Bacharel e Licenciado em Física, professor, escritor e apreciador de todas as subdivisões de Metal, tendo sempre carinho pelas bandas mais jovens e desconhecidas do público, e acredita no Underground como forma de cultura e educação alternativas. Ainda possui seu próprio blog, o Metal Samsara, e encara a vida pela máxima de Buda "esqueça o passado, não pense no futuro, concentre-se apenas no presente".

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